RECLAMA-SE MUITO QUE O CIDADÃO COMUM - PRINCIPALMENTE
O BRASILEIRO - NÃO ENTENDE DE ARQUITETURA, QUE AS CIDADES
ESTÃO CHEIAS DE PROJETOS RUINS E QUE NÃO SE DÁ
A DEVIDA IMPORTÂNCIA AO PAPEL DO ARQUITETO. QUAL É A CAUSA
DESSA DISTÂNCIA ENTRE O QUE SE DISCUTE ENTRE OS ARQUITETOS E O
QUE SE DISCUTE NA SOCIEDADE? E COMO REVERTÊ-LA? AU OUVIU ARQUITETOS,
URBANISTAS E PENSADORES DA CIDADE E DA PROFISSÃO PARA SABER COMO
APROXIMAR A DISCUSSÃO ARQUITETÔNICA DA SOCIEDADE. A RESPOSTA,
ÓBVIO, NÃO É SIMPLES. MAS PODE SER O COMEÇO
DE UMA SOLUÇÃO.
Qual
discussão? Como acontece em outras áreas, os arquitetos
discutem na academia e agremiações temas técnicos
e profissionais de interesse dos pares, visando a trocar experiências
e aperfeiçoar misteres. Assuntos que nem sempre serão do
interesse amplo, embora não deixem de ser importantes. Mas há
outros debates importantes, e é de estranhar porque não
são de interesse de todos, inclusive dos arquitetos, pois não
estamos fora da sociedade! Por exemplo, discutir a arquitetura não
apenas como produto, ou moda, mas fato cultural complexo, arte e técnica
a serviço do coletivo e por isso mesmo, exigindo que seja feita
sempre com a melhor técnica e a maior qualidade, porque é
do interesse coletivo...
Ruth Verde Zein, arquiteta e professora da FAU-Mackenzie
Numa
sociedade onde sistematicamente houve um distanciamento entre o conhecimento
científico, a produção artístico-cultural
e a sociedade, a reconstrução deste elo se torna um trabalho
árduo. A necessidade de democratização do acesso
ao conhecimento e as questões de abrangência coletiva e de
âmbito socioambiental exercerão um apelo inevitável
para um esforço eqüitativo e urgente no sentido de uma revisão
dos modelos de desenvolvimento e conseqüentemente na produção
de objetos e espaços construídos. A sociedade tem sido a
indutora de uma reversão nos procedimentos em que os bens coletivos
têm deixado de ser gestos beneficentes, e a arquitetura deverá
ser o reflexo dessas mudanças, de modo que o Programa, o Plano
e o Projeto sejam o resultado da efetiva interação com o
ambiente em atividade.
Newton Massafumi, arquiteto
A
arquitetura possui uma sina interessante de ser entre as artes a que carrega
uma relação mais objetiva com o homem, por definir o abrigo
de todas as suas atividades. Ao mesmo tempo, e talvez por isso mesmo,
possua uma dificuldade de ser compreendida além das meras questões
objetivas, como se daria com a música, a literatura, as artes visuais
etc. Discutir a arquitetura com a sociedade deveria ser, por princípio,
ampliar sua educação em sentido amplo, formando as crianças,
por exemplo. Uma hipótese é a de se aproveitar os currículos
já existentes no ensino fundamental, incorporando o estudo da arquitetura
junto às demais atividades artísticas. É trágico
imaginar que um país que montou um acervo tão importante
de arquitetura moderna ao longo de décadas, inclusive servindo
ao mercado, não tenha conseguido preservá-la como um valor
cultural, difundido anonimamente, como deve ser o extrato de uma cultura.
Francisco Spadoni, arquiteto e professor da FAUUSP
O
diálogo entre arquitetura e sociedade ocorre em si e é permanente.
Basta olhar a história da arte e da cultura para identificarmos
os períodos progressistas da humanidade em que a arquitetura exibe
o espírito do momento histórico que a engendrou. Da mesma
forma, essa leitura permite perceber que em alguns períodos, a
arte e a arquitetura evidenciam um universo plástico maneirista,
em que as bases sociais que as produziram não mais existem e a
relação entre arquitetura e sociedade evidencia sua decadência.
Atualmente, em nosso país, vivemos um momento em que as propostas
mais sérias dos arquitetos são festejadas, enquanto se produz
uma arquitetura de caráter comercial que, influenciada pelo negócio,
infesta nossas cidades de um desenho espúrio e uma estética
extremamente duvidosa.
Decio Tozzi, arquiteto
A
arquitetura tem que ser vista no contexto urbano, e não isolada.
Se há uma atenção maior para os espaços públicos,
daí quase que naturalmente se aproxima a discussão arquitetônica
da sociedade. A falta de envolvimento da população com a
arquitetura deriva da falta de envolvimento da população
com a cidade. Quanto mais a população se aproxima da cidade,
mais se aproxima da arquitetura. Muitos dos problemas das cidades advêm
do desapreço de seus habitantes por ela. E o desapreço vem
da falta de conhecimento. A falta de conhecimento da cidade, do desenho
da cidade e de sua arquitetura, é um erro que cometemos nas cidades
brasileiras. Erro imperativo que se corrija! Como presidente da UIA, assumi
a missão de difundir essa visão com o concurso Celebração
das cidades, envolvendo profissionais e estudantes do mundo inteiro nesse
debate, os quais atuam como multiplicadores em suas comunidades locais.
Jaime Lerner, arquiteto e urbanista
