Oscar
Niemeyer inicia a sua incursão no design de móveis em 1971.
"O problema que encontrei no equipamento dos edifícios é
que, muitas vezes, o mobiliário, o arranjo interno, prejudica completamente
a arquitetura", diz o arquiteto no livro Móvel moderno no
Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, ao explicar o porquê
do interesse em projetar mobiliário: considera-os parte fundamental
da composição arquitetônica. Na mesma publicação,
Niemeyer revela ainda que prevê em seus projetos os espaços
destinados aos grupos de móveis e, se colocados de maneira indevida,
todo o projeto é prejudicado. "Às vezes eles não
estão de acordo com a arquitetura, e o ambiente se faz sem a unidade
que a gente gostaria. Por isso é que eu comecei", diz, e segue,
"todos os móveis estão presos ao princípio de
que são complemento da arquitetura e devem ser atualizados e modernos
como a própria arquitetura".
De acordo com o arquiteto e pesquisador Júlio Katinsky, Niemeyer
fez parte de um grupo de arquitetos pioneiros na prática do design
de móveis no Brasil, cujo trabalho foi importante para "a
animação do movimento de modernização do móvel
e para a introdução do desenho industrial no País".
O desenho da poltrona alta com banqueta, sua primeira peça, teve
como parceira sua filha, Anna Maria Niemeyer. O móvel foi produzido
com couro no encosto e estofado, e lâminas de madeira na estrutura
– material que não era utilizado no Brasil.
Assim como na arquitetura, Niemeyer instigou o uso de novos materiais
(ou novos usos para os mesmos materiais) e, levando em conta os problemas
da produção mobiliária no País, iniciou o
estudo de produtos como a madeira prensada, muito utilizada nos móveis
suecos naquele período. O material proporcionava simplicidade construtiva.
Diferentemente dos suecos, porém, o arquiteto optou por projetar
em superfícies mais largas, de formas completamente variadas.
O
primeiro protótipo da poltrona alta com banqueta não utilizou
madeira e tinha sua estrutura feita de lâminas de aço e ângulos
retos – aquele mesmo pelo qual, em seu poema, Niemeyer afirmava
não se atrair ("não é o ângulo reto que
me atrai. Nem a linha reta, dura inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual"). Não à
toa, Niemeyer introduz as curvas no projeto, o que fez com que o móvel
tivesse de ser produzido na França, visto que no Brasil a tecnologia
que permite a curvatura do aço ainda não era popular. Até
por isso, as primeiras experiências do arquiteto na área
de mobiliários foram inicialmente mais conhecidas na Europa.
Após algumas peças executadas, o estudo da madeira prensada
permitiu maior economia e facilidade de construção. "É
interessante assinalar como a técnica da madeira prensada nos aproxima
da arquitetura: a mesma possibilidade de formas novas, o mesmo empenho
em reduzir seção e simplificar o sistema construtivo",
conta Niemeyer em Móvel moderno no Brasil. Curvada, a madeira é
fixada ao centro do assento, de onde saem seus dois pontos de apoio, que
garantem o equilíbrio da peça. Um deles é prolongado
e utilizado, também, como estrutura de apoio do encosto.
A partir desses conceitos, Niemeyer passou a produzir poltronas, mesas,
cadeiras de balanço, espreguiçadeiras e marquesas, utilizando,
além da madeira prensada, as palhinhas naturais, que viraram materiais
característicos de seus móveis. Com essas e outras mobílias,
o arquiteto equipou vários de seus projetos, como a sede do Partido
Comunista Francês, em Paris. "Deve haver uma adequação
do móvel e o interior, dependendo do tipo de prédio. Numa
residência, por exemplo, os móveis devem acompanhar a maneira
de viver do homem de hoje; eles são mais simples, menos austeros",
diz.
Os móveis assinados por Niemeyer já foram expostos no Centro
George Pompidou, em Paris, no Chiostro Grande, em Florença, na
sede da Organização das Nações Unidas (ONU),
em Nova York, no salão de Paris, no Salone del Mobile, em Pádua,
na Feira Internacional de Colônia, na Alemanha, no Salão
Internacional do Móvel de Milão e em diversos museus brasileiros.
As peças voltaram a ser fabricadas e, segundo Anna Maria Niemeyer,
estarão em breve disponíveis para comercialização.
AU LEITURAS
Móvel moderno no Brasil, de Maria Cecilia Loschiavo
dos Santos. Studio Nobel/Fapesp/Edusp: 1995.