Publicidade
  Login:   Senha:   OK  
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir
Casa

OSCAR NIEMEYER - CATAGUASES, MG - 1941
UM NATIVISMO ESQUECIDO
RESIDÊNCIA NA ZONA DA MATA MINEIRA REVELA A SÍNTESE DE MODERNIDADE E TRADIÇÃO EM NIEMEYER

POR DANILO MATOSO MACEDO

border=0


Construída num terreno profundo em leve "L" à beira do rio Pomba, a casa se revela para a rua apenas como um muro revestido de pedra do tipo canjiquinha, com um único e generoso vão cujo portão só se fecha à noite. O ajardinamento projetado por Burle-Marx hoje quase oculta a edificação, ligeiramente recuada da rua, que se apresenta como um volume elevado, encostado nas laterais do terreno e abrindo seus quartos para frente. Metade desse bloco apóia-se sobre três delgados pilares de concreto recuados em pouco mais de 1 m e sustenta o balanço graças às vigas de seção variável conforme o momento fletor - um pequeno pilotis. A outra metade, mais próxima da entrada, fecha-se numa parede ligeiramente recuada, revestida por pedras similares ao muro frontal, com o portão da garagem e a porta de serviço junto à entrada. A parede dobra-se em suave diagonal que encaminha a passagem sob o pilotis calçado com pedra e à porta de ferro e vidro, emoldurada por azulejos de feição portuguesa.

O interior, inicialmente comprimido em estreito vestíbulo, abre-se numa sala de estar de pé-direito duplo, conforme nos explica o próprio arquiteto ao relatar ao cliente a alteração de projeto que o levou à solução definitiva:
"O serviço foi desviado para junto do terreno vizinho, o que permitiu à sala de jantar ligação direta com o pátio interno. As escadas para o sobrado também foram alteradas. O primeiro lance conduz à sala de música localizada a 0,80 (m) do piso do living room. O escritório passou para o segundo pavimento e, além de estar próximo ao quarto de dormir e funcionar independente da circulação dos quartos e do banheiro, tem ainda um terraço próprio com ligação direta com o pátio.

Espero que o meu serviço lhe satisfaça, pois estou certo de que a casa poderá ficar muito boa. A parte dos fundos formará um conjunto de salas e pátio onde o ambiente será agradável. Plasticamente, ela apresentará esse aspecto simples e despretensioso que caracterizou a nossa velha arquitetura colonial.

Sugeria-lhe que a casa fosse encostada lateralmente nos vizinhos. É a solução que sempre propomos em casos iguais ao seu. Geralmente os proprietários não aceitam bem essa sugestão, mas é a que convém".

A cobertura de duas águas de telhas capa-e-bica, apenas sugerida no beiral frontal que protege a parede caiada, é oculta sob uma laje de forro sobre todos os espaços internos e expõe sua natureza em telhas vãs sobre o terraço (ou varanda) que abre o escritório e o estar íntimo para o amplo jardim dos fundos. De modo a encerrar o mencionado pátio, a faixa final da cobertura estende-se até a divisa lateral oposta do terreno, apoiada em pilares de concreto harmonizados com o jogo estrutural frontal.

As aberturas dos quartos e áreas de serviço são feitas predominantemente como pequenos vãos em panos de parede. As janelas de madeira dos quartos, inicialmente detalhadas pelo arquiteto em guilhotina, ganham folhas semi-embutidas de venezianas, de modo a fornecer a necessária privacidade, tendo seu sistema de abertura alterado num episódio que alerta para o tipo de novidade de que constituía. Em outubro de 1941, Niemeyer explica a Peixoto: "A esquadria agora está muito boa, mas eu aconselharia você a mandar executar aqui no Rio, pois trata-se de um tipo pouco usado e portanto mais difícil de executar". A caixilharia de madeira também guarnece as portas envidraçadas das salas e escritórios, semifechadas por um peitoril opaco.

Esse jogo de opacidade e transparência é arrematado pelo pequeno pano de tijolos de vidro que ilumina a sala de música por sob o pilotis frontal. A luz tênue que por ali penetra ganha nova temperatura ao se refletir nos paramentos de peroba-do-campo da sala de música, harmonizada com o pesado corrimão de madeira maciça apoiado sobre finos montantes de ferros redondos e pouco espaçamento.

A intencionalidade desse tipo de ambiência é atestada pela estrita definição do arquiteto sobre o esquema de cores a ser seguido, feita em abril de 1942:
"Externamente, a meu ver, ela deveria ser caiada de branco. As esquadrias poderiam ficar azuis por fora e por dentro na cor da parede, num tom um pouco mais forte apenas. Internamente, a não ser nas paredes indicadas para azul, eu gostaria da casa num tom único - pérola por exemplo. Os banheiros, a copa, a cozinha e os tetos ficariam ainda em caiação branca. As colunas externas e os caibros ficariam num tom marrom e branco respectivamente. No papel anexo indico o tom conveniente para o azul e o marrom. Para obtê-los será necessário empregar tinta a óleo. O seu pintor vai achar o tom muito escuro, mas é o que convém. (...) Quando a obra estiver rebocada e as esquadrias colocadas peço a você o favor de avisar-me para ir vê-la".

A diversidade cromática foi complementada tanto pelo trabalho de Joaquim Tenreiro que, a serviço da empresa de decoração Laubisch-Hirth, elaborou os desenhos dos móveis, quanto por artistas plásticos renomados cujas obras complementam o conjunto.

A integração plena entre paisagismo, arquitetura, escultura e pintura - bem como sua conservação - deve-se à proximidade de Francisco Peixoto e sua família com círculos literários e artísticos. Peixoto foi um dos fundadores da revista Verde, na década de 1920, e nos anos seguintes foi com seu irmão, um dos proprietários do Ginásio de Cataguases, também projeto de Oscar Niemeyer. A extensão da influência dessas obras é imensurável. A residência de Francisco Peixoto foi publicada no no 4 da revista mineira Arquitetura e engenharia em 1947, na primeira monografia publicada sobre Oscar Niemeyer, por Stamo Papadaki em 1950, e na revista francesa L'Architecture d'Aujour d'Hui em seus números 42 e 43 de 1952. Entretanto, já a partir da terceira monografia sobre Niemeyer publicada por Papadaki, em 1960, os projetos de feição nativista do arquiteto passam a ser sistematicamente esquecidos. A menção a esses trabalhos passou a ser evitada mesmo nos numerosos textos autobiográficos de Niemeyer, que situa o início de seus trabalhos em Pampulha.

Entretanto, foi a partir da residência de Peixoto que Cataguazes vivenciou um surto de arquitetura moderna sem precedentes em cidades de similar porte. Expoentes cariocas como os irmãos Roberto, Aldary Toledo, Carlos Leão e Francisco Bolonha passaram a construir sistematicamente na cidade. A vitalidade cultural duradoura do patrimônio de Cataguases é atestada pelo surgimento de arquitetos como Flávio Almada, atuante inicialmente na região e logo em Belo Horizonte, e pela realização de congressos, como o 4º Seminário Docomomo Brasil. Mais que um mostruário de obras exemplares, Cataguases é a demonstração de que é possível a disseminação da cultura arquitetônica na realidade brasileira.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
 
 
Envie para um amigo Imprimir
 
 
Relacionados
 

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Internacional :: ed 176 - Novembro 2008
Encontro de gerações

PINIweb :: 27/10/08
Relação entre arquitetos e engenheiros é destaque de fórum em São Paulo

Téchne :: Capa :: ed 140 - Novembro 2008
Alto e pronto

Téchne :: Artigo :: ed 140 - Novembro 2008
Urbanização, agregados minerais e sustentabilidade

 
 
Publicidade


digital aU
 
 
 
     
 
 
 
     
 
Notícias  
 

04/12/2008
Senado aprovou Projeto de Lei que garante assistência técnica gratuita à baixa renda

03/12/2008
Obras contratadas reduzirão impacto da crise financeira na construção civil

03/12/2008
Arquitetos já sentem os reflexos da crise

02/12/2008
Arquiteto chileno é o único latino-americano premiado no Award for Emerging Architecture

 
 
lojaPini
OK
 
TAGs
Entender TAG
arquitetura Banco do Brasil Caixa Caixa Econômica Federal cimento crédito crise Crise financeira emprego FGTS FGV financiamento materiais MP 443 poupança prêmio projeto sinduscon-sp sustentabilidade votorantim
 
 
Guia da Construção
 
 
 
 
piniweb Copyright © 2008 - Editora PINI Ltda. Todos os direitos reservados.
   
  OK
 
 
sites Pini  
     
   
  aU - Arquitetura & Urbanismo
Casa | Brasil | Internacional | Entrevista | Interseção | Crônicas Agudas | Exercício Profissional | Interiores
  NOTICIÁRIO
Arquitetura|Custos|Exercício Profissional e Entidades|Gestão|Habitação|Infra-estrutura|Legislação|Mercado Imobiliário|Sustentabilidade|Tecnologia & Materiais|Urbanismo
  REVISTAS
Construção Mercado | aU - Arquitetura & Urbanismo | Téchne | Equipe de Obra
  LIVROS & TCPO | SOFTWARES
  GUIA DA CONSTRUÇÃO
Guia de Fornecedores | Preços Pesquisados | Índices e Custos | Atualização Monetária | Como Especificar
  SERVIÇOS
Expediente | Fale Conosco | Cadastre-se | Suporte de Software | Representantes | FAQ Portal | Anuncie
   
 
 
by ContentStuff
aU