Construída num terreno profundo em leve "L" à
beira do rio Pomba, a casa se revela para a rua apenas como um muro revestido
de pedra do tipo canjiquinha, com um único e generoso vão
cujo portão só se fecha à noite. O ajardinamento
projetado por Burle-Marx hoje quase oculta a edificação,
ligeiramente recuada da rua, que se apresenta como um volume elevado,
encostado nas laterais do terreno e abrindo seus quartos para frente.
Metade desse bloco apóia-se sobre três delgados pilares de
concreto recuados em pouco mais de 1 m e sustenta o balanço graças
às vigas de seção variável conforme o momento
fletor - um pequeno pilotis. A outra metade, mais próxima
da entrada, fecha-se numa parede ligeiramente recuada, revestida por pedras
similares ao muro frontal, com o portão da garagem e a porta de
serviço junto à entrada. A parede dobra-se em suave diagonal
que encaminha a passagem sob o pilotis calçado com pedra e à
porta de ferro e vidro, emoldurada por azulejos de feição
portuguesa.
O interior, inicialmente comprimido em estreito vestíbulo, abre-se
numa sala de estar de pé-direito duplo, conforme nos explica o
próprio arquiteto ao relatar ao cliente a alteração
de projeto que o levou à solução definitiva:
"O serviço foi desviado para junto do terreno vizinho, o que
permitiu à sala de jantar ligação direta com o pátio
interno. As escadas para o sobrado também foram alteradas. O primeiro
lance conduz à sala de música localizada a 0,80 (m) do piso
do living room. O escritório passou para o segundo pavimento e,
além de estar próximo ao quarto de dormir e funcionar independente
da circulação dos quartos e do banheiro, tem ainda um terraço
próprio com ligação direta com o pátio.
Espero que o meu serviço lhe satisfaça, pois estou certo
de que a casa poderá ficar muito boa. A parte dos fundos formará
um conjunto de salas e pátio onde o ambiente será agradável.
Plasticamente, ela apresentará esse aspecto simples e despretensioso
que caracterizou a nossa velha arquitetura colonial.
Sugeria-lhe que a casa fosse encostada lateralmente nos vizinhos. É
a solução que sempre propomos em casos iguais ao seu. Geralmente
os proprietários não aceitam bem essa sugestão, mas
é a que convém".
A cobertura de duas águas de telhas capa-e-bica, apenas sugerida
no beiral frontal que protege a parede caiada, é oculta sob uma
laje de forro sobre todos os espaços internos e expõe sua
natureza em telhas vãs sobre o terraço (ou varanda) que
abre o escritório e o estar íntimo para o amplo jardim dos
fundos. De modo a encerrar o mencionado pátio, a faixa final da
cobertura estende-se até a divisa lateral oposta do terreno, apoiada
em pilares de concreto harmonizados com o jogo estrutural frontal.
As aberturas dos quartos e áreas de serviço são
feitas predominantemente como pequenos vãos em panos de parede.
As janelas de madeira dos quartos, inicialmente detalhadas pelo arquiteto
em guilhotina, ganham folhas semi-embutidas de venezianas, de modo a fornecer
a necessária privacidade, tendo seu sistema de abertura alterado
num episódio que alerta para o tipo de novidade de que constituía.
Em outubro de 1941, Niemeyer explica a Peixoto: "A esquadria agora
está muito boa, mas eu aconselharia você a mandar executar
aqui no Rio, pois trata-se de um tipo pouco usado e portanto mais difícil
de executar". A caixilharia de madeira também guarnece as
portas envidraçadas das salas e escritórios, semifechadas
por um peitoril opaco.
Esse jogo de opacidade e transparência é arrematado pelo
pequeno pano de tijolos de vidro que ilumina a sala de música por
sob o pilotis frontal. A luz tênue que por ali penetra ganha nova
temperatura ao se refletir nos paramentos de peroba-do-campo da sala de
música, harmonizada com o pesado corrimão de madeira maciça
apoiado sobre finos montantes de ferros redondos e pouco espaçamento.
A intencionalidade desse tipo de ambiência é atestada pela
estrita definição do arquiteto sobre o esquema de cores
a ser seguido, feita em abril de 1942:
"Externamente, a meu ver, ela deveria ser caiada de branco. As esquadrias
poderiam ficar azuis por fora e por dentro na cor da parede, num tom um
pouco mais forte apenas. Internamente, a não ser nas paredes indicadas
para azul, eu gostaria da casa num tom único - pérola
por exemplo. Os banheiros, a copa, a cozinha e os tetos ficariam ainda
em caiação branca. As colunas externas e os caibros ficariam
num tom marrom e branco respectivamente. No papel anexo indico o tom conveniente
para o azul e o marrom. Para obtê-los será necessário
empregar tinta a óleo. O seu pintor vai achar o tom muito escuro,
mas é o que convém. (...) Quando a obra estiver rebocada
e as esquadrias colocadas peço a você o favor de avisar-me
para ir vê-la".
A diversidade cromática foi complementada tanto pelo trabalho
de Joaquim Tenreiro que, a serviço da empresa de decoração
Laubisch-Hirth, elaborou os desenhos dos móveis, quanto por artistas
plásticos renomados cujas obras complementam o conjunto.
A integração plena entre paisagismo, arquitetura, escultura
e pintura - bem como sua conservação - deve-se
à proximidade de Francisco Peixoto e sua família com círculos
literários e artísticos. Peixoto foi um dos fundadores da
revista Verde, na década de 1920, e nos anos seguintes foi com
seu irmão, um dos proprietários do Ginásio de Cataguases,
também projeto de Oscar Niemeyer. A extensão da influência
dessas obras é imensurável. A residência de Francisco
Peixoto foi publicada no no 4 da revista mineira Arquitetura e engenharia
em 1947, na primeira monografia publicada sobre Oscar Niemeyer, por Stamo
Papadaki em 1950, e na revista francesa L'Architecture d'Aujour d'Hui
em seus números 42 e 43 de 1952. Entretanto, já a partir
da terceira monografia sobre Niemeyer publicada por Papadaki, em 1960,
os projetos de feição nativista do arquiteto passam a ser
sistematicamente esquecidos. A menção a esses trabalhos
passou a ser evitada mesmo nos numerosos textos autobiográficos
de Niemeyer, que situa o início de seus trabalhos em Pampulha.
Entretanto, foi a partir da residência de Peixoto que Cataguazes
vivenciou um surto de arquitetura moderna sem precedentes em cidades de
similar porte. Expoentes cariocas como os irmãos Roberto, Aldary
Toledo, Carlos Leão e Francisco Bolonha passaram a construir sistematicamente
na cidade. A vitalidade cultural duradoura do patrimônio de Cataguases
é atestada pelo surgimento de arquitetos como Flávio Almada,
atuante inicialmente na região e logo em Belo Horizonte, e pela
realização de congressos, como o 4º Seminário
Docomomo Brasil. Mais que um mostruário de obras exemplares, Cataguases
é a demonstração de que é possível
a disseminação da cultura arquitetônica na realidade
brasileira.
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