Em maio de 1942, Oscar Niemeyer escreve ao escritor
e industrial de Cataguazes, Francisco Ignácio Peixoto e lhe
pede: "estiveram aqui no escritório dois arquitetos
do Museu de Arte Moderna de Nova York, que me pediram plantas e
fotografias de alguns trabalhos para uma exposição
que vão fazer (...). Eles gostaram da sua casa e se fosse
possível você conseguir umas três fotografias,
duas externas e uma do living room, eu agradeceria a você".
Os dois arquitetos do Museu de Arte Moderna eram G. E. Kidder-Smith
e Philip Goodwin. A exposição que seria realizada
em Nova York no ano seguinte era Brazil builds. Por motivos que
hoje desconhecemos, a casa não tomou parte da exposição,
mas o interesse dos norte-americanos tinha suas razões: o
subtítulo da exposição era Arquitetura nova
e antiga e a residência de Peixoto era uma das tentativas
de síntese entre esses dois universos.
Conforme relata Zilah Deckker em estudo recente, esse enfoque foi
pautado pela equipe do SPHAN (Serviço de Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional), sobretudo por Lucio
Costa. O arquiteto se ocupou na década de 1930 do enraizamento
conceitual da arquitetura moderna na tradição construtiva
luso-brasileira. E o catálogo da exposição
praticamente demonstrava a real possibilidade de aplicação
dos conceitos nativistas codificados no projeto da vila operária
de Monlevade, de 1935, e nos textos Razões da nova arquitetura,
de 1934, e Documentação necessária, de 1938.
A fusão desses princípios com os das vanguardas européias,
fazendo uso das avançadas técnicas e tecnologias do
concreto armado no Brasil, constituiu um apelo simbólico
útil à modernização unificadora de Vargas.
Oscar Niemeyer vinha trabalhando com Lucio Costa desde sua formatura
em 1935 e foi com ele que, contratado pelo SPHAN, projetou em 1938
o expoente máximo de seus ensaios nativistas, o Hotel de
Ouro Preto. A definição de um léxico híbrido
foi conseqüente: estrutura independente, telhado cerâmico,
paredes caiadas perfuradas por janelas com venezianas ou gelosias
tratados com tintas escuras, paredes isoladas revestidas com azulejos,
embasamento e piso externo de pedra bruta - como nos baldrames
e arrimos de pedra aparentes das cidades coloniais. Comungam dos
mesmos princípios as residências Cavalcanti (Rio de
Janeiro, 1940), Johnson (Fortaleza, 1942) e sua própria residência
(Rio de Janeiro, 1942) - todas publicadas em Brazil builds
e, mais recentemente, em uma monografia sobre as casas de Niemeyer
organizada por Alan Hess.
A residência de Francisco Peixoto é peça exemplar desse grupo.
A retórica formal cobrava seu preço da lógica estrutural herdada
das casas operárias de Lucio Costa em Monlevade. A necessidade de
uma viga invertida de travamento junto à fachada frontal levou à
ancoragem também invertida do vigamento transversal. Essa ancoragem,
oculta sob as paredes divisórias entre os quartos, estende-se por
aproximadamente dois metros além do pilar. Não apenas os quartos
superiores têm sua liberdade de planta comprometida, mas a inexistência
de outros pilares além daqueles aparentes sugere tratar-se aqui
predominantemente de alvenaria portante - com esforços
distribuídos numa laje de 15 cm.
Conhecer os experimentos nativistas praticados continuadamente
por Oscar Niemeyer é de extrema importância. Não
se trata de questionar o ineditismo ou de depreciar a qualidade
de suas invenções.
Ao contrário, é exatamente no entendimento da pluralidade,
diversidade e extensão de sua obra que se pode entender e
valorar a economia de recursos de sua produção recente
mais conhecida. No arquiteto que experimentava com elementos modernos
e tradicionais, enxergamos não a expressão gestual
do artista, mas o cuidado meticuloso do artesão.
E sua figura humaniza-se e se aproxima de seus colegas de ofício,
sinalizando que é na simplicidade do trato cotidiano com
as coisas da profissão que reside o seu verdadeiro aprendizado. |