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Casa

OSCAR NIEMEYER - CATAGUASES, MG - 1941
UM NATIVISMO ESQUECIDO
RESIDÊNCIA NA ZONA DA MATA MINEIRA REVELA A SÍNTESE DE MODERNIDADE E TRADIÇÃO EM NIEMEYER

POR DANILO MATOSO MACEDO



HERANÇA NATIVISTA

Em maio de 1942, Oscar Niemeyer escreve ao escritor e industrial de Cataguazes, Francisco Ignácio Peixoto e lhe pede: "estiveram aqui no escritório dois arquitetos do Museu de Arte Moderna de Nova York, que me pediram plantas e fotografias de alguns trabalhos para uma exposição que vão fazer (...). Eles gostaram da sua casa e se fosse possível você conseguir umas três fotografias, duas externas e uma do living room, eu agradeceria a você".

Os dois arquitetos do Museu de Arte Moderna eram G. E. Kidder-Smith e Philip Goodwin. A exposição que seria realizada em Nova York no ano seguinte era Brazil builds. Por motivos que hoje desconhecemos, a casa não tomou parte da exposição, mas o interesse dos norte-americanos tinha suas razões: o subtítulo da exposição era Arquitetura nova e antiga e a residência de Peixoto era uma das tentativas de síntese entre esses dois universos.

Conforme relata Zilah Deckker em estudo recente, esse enfoque foi pautado pela equipe do SPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), sobretudo por Lucio Costa. O arquiteto se ocupou na década de 1930 do enraizamento conceitual da arquitetura moderna na tradição construtiva luso-brasileira. E o catálogo da exposição praticamente demonstrava a real possibilidade de aplicação dos conceitos nativistas codificados no projeto da vila operária de Monlevade, de 1935, e nos textos Razões da nova arquitetura, de 1934, e Documentação necessária, de 1938.

A fusão desses princípios com os das vanguardas européias, fazendo uso das avançadas técnicas e tecnologias do concreto armado no Brasil, constituiu um apelo simbólico útil à modernização unificadora de Vargas.

Oscar Niemeyer vinha trabalhando com Lucio Costa desde sua formatura em 1935 e foi com ele que, contratado pelo SPHAN, projetou em 1938 o expoente máximo de seus ensaios nativistas, o Hotel de Ouro Preto. A definição de um léxico híbrido foi conseqüente: estrutura independente, telhado cerâmico, paredes caiadas perfuradas por janelas com venezianas ou gelosias tratados com tintas escuras, paredes isoladas revestidas com azulejos, embasamento e piso externo de pedra bruta - como nos baldrames e arrimos de pedra aparentes das cidades coloniais. Comungam dos mesmos princípios as residências Cavalcanti (Rio de Janeiro, 1940), Johnson (Fortaleza, 1942) e sua própria residência (Rio de Janeiro, 1942) - todas publicadas em Brazil builds e, mais recentemente, em uma monografia sobre as casas de Niemeyer organizada por Alan Hess.

A residência de Francisco Peixoto é peça exemplar desse grupo. A retórica formal cobrava seu preço da lógica estrutural herdada das casas operárias de Lucio Costa em Monlevade. A necessidade de uma viga invertida de travamento junto à fachada frontal levou à ancoragem também invertida do vigamento transversal. Essa ancoragem, oculta sob as paredes divisórias entre os quartos, estende-se por aproximadamente dois metros além do pilar. Não apenas os quartos superiores têm sua liberdade de planta comprometida, mas a inexistência de outros pilares além daqueles aparentes sugere tratar-se aqui predominantemente de alvenaria portante - com esforços distribuídos numa laje de 15 cm.

Conhecer os experimentos nativistas praticados continuadamente por Oscar Niemeyer é de extrema importância. Não se trata de questionar o ineditismo ou de depreciar a qualidade de suas invenções.

Ao contrário, é exatamente no entendimento da pluralidade, diversidade e extensão de sua obra que se pode entender e valorar a economia de recursos de sua produção recente mais conhecida. No arquiteto que experimentava com elementos modernos e tradicionais, enxergamos não a expressão gestual do artista, mas o cuidado meticuloso do artesão.

E sua figura humaniza-se e se aproxima de seus colegas de ofício, sinalizando que é na simplicidade do trato cotidiano com as coisas da profissão que reside o seu verdadeiro aprendizado.

AU LEITURAS
www.docomomo.org.br
COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995. 607p.
DECKER, Zilah Quezado. Brazil built: the architecture of the modern movement in Brazil. New York: Spon, 2001. 253p.
DURAND, José Carlos. Negociação política e renovação arquitetônica: contribuição à história social da arquitetura brasileira. In Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, no 16, jul 1991. Disponível em: www.anpocs.org.br.
GOODWIN, Philip L. Brazil builds: architecture new and old 1652-1942. New York: Museum of Modern Art, 1943. 198p.
HESS, Alan. Oscar Niemeyer: houses. Rizzoli: New York, 2006. 232p.
MIRANDA, Selma Mello et al. Cataguases: um olhar sobre a modernidade. Disponível em: www.asminasgerais.com.br.
PAPADAKI, Stamo. Oscar Niemeyer. New York: George Braziller, 1960. 127p.
PAPADAKI, Stamo. Oscar Niemeyer: works in progress. New York: Reinhold, 1956. 192p.
PAPADAKI, Stamo. The work of Oscar Niemeyer. New York: Reinhold, 1950. 228p.

As cartas de Oscar Niemeyer a Francisco Peixoto aqui reproduzidas estão compiladas em Cataguases - parecer de vistoria, informe histórico, pesquisa histórica e texto, de Cristina Pereira Nunes. Belo Horizonte: Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico - IEPHA/MG - Fundação, 1993. (Disponível no arquivo do IEPHA, em Belo Horizonte.)


A FORGOTTEN NATIVISM
A block of bedrooms elevated on pillars protected by a stone wall. The apparent austerity contrasts with the spatial fluidity and the diversity of materials, while the balcony in the background integrates the Burle-Marx landscaping with the chromatic richness.

The rich modern spatial and technological articulation is made of a mixed vocabulary: "It will have this simple and unpretentious aspect which characterized our old colonial architecture", explains Niemeyer in a letter to the owner Francisco Peixoto.

The residence is a representative of the architect's native complex which gave flavor to buildings such as the Pampulha Complex and the Ministry of Education. These experiments brought the understanding of the plurality, diversity and the extension of Niemeyer's works - and made it possible to understand his recent production as well. In his experiments with modern and traditional elements we can see the artisan's meticulous care. And his image is humanized, signaling that his true learning lies in the simplicity in treating the everyday professional things.

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