Nada de formas curvas e inusitadas. A Biblioteca Nacional Leonel de
Moura Brizola, projetada por Oscar Niemeyer para a Esplanada dos Ministérios,
poderia ser definida como um pavilhão sóbrio, austero e,
de certa forma, discreto, não fosse sua escala monumental. Com
120 m de comprimento, 17 m de largura e 25 m de altura, a construção,
um pavilhão de planta retangular, contrasta em volumetria com o
Museu Nacional Honestino Guimarães, uma cúpula de 80 m de
diâmetro situada a 50 m de distância.
Juntas, as edificações formam o Complexo Cultural da República,
patrimônio cultural, arquitetônico e paisagístico que
ocupa uma área de 91,8 mil m², compreendido entre a Plataforma
Rodoviária Central e a Praça dos Três Poderes. Apesar
de ter sido inaugurada duas vezes e estar pronta há um ano, a biblioteca,
orçada em 42 milhões de reais, ainda não está
em funcionamento. O motivo, segundo a administração do museu,
seria o próprio prédio, que não tem condições
adequadas para abrigar o acervo.
A sobriedade do volume arquitetônico foi suavizada pelos cobogós
que compõem as fachadas longitudinais. Além de sombrear
o interior do edifício, os elementos vazados estampam, no exterior,
rendilhados delicados, emoldurados pelo concreto pintado de branco. A
cor, aliás, também ameniza a robustez da biblioteca, cuja
forma de paralelepípedo remete - guardadas as devidas proporções
- aos prédios dos ministérios que definem o grande
eixo monumental. Mas a austera volumetria da biblioteca é quebrada
pelo anexo que abriga o saguão de exposições e as
torres de concreto que contêm as escadarias de incêndio.
A biblioteca e o museu estão separados por uma praça com
três espelhos d'água e um restaurante. As duas obras materializam
parte de um sonho antigo de Oscar, visto que compõem o Setor Cultural
Sul conjeturado pelo Plano Piloto de Brasília, que também
prevê a construção do Setor Cultural Norte, ainda
no papel. Lá, ao que tudo indica, serão erguidos um centro
musical, salas de cinemas e uma cúpula que abrigará um cinema
180º. Os setores estarão ligados por uma galeria subterrânea
iluminada naturalmente, composta por lojas de apoio e um grande estacionamento,
de acordo com a proposta de Lucio Costa para manter o gramado existente.
Ao separar a estrutura da vedação, Niemeyer garantiu a
planta livre do edifício, um pavilhão de quatro pavimentos
sobre pilotis. "De modo a manter o pilotis o mais livre possível,
o prédio foi estruturado com apenas duas linhas de pilares, espaçados
de 20 m", explica José Carlos Sussekind, engenheiro calculista
da obra. Para Sussekind, os balanços de 10 m nas duas extremidades
do prédio se constituem no ponto de maior complexidade do projeto
estrutural da construção, dividida em três setores.
O programa de necessidades da biblioteca inclui salas para leitura e
pesquisa, videotecas, salas administrativas, área de apoio técnico
e auditórios, além de um acervo de 500 mil volumes. Apesar
dos empecilhos que impossibilitam sua abertura ao público, o prédio
não está totalmente inoperante. Já funcionam no local
o primeiro módulo de um centro de inclusão digital, fruto
da parceria do GDF com o Ministério de Ciência e Tecnologia,
e um salão de exposições.
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Entenda a estrutura |
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| O prédio da Biblioteca Nacional de Brasília
foi dividido em três setores, sendo que os das extremidades
são simétricos. No sentido longitudinal, cada pavimento
dispõe de seis vigas por setor, duas delas protendidas. "Os
doze pilares que sustentam todo o prédio têm fundações
em tubulões, solução muito comum em Brasília.
Foram previstos blocos com seis tubulões em cada pilar",
diz José Carlos Sussekind, calculista da obra. As transversinas
foram espaçadas em 5 m, coincidindo com os pilares dos arcos
das fachadas, utilizando-se a protensão em todas as vigas transversais
dispostas sobre os pilares principais do prédio. Os balanços
de 10 m nas duas extremidades se constituem no ponto de maior complexidade
do projeto estrutural da construção, feita com lajes
nervuradas. "As lajes nervuradas garantem uma maior rigidez,
sem acréscimo de peso, quando comparadas às lajes maciças",
diz o engenheiro. |
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Por que ainda não funciona? |
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| Apesar de estar pronta há um ano e ter sido
inaugurada duas vezes em 2006, a Biblioteca Nacional Leonel de Moura
Brizola continua fechada para o público. A razão, segundo
a administração da instituição, seriam
os vazamentos e o excesso de insolação nas fachadas
longitudinais. Segundo a Secretaria da Cultura do DF, os cobogós
- elementos vazados que, teoricamente, deveriam proteger o acervo
e as salas de leitura da luz e do aquecimento excessivos - foram
executados num tamanho maior do que o previsto pelo projeto, como
forma de contenção de gastos. Procurado pela redação
de AU, o escritório de Niemeyer não quis fazer nenhuma
declaração a respeito da polêmica. Sabe-se, no
entanto, que o escritório discorda da solução
cogitada pela administração da biblioteca de aplicar
uma película protetora escura nos 1,7 mil m² de área
de vidraças. |
MONUMENTAL AND SOBER
The National Library could be defined as a sober, austere and, in a
certain way discrete pavilion, if it weren't for its monumental scale.
120 meters long, 17 meters wide and 25 meters tall, the rectangular
design building contrasts in volume with the National Museum, the 80
meters dome located at a distance of 50 meters.
By separating the roof structure, Niemeyer assured
the free design of the four floor pilotis-supported building. "In
order for the pilotis area to be as free as possible, the building was
structured with only two lines of supporting pillars, spaced at 20 meters",
as José Carlos Sussekind, the structure engineer of the building,
explains. To Sussekind, the 10-meter cantilevers at the extremities
are the high point in the complexity of the building's structural project.
In spite of having been inaugurated twice and
having been ready for one year, the library, budgeted at 42 millions
reais, is still not in operation. The reason, according to the museum
administration, would be the leaks and the excess of sunlight on the
longitudinal façades. According to the Secretary of Culture of
the Federal District, the cobogós - the square elements
assembled to shape the façades - are larger than requested
by the project, in order to reduce costs. Niemeyer's office offered
no comments about this argument.