O antigo sonho de Oscar Niemeyer de projetar a nova sede da Embaixada
do Brasil em Cuba está a um passo de se tornar realidade. Ainda
em fase de anteprojeto, a futura construção ocupará
um terreno de 8 mil m², localizado na calle 70, em Miramar, bairro
residencial de Havana. Formado por dois edifícios de 8 m de altura
ligados por uma delicada marquise de altura inferior, o conjunto arquitetônico
abraçará uma praça central que se fundirá
à cidade. Sob esse espaço, uma passagem subterrânea
conectará ambos os volumes.
A nova embaixada contrastará em escala com o entorno, formado,
em geral, por residências de um pavimento. E também, como
não poderia deixar de ser, se sobressairá da vizinhança
pela linguagem arquitetônica ousada e inusitada, típica da
produção do centenário arquiteto. Apesar da simplicidade
e pureza, os volumes que compõem a embaixada não são
fáceis de serem elucidados. É como se Niemeyer reinventasse
e recortasse formas básicas - como a elipse, o triângulo
e o arco - para criar curvas, visuais e ângulos que buscam
aprisionar o olhar e criar surpresa.
Despertar a emoção por meio de formas inéditas
parece ser um objetivo constante do arquiteto que, em um texto do livro
Oscar Niemeyer: uma lição de arquitetura, de Eduardo Corona,
afirma: "Sou a favor de uma liberdade plástica quase ilimitada,
liberdade que não se subordine servilmente às razões
de determinadas técnicas ou do funcionalismo, mas que constitua,
em primeiro lugar, um convite à imaginação, às
coisas novas e belas, capazes de surpreender e emocionar pelo que representam
de novo, criador. Liberdade que possibilite, quando desejável,
as atmosferas de êxtase, sonho e poesia".
Não é a primeira vez que o arquiteto projeta uma sede da
embaixada brasileira no país de Fidel Castro. Em 1986, Niemeyer
concluiu um projeto que não saiu do papel. Em 2003, a idéia
foi reavivada por Tilden Santiago, embaixador brasileiro em Cuba, cujos
interesses foram ao encontro aos de Oscar, que se dispôs a criar
um novo projeto, totalmente diferente daquele feito duas décadas
atrás. Apesar disso, o escritório de arquitetura ainda aguarda
maiores definições do governo cubano para tocar a proposta
adiante.
O maior edifício do conjunto abriga o setor administrativo da
embaixada. Livre para a circulação de pedestres, o pavimento
pilotis, no térreo, terá como destaque um restaurante delimitado
por uma caixilharia curva de vidro. A transparência também
está presente na fachada principal, voltada para a praça,
onde enormes panos de vidro permitem a integração com o
espaço público. O pavimento superior do edifício
administrativo será ocupado por salas de trabalho.
Uma passagem subterrânea, em linha reta, ligará o prédio
administrativo ao menor, destinado à recepção de
autoridades. Assim como o edifício maior, será cercado de
vidro na face que corresponde à praça. Paredes de concreto
armado, moldado in loco, configurarão as fachadas opostas às
envidraçadas, e devem compor um muro a meia-altura que acompanha
o desenho da marquise situada entre as edificações.
A embaixada brasileira não é o único projeto de Niemeyer
para Cuba. Em vias de ficar pronta, uma escultura de aço pintado
de 9,5 toneladas será implantada em uma praça oval em frente
ao teatro da Universidade das Ciências Informáticas (UCI),
também criação de Niemeyer, e também ainda
em projeto. O monumento idealizado pelo arquiteto mostra um cubano com
uma bandeira na mão confrontando um monstro de boca aberta que,
no caso, simboliza o imperialismo norte-americano. "A praça
está sendo construída. Já o teatro está em
fase de anteprojeto", informa o arquiteto Jair Valera, coordenador
de projetos do escritório de Oscar Niemeyer.
ARCHITECTURE OF SURPRISE
Still a draft project, the future Embassy of Brazil in Cuba will occupy
a plot of land in Miramar, a residential district of Havana. It consists
of two eight-meter-tall buildings linked by a shorter, more delicate
marquee. The complex will encompass a central plaza that melts with
the city. A subterranean passage connects the two volumes.
The taller building shelters the administrative
sector. Free for the traffic of pedestrians, the stake supported floor
will have as a highlight a restaurant limited by a curved glass frame.
The transparency is also present in the main façade, oriented
toward the plaza, where glass panes allow integration with the public
space. The top floor will be occupied by offices.
The shorter building, destined to the reception
of government officials, also has glass on the face corresponding to
the plaza. Cast concrete walls configure the façades opposing
the glass ones and will compose a half-height wall that runs along the
marquee.