A história da arquitetura moderna brasileira tem apresentado
inúmeros e competentes estudiosos. O arquiteto e antropólogo
Lauro Cavalcanti faz parte de uma geração que mergulhou
na análise da obra de mestres como Lucio Costa e Oscar Niemeyer
e desses estudos resultaram vários livros que entrelaçam
arquitetura, estética e sociedade. Entre essas obras há
Moderno e brasileiro e Ainda moderno?
Atualmente, Cavalcanti é conselheiro da Casa Lucio Costa e da
Fundação Oscar Niemeyer, membro do conselho editorial do
Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional), diretor do Paço Imperial do Rio de Janeiro e professor
da Esdi-Uerj (Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Estadual
do Rio de Janeiro).
Em entrevista à AU, Cavalcanti fala das várias facetas
do trabalho de Oscar Niemeyer.
aU HÁ COERÊNCIA OU
DIVERSIDADE NOS DISTINTOS MOMENTOS DA PRODUÇÃO DE OSCAR
NIEMEYER, TAIS COMO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, PAMPULHA,
BRASÍLIA, TEMPOS DE EXÍLIO E A ATUALIDADE? QUAL O SIGNIFICADO
DE CADA UMA DELAS NO CONTEXTO DE SUA PRODUÇÃO E PARA A ARQUITETURA
BRASILEIRA?
LAURO CAVALCANTI Há,
na realidade, coerência na diversidade das várias fases,
no sentido de aliar estrutura e arquitetura a favor da forma. O Ministério
da Educação e Saúde contou com a decisiva participação
de Oscar Niemeyer na solução final e tem uma importância
enorme por ser o primeiro arranha-céu com fachada de vidro no mundo.
Em Pampulha, ele lança uma linguagem própria, espécie
de "antropofagia" do modernismo, constituindo um marco de liberdade
e proposta alternativa ao racional-funcionalismo estrito. Em Brasília,
chegou a uma leveza e simplificação extrema das formas,
criando palácios que se tornaram símbolos da capital e do
desejo de modernidade do País. No exílio, criou belas estruturas
e experimentou significativos avanços na tecnologia. Destacaria
dessa fase a Mondadori, a Universidade de Constantine e a sede do Partido
Comunista Francês. Na atualidade, o Pavilhão da Serpentine,
o Museu de Niterói e o auditório do Ibirapuera são
excelentes exemplos da indissociabilidade entre arquitetura e estrutura
a favor da forma.
aU APESAR DE SUA AVANÇADA
IDADE, A ATUAL FASE DE NIEMEYER É UMA DAS MAIS PRODUTIVAS. TRATA-SE
DE UMA REPETIÇÃO DE FÓRMULAS JÁ CONSAGRADAS
EM SEU REPERTÓRIO OU APRESENTA ALGUM TRAÇO SIGNIFICATIVO?
CAVALCANTI Todo artista
em fase madura revisita alguns de seus temas principais. E, no caso de
arquitetos, retomam projetos cuja realização técnica
era impossível na época de suas concepções.
Bom exemplo disso é a fase norte-americana de Mies van der Rohe
na qual retoma e realiza projetos considerados utópicos quando
concebidos na Alemanha. Niemeyer revisita alguns temas constantes como
abóbadas, passeio arquitetônico e leveza estrutural. Além
de surpreender com soluções novas, como a disposição
do palco na extremidade do auditório do Ibirapuera, permitindo
seu uso como teatro fechado ou para espetáculos ao ar livre.
aU OSCAR NIEMEYER É ÚNICO
OU CRIOU ESCOLA? TEM SUCESSORES OU APENAS IMITADORES? QUE ARQUITETOS OU
OBRAS MELHOR ASSIMILARAM SUA LIÇÃO?
CAVALCANTI Ezra Pound classifica
os artistas como inventores, criadores e diluidores. Niemeyer certamente
está na primeira categoria – a dos que inventam novas concepções
e recriam linguagens. Nesse sentido, é único e raro. O perigo
são os diluidores se sentirem na obrigação da invenção
e genialidade, gerando monstrengos de tijolos. Na arquitetura corriqueira
de nossas cidades, muitos dos melhores trabalhos são aqueles que
obedecem a certos padrões e são realizados com competência
e apuro. No livro Ainda Moderno?, feito com André Lago, mostramos
que uma das mais interessantes facetas da produção jovem
contemporânea brasileira é o modernismo revisitado, citando
elementos da gramática modernista e de Niemeyer, em particular.
Não é demais lembrar que Niemeyer foi o primeiro e único
artista visual brasileiro a contribuir, de modo efetivo, para delinear
a linguagem internacional de seu campo profissional. Não é
possível escrever a história da arquitetura moderna ignorando
a sua contribuição e, em termos contemporâneos, vários
nomes relevantes declinam a influência e fascínio que a obra
de Niemeyer exerceu sobre eles: Zaha Hadid, Norman Foster, Christian de
Portzamparc, Frank Gehry, entre outros.
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