Nunca foi fácil o relacionamento de Oscar Niemeyer com as Américas
do Sul e do Norte. A significativa presença da sua obra desde a
difusão do conjunto de Pampulha, em 1940, e a influência
sobre os profissionais jovens do continente e do Caribe não foi
acompanhada por nenhuma obra construída nos países da América
Hispânica, nem por visitas para ministrar palestras em congressos
e universidades locais, apesar do interesse pela sua produção
arquitetônica e as afinidades políticas e ideológicas
com os movimentos progressistas da região.
Niemeyer obteve convites do México, para quem desenhou um aeroporto
em Manzanillo, Colima (1970), e da Bolívia, para projetar um centro
cívico em La Paz (1981). Desenhou um prédio de apartamentos
em Punta del Este, no Uruguai (1993), e imaginou um Memorial a San Martín,
em Mendoza (1993), na Argentina. Foi convidado também pelo Chile
durante a presidência de Salvador Allende, que desejava ter uma
obra do mestre, nunca concretizada. A Nicarágua, no período
do governo Sandinista, o convidou para realizar o Monumento a Carlos Fonseca
Amador, em Manágua (1982). Na Venezuela teve duas oportunidades:
desenhar o Museu de Arte Moderna e o Monumento a Simon Bolívar.
Fidel Castro, de Cuba, faz solicitações constantes a Niemeyer
desde os anos 60, mas o arquiteto brasileiro sequer participou do 7º
Congresso da UIA realizado em Havana, em 1963.
Foi notória a rejeição de Niemeyer às viagens
de avião, que impossibilitou sua presença nesses países.
Dificuldade expressiva do precário intercâmbio que tradicionalmente
existiu entre o Brasil e os países com os quais faz fronteira,
especialmente durante o longo período das ditaduras militares.
Tampouco a geografia facilitava as comunicações com os Andes
e a Amazônia constituindo limites físicos insuperáveis.
Por outra parte, a dinâmica da cultura brasileira esteve sempre
mais voltada para a Europa e os Estados Unidos, cujos centros metropolitanos
geraram os modelos válidos da modernidade assumidos pelos arquitetos
ao longo do século 20.
Ainda mais complexo foi o vínculo de Niemeyer com os Estados Unidos,
onde - não deixa de ser curioso - participou da construção
de três edifícios. O primeiro deles foi o pavilhão
do Brasil para a Feira de Nova York (1939). Houve ainda a sede da ONU
(1947) e a casa de Joseph Strick, em Santa Mônica, Califórnia
(1964).
O entusiasmo de políticos, empresários e profissionais
pela originalidade da sua obra entrou em contradição com
a rejeição do governo dos Estados Unidos por sua militância
política: o arquiteto declarou abertamente sua afiliação
ao Partido Comunista Brasileiro. O trabalho de Niemeyer, porém,
já fora apresentado ao público norte-americano pelos primeiros
livros que o difundiram no mundo (Brazil builds, de Philip Goodwin e George
E. Kidder-Smith (1943), e as obras de Stamo Papadaki, The work of Oscar
Niemeyer, de 1950, e Oscar Niemeyer: works in progress, publicado em 1956).
Niemeyer também já havia sido publicado pelas revistas mais
importantes de arquitetura (Architectural record, Pencil points e Architectural
forum), assim como por periódicos populares de grande circulação,
como Life (1942), e Reader's digest (1946).
O diálogo das formas curvas livres do brasileiro com a linguagem
de arquitetos norte-americanos como Morris Lapidus ou Eero Saarinen, e
a posterior influência de Brasília no conjunto governamental
de Albany, no Estado de Nova York, obra de Wallace K. Harrison (1962)
também demonstram a ambigüidade da relação entre
Niemeyer e os Estados Unidos, país que lhe negou o visto de entrada
em várias ocasiões. Ambigüidade que rondou também
o Prêmio Pritzker, em 1988, injustamente compartilhado por Niemeyer
com o arquiteto norte-americano Gordon Bunchaft, autor da cortina de vidro
da Lever House, em Nova York (1952), cuja significação internacional
nunca poderia ser equivalente à obtida pelo mestre brasileiro.
Niemeyer teve um diálogo assimétrico com Le Corbusier
nas mútuas interações na América Latina, Estados
Unidos e Europa. Os dois procuraram concretizar obras na América
Hispânica, mas foi mais afortunado o mestre francês, que conseguiu
construir a casa Curutchet na cidade de La Plata, na Argentina (1949-1954).
Nos Estados Unidos, além da sede da ONU, em cujo projeto participaram
junto com a equipe internacional liderada por Wallace K.Harrison cada
um construiu uma obra: Niemeyer, a residência Strick, na Califórnia;
Le Corbusier, o Carpenter Center, em Harvard (1961-1963).
Se durante décadas de amizade, a liberdade plástica do
mestre brasileiro provocou as mudanças estéticas que Le
Corbusier concretizou na capela de Ronchamp (1953), foi o francês
quem apoiou o acordar da criatividade do arquiteto carioca. Interação
que teve dois momentos diferenciados, primeiro com a estreita afinidade
vivida durante o mês de trabalho conjunto para desenvolvimento do
projeto do Ministério de Educação e Saúde,
no Rio de Janeiro (1936), e, mais tarde, a forma como pavimentou o caminho
e garantiu a Lucio Costa e Oscar Niemeyer uma boa acolhida nos Estados
Unidos, em 1938.
Essa história começou 1935, quando Le Corbusier foi convidado
pelo MoMA para ministrar uma série de palestras em diversas instituições
culturais e universidades norte-americanas. O objetivo de Corbusier, entretanto,
era conhecer os arranha-céus de Manhattan - modelo contraposto
à sua visão da Ville Radieuse - e obter alguma encomenda
importante na escala urbana. Daí a sua insistência em estabelecer
contatos com empresários. Sua ilusão era convencer Nelson
Rockefeller a promover um investimento imobiliário em Nova York,
ou colaborar com suas iniciativas culturais e a publicação
dos seus livros em inglês. Corbusier queria persuadir o magnata
a participar da Exposição Internacional de 1937, em Paris,
ou a solicitar-lhe o projeto de um pavilhão para a Feira Mundial
de Nova York, em 1939, que já começava a ser organizada.
Nada disso foi concretizado. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos
saíam lentamente da crise de 1929. Em segundo, porque suas teses
radicais e sua personalidade difícil não obtiveram o apoio
esperado da classe profissional e das instituições universitárias.
Assim, seu grupo de interlocutores nos Estados Unidos foi limitado a Wallace
K. Harrison, William Lescaze, Paul Nelson, Albert Fry e Richard Neutra,
entre outros. Nunca obteve a entrevista solicitada a Frank Lloyd Wright,
que se negou a recebê-lo em Taliesin.
Contudo, o balanço da sua visita foi positivo porque, em contraposição
aos esquemas tradicionais persistentes no ensino de arquitetura e nas
obras realizadas, conseguiu criar a consciência de que o futuro
da arquitetura devia se identificar com os princípios do Movimento
Moderno, com certa liberdade expressiva associada às novas técnicas,
tais como o aço e o concreto armado, que permitiam o desenho de
abóbadas, rampas, catenárias e espirais - apresentadas
nos desenhos das palestras e concretizadas nas suas obras e projetos "regionalistas"
dos anos 30.
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