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O SONHO AMERICANO DE OSCAR NIEMEYER
NIEMEYER, LE CORBUSIER E AS AMÉRICAS

POR ROBERTO SEGRE




Nunca foi fácil o relacionamento de Oscar Niemeyer com as Américas do Sul e do Norte. A significativa presença da sua obra desde a difusão do conjunto de Pampulha, em 1940, e a influência sobre os profissionais jovens do continente e do Caribe não foi acompanhada por nenhuma obra construída nos países da América Hispânica, nem por visitas para ministrar palestras em congressos e universidades locais, apesar do interesse pela sua produção arquitetônica e as afinidades políticas e ideológicas com os movimentos progressistas da região.

Niemeyer obteve convites do México, para quem desenhou um aeroporto em Manzanillo, Colima (1970), e da Bolívia, para projetar um centro cívico em La Paz (1981). Desenhou um prédio de apartamentos em Punta del Este, no Uruguai (1993), e imaginou um Memorial a San Martín, em Mendoza (1993), na Argentina. Foi convidado também pelo Chile durante a presidência de Salvador Allende, que desejava ter uma obra do mestre, nunca concretizada. A Nicarágua, no período do governo Sandinista, o convidou para realizar o Monumento a Carlos Fonseca Amador, em Manágua (1982). Na Venezuela teve duas oportunidades: desenhar o Museu de Arte Moderna e o Monumento a Simon Bolívar. Fidel Castro, de Cuba, faz solicitações constantes a Niemeyer desde os anos 60, mas o arquiteto brasileiro sequer participou do 7º Congresso da UIA realizado em Havana, em 1963.

Foi notória a rejeição de Niemeyer às viagens de avião, que impossibilitou sua presença nesses países. Dificuldade expressiva do precário intercâmbio que tradicionalmente existiu entre o Brasil e os países com os quais faz fronteira, especialmente durante o longo período das ditaduras militares. Tampouco a geografia facilitava as comunicações com os Andes e a Amazônia constituindo limites físicos insuperáveis. Por outra parte, a dinâmica da cultura brasileira esteve sempre mais voltada para a Europa e os Estados Unidos, cujos centros metropolitanos geraram os modelos válidos da modernidade assumidos pelos arquitetos ao longo do século 20.

Ainda mais complexo foi o vínculo de Niemeyer com os Estados Unidos, onde - não deixa de ser curioso - participou da construção de três edifícios. O primeiro deles foi o pavilhão do Brasil para a Feira de Nova York (1939). Houve ainda a sede da ONU (1947) e a casa de Joseph Strick, em Santa Mônica, Califórnia (1964).

O entusiasmo de políticos, empresários e profissionais pela originalidade da sua obra entrou em contradição com a rejeição do governo dos Estados Unidos por sua militância política: o arquiteto declarou abertamente sua afiliação ao Partido Comunista Brasileiro. O trabalho de Niemeyer, porém, já fora apresentado ao público norte-americano pelos primeiros livros que o difundiram no mundo (Brazil builds, de Philip Goodwin e George E. Kidder-Smith (1943), e as obras de Stamo Papadaki, The work of Oscar Niemeyer, de 1950, e Oscar Niemeyer: works in progress, publicado em 1956). Niemeyer também já havia sido publicado pelas revistas mais importantes de arquitetura (Architectural record, Pencil points e Architectural forum), assim como por periódicos populares de grande circulação, como Life (1942), e Reader's digest (1946).

O diálogo das formas curvas livres do brasileiro com a linguagem de arquitetos norte-americanos como Morris Lapidus ou Eero Saarinen, e a posterior influência de Brasília no conjunto governamental de Albany, no Estado de Nova York, obra de Wallace K. Harrison (1962) também demonstram a ambigüidade da relação entre Niemeyer e os Estados Unidos, país que lhe negou o visto de entrada em várias ocasiões. Ambigüidade que rondou também o Prêmio Pritzker, em 1988, injustamente compartilhado por Niemeyer com o arquiteto norte-americano Gordon Bunchaft, autor da cortina de vidro da Lever House, em Nova York (1952), cuja significação internacional nunca poderia ser equivalente à obtida pelo mestre brasileiro.

Niemeyer teve um diálogo assimétrico com Le Corbusier nas mútuas interações na América Latina, Estados Unidos e Europa. Os dois procuraram concretizar obras na América Hispânica, mas foi mais afortunado o mestre francês, que conseguiu construir a casa Curutchet na cidade de La Plata, na Argentina (1949-1954). Nos Estados Unidos, além da sede da ONU, em cujo projeto participaram junto com a equipe internacional liderada por Wallace K.Harrison cada um construiu uma obra: Niemeyer, a residência Strick, na Califórnia; Le Corbusier, o Carpenter Center, em Harvard (1961-1963).

Se durante décadas de amizade, a liberdade plástica do mestre brasileiro provocou as mudanças estéticas que Le Corbusier concretizou na capela de Ronchamp (1953), foi o francês quem apoiou o acordar da criatividade do arquiteto carioca. Interação que teve dois momentos diferenciados, primeiro com a estreita afinidade vivida durante o mês de trabalho conjunto para desenvolvimento do projeto do Ministério de Educação e Saúde, no Rio de Janeiro (1936), e, mais tarde, a forma como pavimentou o caminho e garantiu a Lucio Costa e Oscar Niemeyer uma boa acolhida nos Estados Unidos, em 1938.

Essa história começou 1935, quando Le Corbusier foi convidado pelo MoMA para ministrar uma série de palestras em diversas instituições culturais e universidades norte-americanas. O objetivo de Corbusier, entretanto, era conhecer os arranha-céus de Manhattan - modelo contraposto à sua visão da Ville Radieuse - e obter alguma encomenda importante na escala urbana. Daí a sua insistência em estabelecer contatos com empresários. Sua ilusão era convencer Nelson Rockefeller a promover um investimento imobiliário em Nova York, ou colaborar com suas iniciativas culturais e a publicação dos seus livros em inglês. Corbusier queria persuadir o magnata a participar da Exposição Internacional de 1937, em Paris, ou a solicitar-lhe o projeto de um pavilhão para a Feira Mundial de Nova York, em 1939, que já começava a ser organizada.

Nada disso foi concretizado. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos saíam lentamente da crise de 1929. Em segundo, porque suas teses radicais e sua personalidade difícil não obtiveram o apoio esperado da classe profissional e das instituições universitárias. Assim, seu grupo de interlocutores nos Estados Unidos foi limitado a Wallace K. Harrison, William Lescaze, Paul Nelson, Albert Fry e Richard Neutra, entre outros. Nunca obteve a entrevista solicitada a Frank Lloyd Wright, que se negou a recebê-lo em Taliesin.

Contudo, o balanço da sua visita foi positivo porque, em contraposição aos esquemas tradicionais persistentes no ensino de arquitetura e nas obras realizadas, conseguiu criar a consciência de que o futuro da arquitetura devia se identificar com os princípios do Movimento Moderno, com certa liberdade expressiva associada às novas técnicas, tais como o aço e o concreto armado, que permitiam o desenho de abóbadas, rampas, catenárias e espirais - apresentadas nos desenhos das palestras e concretizadas nas suas obras e projetos "regionalistas" dos anos 30.

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