A conexão Rio de Janeiro-Nova York-Miami
Três obras maiores identificaram a presença de Niemeyer nos
Estados Unidos: o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York
(1939), a sede da ONU (1947), e o projeto do centro de negócios
em Miami (1972). Vários autores (Yves Bruand, Carlos Eduardo Comas,
Lauro Cavalcanti, David Underwood, Hugo Segawa) analisaram em detalhe
o pavilhão do Brasil e a sua contribuição para o
desenvolvimento da arquitetura brasileira. Sua originalidade e a intensidade
expressiva de uma nova linguagem que identificaria Niemeyer com a estética
da Escola Carioca, não foi um fenômeno isolado no contexto
da exposição.
Em primeiro lugar, o apoio incondicional obtido por Lucio Costa e Oscar
Niemeyer em Nova York teve uma fundamentação política.
O governo de Roosevelt desejava mudar o bom relacionamento de Getulio
Vargas com os regimes nazista e fascista de Hitler e Mussolini. Daí
o interesse em valorizar a presença do Brasil na Feira, e o convite
aos dois arquitetos brasileiros para trabalhar no escritório de
Harrison & Abramovitz, profissionais que trabalhavam diretamente com
Rockefeller e responsáveis pelo desenho da Feira e do Trylon e
Perisphere, ícones esculturais do evento, com formas geométricas
puras.
Isso permitiu a Costa e Niemeyer, nos oito meses que passaram em Nova
York, entrar em contato com a elite cultural norte-americana e européia,
incrementada pela presença dos artistas e arquitetos que emigravam
da Europa pelas perseguições políticas e religiosas.
Entre eles citemos Frederick Kiesler, José Luis Sert, Max Ernst,
Fernand Léger, Hans Arp, Marcel Duschamp, Constantin Brancusi.
Também faziam parte do grupo Salvador Dali, Marc Chagall e Alexander
Calder. Entre os norte-americanos que participavam dos projetos da Feira
Mundial figuravam Robert Moses, Norman Bel Geddes, Joseph Urban, William
Lascaze, Walter Dorwin Teague, Henry Dreyfuss, Donald Deskey, Raymond
Loewy, com a colaboração do russo Vyacheslav K. Oltarzhevsky,
que trabalhava no escritório de Wallace K. Harrison.
O caráter inovador do pavilhão brasileiro, como livre interpretação
"regionalista" da rígida linguagem racionalista do Movimento
Moderno, indicava uma tendência que tinha certo apoio no debate
arquitetônico norte-americano. A Finlândia, com Alvar Aalto,
e a Suécia, com Sven Markelius, orientados na mesma procura de
uma identidade arquitetônica nacional, apresentavam questionamento
semelhante.
Ao mesmo tempo, existia nos Estados Unidos uma posição
estética, defendida por Frank Lloyd Wright e o historiador Lewis
Mumford, que rejeitava o racionalismo "duro" de origem européia
e defendia a liberdade de um vocabulário associado ao relacionamento
com a natureza e o uso dos materiais naturais, mais próximos às
tradições culturais locais. Por outra parte, os códigos
"maquinistas" eram associados ao styling e à diversidade
das formas curvas aplicadas aos objetos industriais, também assimilada
por Wright na sede da Johnson Wax (1936). Entre o regionalismo e o Depression
Style existia um embasamento de invenções plásticas
que não era alheio ao pavilhão brasileiro.
Como o projeto definitivo do pavilhão foi elaborado em Nova York
(foi necessário refazer os dois desenhos diferentes e antagônicos
apresentados por Costa e Niemeyer no concurso) sem dúvida esse
clima artístico deve ter influenciado a elaboração
da nova proposta. Tampouco foi difícil a colaboração
entre os projetistas brasileiros e os profissionais norte-americanos que
participaram da criação dos desenhos. Um deles foi o paisagista
Thomas Price, autor dos jardins (erroneamente creditados a Burle Marx
por alguns autores). Havia ainda Paul Lester Wiener, responsável
pelo mobiliário e pelo sistema expositivo, que ecoava as estruturas
publicitárias e decorativas predominantes em Nova York no final
daquela década. Sem dúvida, essas experiências facilitaram
a consolidação da linguagem de Niemeyer que culminou na
Pampulha.
O sucesso do pavilhão e os elogios dos críticos (Frederick
A. Gutheim, Henry-Russel Hitchcock e Sigfried Giedion) determinaram, segundo
Lucio Costa, o lançamento mundial de Oscar Niemeyer, ratificado
pela difusão das novas obras realizadas no Brasil, contidas no
livro Brazil builds e na exposição do MoMA (1943). Logo
após a Segunda Guerra, Niemeyer já era uma figura relevante
no contexto latino-americano.
Quando foi decidida a instalação da sede da ONU em Nova
York, em um terreno adquirido e doado por Nelson Rockefeller (decisão
na qual teve grande peso Le Corbusier, que tinha uma relação
de amor e ódio com a cidade), formou-se, em 1947, um comitê
internacional de arquitetos de diferentes países, presidido por
Wallace Harrison, que se interessou em convidar Niemeyer. Faziam parte
da equipe Le Corbusier (França), Gaston Brunfaut (Bélgica),
Ernest Cormier (Canadá), Ssu-Ch'eng Liang (China), Sven Markelius
(Suécia), Nikolai D. Bassov (União Soviética), Howard
Robertson (Inglaterra) e Julio Vilamajó (Uruguai). E os consultores
foram Wladimir Bodiansky (França), Matthew Nowicki (Polônia)
e Erns Weissmann (Iugoslávia).
Niemeyer, filiado ao Partido Comunista Brasileiro em 1945, teve o visto
de entrada nos Estados Unidos negado em 1946, quando foi convidado a palestrar
na Universidade de Yale. Mas obteve autorização para morar
sete meses em Nova York como membro da equipe internacional da ONU. Não
escapou, contudo, de ter sua militância política criticada.
Com o objetivo de diminuir o seu prestígio profissional, a revista
Time publicou foto do arquiteto vendendo o jornal Imprensa Popular do
Partido nas ruas do Rio de Janeiro.
Foi complexo o relacionamento com Le Corbusier. Agora, Niemeyer já
não era o jovem discípulo que desenhava sob a orientação
do mestre francês, como fora no projeto para o Ministério
da Educação e Saúde, no Rio, mas um arquiteto experiente
e famoso. Por um lado, Corbusier desejava obter a autoria da sede da ONU,
uma lâmina de 40 andares, cuja forma pura seria a sua vingança
contra os arranha-céus nova-iorquinos, introduzindo no skyline
da cidade o símbolo de sua Ville Radieuse.
Mas a proposta em planta dos elementos funcionais básicos não
satisfez a equipe e Harrison solicitou a Niemeyer que apresentasse a sua
alternativa. Ele, que no MES tinha melhorado os desenhos de Le Corbusier
e criado a brilhante solução definitiva da sede, ficou desconfortável
de corrigir novamente o mestre.
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