É conhecida a história das duas propostas, a 23, do francês,
e a 32, de Niemeyer, diferenciadas pela localização do volume
da Assembléia Geral. O primeiro a colocava no centro do terreno.
O segundo, no extremo, para liberar a praça para os atos públicos
e o relacionamento com a cidade. Finalmente se chegou a uma solução
intermediária, que juntava as duas alternativas na colocação
do volume baixo, que foi aprovada por Harrison, que escreveu, "the
only scheme that gets complete satisfaction in an early idea of Le Corbusier's
as carried out, was drawn up by Oscar Niemeyer".
Nessa nova experiência norte-americana, foi importante sua familiarização
com um conjunto urbanístico de grande escala e a compreensão
do funcionamento complexo do arranha-céu de 40 andares, que continha
3.400 funcionários. Além da experiência direta nos
arranha-céus de Nova York, em particular do Rockefeller Center,
o seu conhecimento dos problemas existentes no prédio de escritórios,
já decantado no MES, adquiriu uma nova dimensão, que abriu
a perspectiva dos grandes projetos que surgiriam no Brasil no início
dos anos 50: a lâmina curvilínea do Copan em São Paulo,
o conjunto JK em Belo Horizonte e as obras monumentais em Brasília.
A última visita de Niemeyer aos Estados Unidos aconteceu em 1972,
quando abriu seu escritório na Avenida Champs Elysées em
Paris, exilado durante a ditadura militar brasileira. Já com antecedência
tinha projetado em Los Angeles um centro de beleza (1963) e uma clínica
de beleza (1968) que não foram construídas. Uma empresa
que realizava operações imobiliárias em Miami, Swire
Propieties, tinha adquirido a Claughton Island de forma triangular, situada
na entrada do rio Miami, e unida por uma ponte com a famosa 8th. Street
e a Brickell Avenue.
É provável que solicitassem a Niemeyer o projeto de um
centro de negócios e um conjunto residencial, pela identidade entre
as formas curvas dos grandes prédios construídos no Brasil
e o "estilo" Miami, difundido nas obras de Morris Lapidus. Obteve
o visto por quinze dias (seu colaborador, Carlos Magalhães, o recebeu
por seis meses) e, com grande alegria, chegou em Nova York no dia em que
as Nações Unidas integravam no sistema mundial a China comunista.
Sentimento que não foi compartilhado pelo seu assistente norte-americano,
colaborador do presidente Kennedy.
Niemeyer criou uma grande plataforma de dois andares em toda a superfície
da ilha. Essa superfície albergava o estacionamento, o centro comercial,
os serviços e a infra-estrutura, e permitia liberar o terreno para
as áreas verdes. No perímetro triangular da borda do mar,
instalou um passeio. As lâminas curvas dos escritórios, de
maior altura, eram colocadas em um extremo da ilha. No oposto, de menor
altura, as lâminas dos prédios de apartamentos deixavam livre
um grande espaço central. O conjunto esteve estruturado com uma
localização dos blocos que permitiam visões panorâmicas
para a baía e a cidade de Miami. A proposta não se concretizou
e hoje a ilha, chamada Brickell Key, está ocupada por uma confusão
formal e volumétrica de luxuosos condomínios de apartamentos.
A lembrança do projeto ficou registrada no volume curvo do exótico
hotel Mandarin.
Assim terminou o sonho americano de Niemeyer, que havia começado
no Cadillac rabo-de-peixe com que circulava em Copacabana nos anos 50.
As casas tropicais
Desde o início de sua vida profissional, o tema da casa foi uma
constante na produção arquitetônica de Niemeyer. A
primeira, projetada em 1936, foi a pequena residência de Henrique
Xavier, no Rio de Janeiro. Em 2004 fez a modesta casa de sua neta, também
no Rio. Nesse percurso desenvolveu não somente uma diversidade
de soluções formais e espaciais, mas também uma significativa
variedade de escalas. Os extremos ficaram entre o monumental e luxuoso
Palácio da Alvorada, em Brasília, primeira residência
oficial desenhada para um presidente brasileiro, e a casa do seu motorista
na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro.
Niemeyer nunca se interessou por divulgar sua obra erguida no exterior.
Algumas, como a residência Strick, a única construída
nos Estados Unidos, só foi publicada recentemente. Lembremos, assim,
alguns exemplos paradigmáticos, como a casa E. de Rothschild (1965),
no deserto de Cesárea em Israel, totalmente voltada para o espaço
interior, contido em uma planta quadrada. E a residência de Nara
Mondadori (1968-72), em Cap Ferrat, França, aberta para a paisagem
marítima da Côte d'Azur, que dilata em grande escala a laje
sinuosa da cobertura na Casa das Canoas.
Aproveitando a presença do mestre brasileiro em Nova York por
vários meses, em 1947, o rico financista Burton Tremaine solicitou-lhe
o projeto de uma casa em Santa Bárbara, Califórnia. O terreno
situava-se em uma alta plataforma na beira do oceano Pacífico,
com uma vista extraordinária para a paisagem marítima.
Aqui Niemeyer continuou as articulações lingüísticas
que começara na Pampulha, estabelecendo um dialogo entre a herança
racionalista dos volumes puros e a liberdade plástica das formas
sinuosas que iriam caracterizar a sua produção posterior.
Separou radicalmente as funções públicas e privadas.
Em um retângulo colocado sobre pilotis, paralelo ao oceano, situou
os quartos, protegidos por uma varanda com as empenas inclinadas para
permitir a entrada controlada do sol no seu espaço aberto. Niemeyer
tinha começado a utilizar essa solução na residência
Prudente de Morais Neto, no Rio de Janeiro (1944), e depois a aplicaria
nos projetos em Diamantina, MG. A circulação horizontal
dos quartos se desenvolve em uma galeria protegida por uma fachada de
brises, com um espaço central aberto onde fica a escada principal.
Com essa distribuição, como aparece nos riscos de estudo
da casa, garante-se o controle solar e a ventilação cruzada
nos quartos, além de direcionar as visuais para o Oceano.
Entretanto, a parte mais original de residência aparece na extensa
laje curvilínea que prolonga o espaço livre dos pilotis
(lembrança da Casa do Baile, na Pampulha, e antecedente da cobertura
da Casa das Canoas), que contém as salas de visita e de jantar,
e a área de lazer ao redor da piscina, permitindo a percepção
da paisagem marítima. Com essa solução, a introversão
da vida privada era contraposta à dinâmica hedonista do espaço
público, caracterizado pela sua continuidade e ao mesmo tempo pela
identificação, com painéis divisórios, das
particularidades ambientais das diferentes funções. O acesso
é identificado por uma laje em balanço, e três abóbadas
(referência à capela de São Francisco) definem a cobertura
dos carros. O projeto não foi realizado.
O diretor cinematográfico de Hollywood, Joseph Strick, entusiasmado
com os projetos de Niemeyer para Brasília, em 1964, decidiu solicitar-lhe
uma nova casa em La Mesa Drive, situada perto de um country club e com
vista para as montanhas de Santa Mônica. Diferente da proposta feita
para os Tremaines, a solução nesse caso foi menos arrojada
e mais identificada com a tipologia das casas californianas do que com
a obra de Niemeyer. Como nunca visitou o terreno e não acompanhou
a construção, Niemeyer nunca se interessou em divulgar essa
casa em seus livros.
Com planta em T, que distribui os espaços públicos e privados,
a mão do mestre aparece na qualidade e particularidade dos diferentes
locais e nas transparências que permitem a percepção
das montanhas. A leveza da estrutura de aço e madeira utilizada
na região, que caracteriza a cobertura com vigas expostas moduladas,
se contrapõe com a parede de tijolos que define a linearidade da
entrada principal e delimita a área de serviço, disposta
em um bloco cuja outra extremidade contém os quartos que, articulados
com o living, configuram o pátio interno com piscina. Ao longo
da construção os proprietários introduziram várias
modificações ao projeto original, mas hoje a casa conserva
a imagem básica criada por Niemeyer.
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