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O SONHO AMERICANO DE OSCAR NIEMEYER
NIEMEYER, LE CORBUSIER E AS AMÉRICAS

POR ROBERTO SEGRE



O apelo da Venezuela
Nos anos 50, o Movimento Moderno teve um importante desenvolvimento na Venezuela, sob a direção do arquiteto Carlos Raul Villanueva, autor da Cidade Universitária de Caracas, conjunto inaugurado em 1955 e hoje integrado pela Unesco ao Patrimônio Cultural da Humanidade. Com a disponibilidade dos recursos do petróleo, surgiram múltiplas iniciativas construtivas e culturais apoiadas pela elite local.

Nesse grupo destacou-se o empresário Inocente Palacios, que além de haver se dedicado à especulação imobiliária, foi um dos fundadores do Partido Comunista da Venezuela, e promotor de atividades culturais incluindo figuras de dimensão internacional.

Palacios havia criado uma concha acústica aberta no bairro Colinas de Bellomonte, que desejava desenvolver urbanisticamente. Convidou Niemeyer, em 1954, para projetar um museu de arte moderna, que devia situar-se em um promontório alto desse bairro. Nos quinze dias que ficou em Caracas, o brasileiro desenvolveu o projeto, por ele considerado o início de uma mudança no seu trabalho, ao interessar-se basicamente pelas formas plásticas e geométricas puras que, no caso dos edifícios simbólicos, criariam uma imagem monumental, permitindo a sua visualização autônoma na paisagem.

Nos sucessivos desenhos do projeto percebe-se a importância outorgada ao sítio e o desejo de identificar o museu em contraste tanto com o skyline urbano, quanto com a paisagem das montanhas do vale de Caracas. A precedente experiência de uma forma pura de grandes dimensões, obtida na calota da OCA do Ibirapuera, com a complexidade interior definida por rampas e lajes foi o ponto de partida da solução proposta para o museu. Contudo, ao contrário da calota, era necessário ser mínimo o apoio no embasamento.

Dessa forma surgiu o tronco de pirâmide invertida, com cinco andares, estrutura de concreto armado, fechada totalmente para o exterior, mas com uma cobertura de elementos móveis que permitem a iluminação natural do espaço interno. As lajes de formas livres e sempre separadas das paredes da pirâmide, que tocam apenas pontualmente, dão forma a espaços originais e fluidos. Os dois primeiros andares, no subsolo, abrigam os serviços gerais e o auditório; no segundo, situado na altura da entrada principal, estão o vestíbulo e a direção; no terceiro e quarto ficam as salas de exposição e, no último, definido pela cobertura luminosa, está o espaço das esculturas. Elevadores e rampas internas fazem a circulação entre as lajes.

Para elaboração do projeto, Niemeyer contou com a colaboração do jovem arquiteto venezuelano Fruto Vivas, que também trabalhou com o mestre Carlos Raul Villanueva. A proposta, que não foi construída, teve mesmo assim uma repercussão mundial uma vez que concretizava os desejos de mudanças formais e espaciais que existiam tanto na América Latina, como no mundo desenvolvido, para superar o esquematismo do International Style e o cansaço dos esquemas rígidos do Movimento Moderno. Não esqueçamos que, no ano anterior, tinha sido inaugurada a Capela de Ronchamp, de Le Corbusier, que abriu uma nova etapa na sua produção arquitetônica.

Com o Museu de Caracas, Niemeyer conseguiu atingir o domínio formal do prédio simbólico de grande escala, assim como a articulação entre as formas geométricas puras e a liberdade quase surrealista das lajes curvilíneas e a dinâmica imprevisível dos espaços internos. Sem dúvida, o museu foi o embasamento dos projetos que se concretizaram em Brasília.

Meio século mais tarde, Niemeyer foi convidado pelo presidente Hugo Chaves para elaborar o projeto de um monumento a Simon Bolívar. Segundo o mestre, em uma noite obteve a solução: uma peça de concreto com 100 m de altura e 170 m de comprimento, no formato de flecha apontada para os Estados Unidos, e que deveria ser colocada na montanha do Ávila, dominando o vale de Caracas.

O entusiasmo do presidente pelo desenho não coincidiu com a opinião dos arquitetos venezuelanos. A Sociedade de Arquitetos elaborou um documento questionando o projeto e a sua localização no Ávila - montanha sacra para os habitantes de Caracas.

A principal reclamação ateve-se ao fato de a proposta não ter sido apresentada à comunidade profissional para ser avaliada e discutida. Além disso, o esquema formal já havia sido elaborado para o Centro Cívico de Argélia, em 1968, onde presidia o conjunto monumental de prédios do governo. No entanto, considerava-se que um projeto dessa importância simbólica (desde os anos 30 são elaboradas propostas para um mausoléu de Bolívar) deveria ter um processo de decantação no desenho proposto, baseado também na sua aceitação pela comunidade de Caracas.

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