O apelo da Venezuela
Nos anos 50, o Movimento Moderno teve um importante desenvolvimento na
Venezuela, sob a direção do arquiteto Carlos Raul Villanueva,
autor da Cidade Universitária de Caracas, conjunto inaugurado em
1955 e hoje integrado pela Unesco ao Patrimônio Cultural da Humanidade.
Com a disponibilidade dos recursos do petróleo, surgiram múltiplas
iniciativas construtivas e culturais apoiadas pela elite local.
Nesse grupo destacou-se o empresário Inocente Palacios, que além
de haver se dedicado à especulação imobiliária,
foi um dos fundadores do Partido Comunista da Venezuela, e promotor de
atividades culturais incluindo figuras de dimensão internacional.
Palacios havia criado uma concha acústica aberta no bairro Colinas
de Bellomonte, que desejava desenvolver urbanisticamente. Convidou Niemeyer,
em 1954, para projetar um museu de arte moderna, que devia situar-se em
um promontório alto desse bairro. Nos quinze dias que ficou em
Caracas, o brasileiro desenvolveu o projeto, por ele considerado o início
de uma mudança no seu trabalho, ao interessar-se basicamente pelas
formas plásticas e geométricas puras que, no caso dos edifícios
simbólicos, criariam uma imagem monumental, permitindo a sua visualização
autônoma na paisagem.
Nos sucessivos desenhos do projeto percebe-se a importância outorgada
ao sítio e o desejo de identificar o museu em contraste tanto com
o skyline urbano, quanto com a paisagem das montanhas do vale de Caracas.
A precedente experiência de uma forma pura de grandes dimensões,
obtida na calota da OCA do Ibirapuera, com a complexidade interior definida
por rampas e lajes foi o ponto de partida da solução proposta
para o museu. Contudo, ao contrário da calota, era necessário
ser mínimo o apoio no embasamento.
Dessa forma surgiu o tronco de pirâmide invertida, com cinco andares,
estrutura de concreto armado, fechada totalmente para o exterior, mas
com uma cobertura de elementos móveis que permitem a iluminação
natural do espaço interno. As lajes de formas livres e sempre separadas
das paredes da pirâmide, que tocam apenas pontualmente, dão
forma a espaços originais e fluidos. Os dois primeiros andares,
no subsolo, abrigam os serviços gerais e o auditório; no
segundo, situado na altura da entrada principal, estão o vestíbulo
e a direção; no terceiro e quarto ficam as salas de exposição
e, no último, definido pela cobertura luminosa, está o espaço
das esculturas. Elevadores e rampas internas fazem a circulação
entre as lajes.
Para elaboração do projeto, Niemeyer contou com a colaboração
do jovem arquiteto venezuelano Fruto Vivas, que também trabalhou
com o mestre Carlos Raul Villanueva. A proposta, que não foi construída,
teve mesmo assim uma repercussão mundial uma vez que concretizava
os desejos de mudanças formais e espaciais que existiam tanto na
América Latina, como no mundo desenvolvido, para superar o esquematismo
do International Style e o cansaço dos esquemas rígidos
do Movimento Moderno. Não esqueçamos que, no ano anterior,
tinha sido inaugurada a Capela de Ronchamp, de Le Corbusier, que abriu
uma nova etapa na sua produção arquitetônica.
Com o Museu de Caracas, Niemeyer conseguiu atingir o domínio formal
do prédio simbólico de grande escala, assim como a articulação
entre as formas geométricas puras e a liberdade quase surrealista
das lajes curvilíneas e a dinâmica imprevisível dos
espaços internos. Sem dúvida, o museu foi o embasamento
dos projetos que se concretizaram em Brasília.
Meio século mais tarde, Niemeyer foi convidado pelo presidente
Hugo Chaves para elaborar o projeto de um monumento a Simon Bolívar.
Segundo o mestre, em uma noite obteve a solução: uma peça
de concreto com 100 m de altura e 170 m de comprimento, no formato de
flecha apontada para os Estados Unidos, e que deveria ser colocada na
montanha do Ávila, dominando o vale de Caracas.
O entusiasmo do presidente pelo desenho não coincidiu com a opinião
dos arquitetos venezuelanos. A Sociedade de Arquitetos elaborou um documento
questionando o projeto e a sua localização no Ávila
- montanha sacra para os habitantes de Caracas.
A principal reclamação ateve-se ao fato de a proposta não
ter sido apresentada à comunidade profissional para ser avaliada
e discutida. Além disso, o esquema formal já havia sido
elaborado para o Centro Cívico de Argélia, em 1968, onde
presidia o conjunto monumental de prédios do governo. No entanto,
considerava-se que um projeto dessa importância simbólica
(desde os anos 30 são elaboradas propostas para um mausoléu
de Bolívar) deveria ter um processo de decantação
no desenho proposto, baseado também na sua aceitação
pela comunidade de Caracas.
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