O amor a Cuba
Desde o início da Revolução Cubana, em 1959, Niemeyer
deu o seu apoio ao processo de transformações que aconteceram
na ilha. Em 1957, o arquiteto já havia sido convidado para participar
do projeto do conjunto residencial de Havana del Este, para a alta burguesia,
propondo um centro comercial e cultural. Mas a sua persistente posição
antiimperialista o fez participar de todos os protestos contra as agressões
do governo norte-americano, em particular o embargo econômico.
Em ocasião do 7º Congresso da União Internacional
de Arquitetos (UIA), em Havana, em 1961, Niemeyer foi convidado para integrar
o júri do concurso internacional para o monumento que lembraria
a vitória sobre os mercenários que invadiram Cuba na praia
Giron. Não participou por sua limitação para as viagens
aéreas. Fidel Castro, entretanto, o convidou reiteradamente, mas
só nos anos 90, quando visitou o Rio de Janeiro, encontrou Niemeyer
em um jantar no escritório do arquiteto.
Com o retorno da democracia no Brasil nos finais dos anos 80, o governo
Sarney decidiu construir uma nova embaixada em Havana e Fidel solicitou
que o projeto fosse elaborado por Niemeyer. Para colaborar com a iniciativa
brasileira, o governo cubano doou um terreno localizado em uma área
privilegiada do bairro nobre de Miramar. Niemeyer elaborou uma solução
baseada na tipologia da caixa dentro da caixa, que já havia desenvolvido
para sede da editora Mondadori e da Fata, na Itália, e para os
CIEPs, no Rio de Janeiro.
Uma estrutura externa de concreto armado com um vão de 40 m e
dois balanços de 15 m, com quatro apoios, definem o sistema de
suportes unidos por vigas transversais de onde são penduradas as
lajes dos dois andares dos escritórios da embaixada. Assim, o térreo
ganha transparência total, o que permite a continuidade do espaço
natural. Uma laje cilíndrica identifica a entrada principal. A
circulação vertical se produz por uma escada externa e duas
helicoidais internas.
No início dos anos 90, com o aumento das tensões políticas
com os Estados Unidos e a desintegração da União
Soviética e do sistema socialista europeu, Cuba ficou com sérios
problemas econômicos que provocaram manifestações
ao longo do Malecon, o calçadão de Havana, e em frente à
ex-embaixada norte-americana. Os fatos inspiraram Niemeyer a projetar
um interessante monumento em aço que simbolizava a quebra do bloqueio
americano pelo povo cubano. Tampouco foi realizado.
No final do século, novamente o governo brasileiro voltou a propor
uma embaixada em Havana, solicitando ao mestre um novo projeto. Niemeyer
abandonou totalmente a precedente solução e elaborou uma
forma totalmente plástica, quase escultural, formada por dois volumes
curvos com fachadas de vidro e uma galeria coberta em forma de arco que
articula os dois prédios principais.
Já no início do século 21, o governo cubano solicitou
vários projetos para serem inseridos no complexo universitário
de ciências informáticas na periferia de Havana. Seriam aproveitadas
as instalações anteriormente ocupadas pela representação
militar da União Soviética.
Como os blocos pré-fabricados do edifício existente tinham
uma imagem formal dura, solicitou-se a Niemeyer o projeto de uma praça
de entrada de forma oval e a colocação de um auditório
e uma escultura que presidiria o acesso ao conjunto universitário.
Essa presença "artística" estaria acompanhada
pela participação de escultores cubanos que espalhariam
as suas obras no espaço verde. A escultura em aço representando
o povo cubano em luta contra o cão do imperialismo atingiu uma
expressão menos bem-sucedida que a anterior. A imagem excessivamente
realista é pouco coerente com as belas esculturas abstratas que
caracterizaram a sua trajetória plástica. O auditório
construído em concreto armado define um volume curvo e compacto,
com grandes aberturas de vidro onde predominam os cheios sobre os vazios.
Finalmente Havana terá uma obra de Niemeyer, todavia distante
da cidade e sem a possibilidade de um uso massivo pela população.
A sua aspiração de integrar uma obra simbólica no
espaço público urbano, aqui não foi atingida.
Em conclusão, há quase 70 anos a parábola criativa
do mestre começou na América, no pavilhão do Brasil
para a Feira Mundial em Nova York, desenhado com Lucio Costa. Culmina
no Caribe, onde, no final da sua vida, resgata as lembranças estéticas
contidas na sua memória.
Roberto Segre é professor do Prourb da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor
em planejamento regional e urbano do IPPUR da UFRJ. É autor de
diversos livros, entre esses, Arquitetura brasileira contemporânea,
Brasil: jovens arquitetos e Casas brasileiras (Viana & Mosley Editora).
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NIEMEYER'S AMERICAN DREAM
Oscar Niemeyer became known in the American continent as of the advent
of the Pampulha Complex (1940) and, even though he received invitations
from Mexico, Bolivia, Uruguay, Argentina, Chile, Nicaragua, Venezuela
and Cuba, he never built in the Hispanic American countries, nor did
he visit them, due to his fear of flying.
However, three works identify his presence in
the United States, a country that denied him a visa several times due
to his declared support of communism: the Brazilian Pavillion at the
New York World Fair (1939), the UN headquarters (1947) and the project
for the business center in Miami (1972). At the UN, Niemeyer returned
to working with Le Corbusier, but this time their relationship was difficult,
due to the French master's personality and because again Niemeyer had
to correct his project.
With Venezuela and Cuba, Niemeyer has a special
relationship. He designed a museum for Caracas (not built), which surpasses
the schematics of the International Style and the rigid schemes of modern
trends. In Cuba, he designed, during the eighties, an embassy for Brazil
and a monument symbolizing the victory of the Cuban people against the
United States. None were built. At the moment, aside from a new project
for the embassy, there are several proposals for the Cuban government.
The master's creative parable begins almost 70
years ago in New York, at the Brazilian Pavillion. And its apex is at
the Caribbean, where he redeems the aesthetic memories within his memory.
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