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O SONHO AMERICANO DE OSCAR NIEMEYER
NIEMEYER, LE CORBUSIER E AS AMÉRICAS

POR ROBERTO SEGRE



O amor a Cuba
Desde o início da Revolução Cubana, em 1959, Niemeyer deu o seu apoio ao processo de transformações que aconteceram na ilha. Em 1957, o arquiteto já havia sido convidado para participar do projeto do conjunto residencial de Havana del Este, para a alta burguesia, propondo um centro comercial e cultural. Mas a sua persistente posição antiimperialista o fez participar de todos os protestos contra as agressões do governo norte-americano, em particular o embargo econômico.

Em ocasião do 7º Congresso da União Internacional de Arquitetos (UIA), em Havana, em 1961, Niemeyer foi convidado para integrar o júri do concurso internacional para o monumento que lembraria a vitória sobre os mercenários que invadiram Cuba na praia Giron. Não participou por sua limitação para as viagens aéreas. Fidel Castro, entretanto, o convidou reiteradamente, mas só nos anos 90, quando visitou o Rio de Janeiro, encontrou Niemeyer em um jantar no escritório do arquiteto.

Com o retorno da democracia no Brasil nos finais dos anos 80, o governo Sarney decidiu construir uma nova embaixada em Havana e Fidel solicitou que o projeto fosse elaborado por Niemeyer. Para colaborar com a iniciativa brasileira, o governo cubano doou um terreno localizado em uma área privilegiada do bairro nobre de Miramar. Niemeyer elaborou uma solução baseada na tipologia da caixa dentro da caixa, que já havia desenvolvido para sede da editora Mondadori e da Fata, na Itália, e para os CIEPs, no Rio de Janeiro.

Uma estrutura externa de concreto armado com um vão de 40 m e dois balanços de 15 m, com quatro apoios, definem o sistema de suportes unidos por vigas transversais de onde são penduradas as lajes dos dois andares dos escritórios da embaixada. Assim, o térreo ganha transparência total, o que permite a continuidade do espaço natural. Uma laje cilíndrica identifica a entrada principal. A circulação vertical se produz por uma escada externa e duas helicoidais internas.

No início dos anos 90, com o aumento das tensões políticas com os Estados Unidos e a desintegração da União Soviética e do sistema socialista europeu, Cuba ficou com sérios problemas econômicos que provocaram manifestações ao longo do Malecon, o calçadão de Havana, e em frente à ex-embaixada norte-americana. Os fatos inspiraram Niemeyer a projetar um interessante monumento em aço que simbolizava a quebra do bloqueio americano pelo povo cubano. Tampouco foi realizado.

No final do século, novamente o governo brasileiro voltou a propor uma embaixada em Havana, solicitando ao mestre um novo projeto. Niemeyer abandonou totalmente a precedente solução e elaborou uma forma totalmente plástica, quase escultural, formada por dois volumes curvos com fachadas de vidro e uma galeria coberta em forma de arco que articula os dois prédios principais.

Já no início do século 21, o governo cubano solicitou vários projetos para serem inseridos no complexo universitário de ciências informáticas na periferia de Havana. Seriam aproveitadas as instalações anteriormente ocupadas pela representação militar da União Soviética.

Como os blocos pré-fabricados do edifício existente tinham uma imagem formal dura, solicitou-se a Niemeyer o projeto de uma praça de entrada de forma oval e a colocação de um auditório e uma escultura que presidiria o acesso ao conjunto universitário. Essa presença "artística" estaria acompanhada pela participação de escultores cubanos que espalhariam as suas obras no espaço verde. A escultura em aço representando o povo cubano em luta contra o cão do imperialismo atingiu uma expressão menos bem-sucedida que a anterior. A imagem excessivamente realista é pouco coerente com as belas esculturas abstratas que caracterizaram a sua trajetória plástica. O auditório construído em concreto armado define um volume curvo e compacto, com grandes aberturas de vidro onde predominam os cheios sobre os vazios.

Finalmente Havana terá uma obra de Niemeyer, todavia distante da cidade e sem a possibilidade de um uso massivo pela população. A sua aspiração de integrar uma obra simbólica no espaço público urbano, aqui não foi atingida.

Em conclusão, há quase 70 anos a parábola criativa do mestre começou na América, no pavilhão do Brasil para a Feira Mundial em Nova York, desenhado com Lucio Costa. Culmina no Caribe, onde, no final da sua vida, resgata as lembranças estéticas contidas na sua memória.

Roberto Segre é professor do Prourb da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em planejamento regional e urbano do IPPUR da UFRJ. É autor de diversos livros, entre esses, Arquitetura brasileira contemporânea, Brasil: jovens arquitetos e Casas brasileiras (Viana & Mosley Editora).


BIBLIOGRAFIA
BACON, Mardges. Le Corbusier in America. Travels in the Land of the Timid. Cambridge, Mass.The MIT Press, 2001.
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BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Editora Perspectiva, 1981.
CAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasileiro.
A história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
COMAS, Carlos Eduardo. "El oasis de Niemeyer. Una quinta brasileña de los años cincuenta", em Arquine, Revista Internacional de Arquitetura no 3, México DF, primavera 1998, pp. 46-57.
COMAS, Carlos Eduardo. "Arquitectura moderna estilo Corbu, pabellón brasileño", em DC, Revista de crítica arquitectónica, no 3, Barcelona, setembro 1999, pp. 67-77.
CORONA, Eduardo. Oscar Niemeyer. Uma lição de arquitetura. São Paulo: Editora FUPAM, 2001.
HESS, Alan (Edit). WEINTRAUB, Alan (Fotog.), Oscar Niemeyer houses. Nova York: Rizzoli, 2006.
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LE CORBUSIER. Quand les cathedrals étaient blanches. Paris: Plon, 1937.
LIERNUR, Jorge Francisco. "The South American way. El "milagro" brasileño, los Estados Unidos y la Segunda Guerra Mundial (1939-1943)", em Block no 4, Buenos Aires, Universidade Torcuato di Tella, dezembro 1999, pp. 23-39.
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STERN, Robert A.M.; GILMARTIN, Gregory; MELLINS, Thomas.
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SUDJIC, Deyam. The edifice complex. How the rich and powerful shape the world. Nova York: The Penguin Press, 2005.
UNDERWOOD, David. Oscar Niemeyer and the architecture of Brazil. Nova York: Rizzoli, 1994.

NIEMEYER'S AMERICAN DREAM
Oscar Niemeyer became known in the American continent as of the advent of the Pampulha Complex (1940) and, even though he received invitations from Mexico, Bolivia, Uruguay, Argentina, Chile, Nicaragua, Venezuela and Cuba, he never built in the Hispanic American countries, nor did he visit them, due to his fear of flying.

However, three works identify his presence in the United States, a country that denied him a visa several times due to his declared support of communism: the Brazilian Pavillion at the New York World Fair (1939), the UN headquarters (1947) and the project for the business center in Miami (1972). At the UN, Niemeyer returned to working with Le Corbusier, but this time their relationship was difficult, due to the French master's personality and because again Niemeyer had to correct his project.

With Venezuela and Cuba, Niemeyer has a special relationship. He designed a museum for Caracas (not built), which surpasses the schematics of the International Style and the rigid schemes of modern trends. In Cuba, he designed, during the eighties, an embassy for Brazil and a monument symbolizing the victory of the Cuban people against the United States. None were built. At the moment, aside from a new project for the embassy, there are several proposals for the Cuban government.

The master's creative parable begins almost 70 years ago in New York, at the Brazilian Pavillion. And its apex is at the Caribbean, where he redeems the aesthetic memories within his memory.

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