Pensem no bairro de Hansa em Berlim, em um inverno intenso. Imaginem
um céu acinzentado formado por um lençol contínuo
de nuvens baixas, inquebrantáveis e escuras. Imaginem calçadas
e caminhos através de Tiergarten, um dos grandes parques da cidade,
e o efeito definido nessa extensão a oeste de Berlim, endurecida
pelo gelo e neve, enquanto um vento cortante, vindo de algum lugar do
nordeste, muito frio, atravessa a grande planície européia
que se expande dos montes Urais até o mar do Norte.
Em tempos assim, qualquer cidadão de Berlim ou visitante da capital
alemã pode sonhar em estar a milhares de quilômetros, deitado
na praia de Copacabana ou em outro lugar do gênero, sentado na varanda
de algum apartamento glamouroso sob o imenso céu azul brasileiro,
ouvindo um coro de cigarras e o som feliz das crianças mergulhando
nas piscinas.
A primeira vez que vi um prédio de Oscar Niemeyer foi no Tiergarten,
nas profundezas de um inverno particularmente frio dos anos 80. Isso agora
me parece estranho, após ter visitado muitas das obras do artista
no Brasil. Niemeyer e seus prédios sempre serão associados
ao calor e à luz, às ondas suaves do Atlântico e ao
sol da praia de Copacabana, com curvas femininas e, talvez, um pouco de
barroco latino-americano, em algum lugar de mistura inebriante, com formas
abertas e até hedonísticas. Nada disso seria associado a
Berlim, e, certamente, não nos anos seguintes a 1945, com a cidade
em mãos do Exército Vermelho.
Contudo, quando o bairro berlinense de Hansa foi reconstruído
após 1953, foi planejado como uma rebelião arquitetônica
e social contra o estado de Berlim sob os nazistas e também durante
o apogeu do reinado e império prussiano. Os 35 novos prédios
que surgiram aqui a partir da metade dos anos 50, com design de 53 escolas
de arquitetura provenientes do mundo inteiro, inclusive aquelas de Alvar
Aalto, Walter Gropius, Arne Jacobsen e Max Taut, foram feitos para serem
uma reação radical ao design cívico, monumental e
neoclássico de Albert Speer nos anos 30 e de Karl Friedrich Schinkel
um século antes.
Composta em sua maior parte de blocos residenciais, alguns arranha-céus
e alguns edifícios de apenas dois andares, a nova arquitetura de
Tiergarten se preocupava inicialmente com a vida diária das pessoas
comuns, muito mais do que com a limpa e pomposa vida formal da cidade.
Os apartamentos aqui deveriam ser desenhados com linhas da Bauhaus, com
planos abertos, luz do dia generosa e vistas para parques. Esse ideal
de desenvolvimento também tinha a intenção de ser
um contraste com a dura e extremamente disciplinada arquitetura do leste,
ou setor Soviético de Berlim.
Um dos arquitetos escolhidos para reconstruir o bairro foi Oscar Niemeyer
que, embora comunista, não desenhou prédios para ruas como
Stalinallee, na parte leste de Berlim, como se poderia supor. Quando fui
ver os blocos de apartamentos na Altonaerstrasse, 4-14, no Tiergarten,
fiquei perplexo ao perceber como o projeto concluído em 1957 de
fato parecia se encaixar nesse grande parque de Berlim.
pesar de ser, definitivamente, um precursor das superquadras de Brasília,
o edifício parecia estar bem feliz naquele enquadramento frio da
Europa Central. De qualquer forma, Niemeyer teve, é claro, grande
influencia do pensamento do Movimento Moderno, cuja elaboração
teve importante participação da Alemanha.
Sob alguns aspectos - e embora deva mais a Le Corbusier do que
a Gropius ou Mies -, o trabalho de Niemeyer em Berlim mostra-se
como um tipo de homenagem, uma volta às suas origens artísticas
e filosóficas. É decerto estranho pensar em seu encontro
com o grande mestre franco-suíço, que chegou ao Rio, em
1936, a bordo do Graf Zeppelin, o famoso dirigível alemão,
devidamente decorado com todas insígnias e emblemas nazistas. Um
anátema, pode-se imaginar, para o jovem comunista.
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