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TÉCNICA E ARTE NA OBRA DE OSCAR NIEMEYER
A TRAJETÓRIA DO ARQUITETO BRASILEIRO MOSTRA OS ESFORÇOS EM TRANSCENDER AS LIMITAÇÕES INTERNAS E EXTERNAS DO FAZER ARQUITETÔNICO

POR JULIO ROBERTO KATINSKY

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O período em que se desenvolve a obra de Oscar Niemeyer coincide, na Europa, com o momento histórico no qual se critica a validade da atividade tradicional da arquitetura na sociedade moderna e, ao mesmo tempo, propõe-se uma nova organização da profissão. No Brasil, o mesmo período (1930-1995) coincide com o desenvolvimento nacional da profissão do arquiteto, até então fenômeno reduzido ao Rio de Janeiro e São Paulo.

Com efeito, em 1930 o País contava com um curso de arquitetos na Escola Nacional de Belas Artes, um de engenheiros-arquitetos na Escola Politécnica de São Paulo, e uma Escola de Arquitetura em Belo Horizonte. Em 1995, há cerca de 70 escolas de arquitetura, localizadas desde Belém até Porto Alegre - só em São Paulo são mais de dez escolas.

Os arquitetos que participaram da reorganização da profissão no Brasil e sua conseqüente difusão, sofreram o impacto da grande crise e debate crítico europeus. Mas cedo se deixaram polarizar pelas elegantes formulações dos arquitetos modernos, isto é, ligados ideológica ou organicamente aos "Congres Internationales des Architectes Modernes", principalmente quando essa associação foi liderada por Le Corbusier.

Convém frisar que a crise européia se apresentava com faces, por assim dizer, altamente instigantes: havia um consenso mais ou menos difuso de que as instituições sociais tradicionais tinham falhado em manter a paz, tendo como resultado a extraordinária destruição humana e material da Primeira Guerra.

Essa tragédia era vista, em primeiro lugar, como mero efeito das novas condições de trabalho propostas pelo capitalismo, com a conseqüente industrialização desordenada e deterioração material e social das mais importantes cidades do mundo, registrada exaustivamente na literatura oitocentista, tanto na ficção, quanto no pensamento crítico. Em segundo lugar, na conservação teimosa de instituições obsoletas E, em terceiro, no alheamento das elites em relação ao esforço racional sintetizado nas descobertas científicas, tanto nas ciências exatas quanto nas ciências biológicas e sociais.

Ora, a ideologia proposta pelos CIA.M., e particularmente por Le Corbusier, apresentava-se como uma síntese ordenada dessas três vertentes: propunha uma visão coerente do trabalho na "era maquinista", absorvia a proposta de uma nova organização da sociedade e reconhecia a importância do novo pensamento científico para a vida cotidiana em geral e para a atividade artística em particular.

Os arquitetos que lideraram a renovação da profissão e, por conseqüência, da própria arquitetura e seu ensino no Brasil, firmaram desde cedo a convicção de que arquitetura não se resume em bem resolver um problema técnico, seja ele uma eficiente e fluente relação de áreas para atender a certas necessidades humanas, seja um mais econômico e seguro processo de construir um determinado dispositivo material.

As máximas forjadas no século passado: "a estática é estética" (ou a beleza nasce da construção) e a "forma segue a função" (Beaux-Arts de Paris, Escola de Chicago), o arquiteto Lucio Costa, mestre reconhecido dos arquitetos brasileiros no período, poderia acrescentar: de acordo, mas desde que a estática e a função se submetam às leis autônomas da beleza.

Para Lucio Costa, entretanto, essas leis da beleza (ou intenção plástica, como escreveu mais de uma vez) são regularidades fixas, invariáveis. O que muda é justamente o acessório, isto é, o programa social e a técnica construtiva, que são efêmeros.

Podemos acompanhar a evolução de seu pensamento por meio de alguns fragmentos retirados do artigo A arquitetura dos jesuítas no Brasil, de Lucio Costa.

"Quando se estuda qualquer obra de arquitetura, importa ter primeiro em vista, além das imposições do meio físico e social, consideradas no seu sentido mais amplo, o 'programa', isto é, quais as finalidades dela e as necessidades de natureza funcional a satisfazer; em seguida a 'técnica', quer dizer, os materiais e o sistema de construção adotados; depois o 'partido', ou seja, de que maneira, com a utilização dessa técnica, foram traduzidas, em termos de arquitetura, as determinações daquele programa; finalmente a 'comodulação' e a 'modenatura', entendendo-se por isso as qualidades plásticas do monumento."

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