O arquiteto Oscar Niemeyer completa um século e, segundo fortuna
crítica reconhecida, suas obras significativas são, do ponto
de vista da linguagem e à maneira dos trabalhos de Aleijadinho,
as expressões maiores de certa nacionalidade genuinamente brasileira.
O arquiteto, simplesmente, segue a gerar centenária e produtiva
vida em preciosa arquitetura.
Porém, é preciso reconhecer que, desde os desconcertantes
volumes dos Centros Integrados de Educação Popular -
os famosos CIEPs do governador Leonel Brizola -, e a imaginária
sede do Partido Comunista Brasileiro, ambos concebidos em meados da década
de 1980, o arquiteto prossegue a redesenhar as próprias e insólitas
formas.
Neste contexto, observa-se que arcos, passarelas, cúpulas, rampas,
tirantes e colunatas são, inegavelmente, os elementos mais constantes
de suas incontáveis escritas arquitetônicas. O texto niemeyreano
também se configura em metáforas de olho, pássaro,
flor, mão, oca e avião, que nomeiam a geografia e a metafísica
de formas construídas em, pelo menos, sete décadas. Portanto,
os trabalhos recentes de Niemeyer parecem associar, à força
da maré vibrante e à inconstância de margens aleatórias,
marcos de idêntica natureza e ritmo.
O caminho da apoteose niemeyreana
Oscar Niemeyer distingue-se entre os marginais do Modernismo, onde se
encontram Hans Sharoun (1893-1972) e Eero Saarinen (1910-1961). A extrema
liberdade formal e experimentação das possibilidades técnicas
dos materiais construtivos são as maiores características
desse pequeno e singularíssimo grupo. Essa liberdade originou ousadas
soluções estruturais que, sempre impostas às suas
obras, contrariavam as tendências ditas funcionalistas, ou seja,
o universalismo arquitetônico e o Estilo Internacional.
Alvar Aalto, Louis Kahn e outros arquitetos, também nascidos no
final dos Dezenove e nas primeiras décadas do século 20,
de igual modo enfrentaram as urgentes conseqüências das mudanças
econômicas, dos programas sociais, das migrações e
das grandes guerras da Era do Capital. As idéias e realizações
desses arquitetos expressaram, entre as décadas de 1950 e 1960,
a excepcional maturidade que atingiram. As diferenças a destacar
- pois essas, sim, existem - convergem para as maneiras de
reconhecer e utilizar conceitos e conteúdos, e, portanto, configurar
as relações que definem os espaços exteriores e os
interiores. Entre outros pontos que admitem comparações
formais, ressaltam-se as referências ao lugar e, como conseqüencia,
à tradição e à história.
Dessa perspectiva, a vida longa e as últimas produções
ampliaram o quadro teórico-crítico da linguagem niemeyreana.
Assim, a extensa quantidade de projetos idealizados e construídos
desde que o arquiteto se tornou octogenário anunciaria transformações
e retificações. Ultimamente, as qualidades se acentuam,
reforçando as marcas que conectam os novos trabalhos à própria
obra.
Esse processo contínuo de auto-referências sugere que o
centenário de vida poderia ser mais bem demarcado no Caminho Niemeyer
que, a partir de 1991, lhe traçou a velhice de maneira semelhante
como o conjunto da Pampulha, em 1942, trouxe-o para a maioridade. Isolado,
o passeio temático niemeyreano constitui-se de projetos desde catedrais
e capela e até um aquário. As obras inconclusas e em andamento
(a sede fluminense da Fundação Oscar Niemeyer, o Museu do
Cinema Brasileiro e o Memorial Roberto da Silveira) criam voltas e revoltas
arquitetônicas em lugares indubitavelmente belos: o Teatro Popular,
a praça Juscelino Kubitscheck, o MAC-Niterói e o terminal
hidroviário da praia de Charitas.
A promenade niemeyreana é um espelho do Parque do Flamengo, criado
no Rio de Janeiro por Affonso Eduardo Reidy com ambiência paisagística
de Burle Marx. Também no Caminho niteroiense, em desarticulado
rebatimento, se configuram programas e equipamentos urbanos de convicta
intenção social.
À orla de Niterói, antiga capital do estado do Rio de Janeiro,
os espaços desse Caminho servem, de fato, para entreter e encantar.
O grupo de tipos formais diferentes que demarca o início do longo
passeio impõe percursos envolventes e, renegando a esdrúxula
linha de construções anônimas da cidade, sugere espaços
de transição com o mar. Mas o Caminho se interrompe face
ao terminal rodoviário projetado por Sérgio Magalhães.
Nas pré-existências ocorrem os desvios da continuidade espacial
certamente almejada pelo arquiteto. Em direção à
praça JK, onde se encontra a surpresa escultórica que reproduz
a "conversa" do arquiteto Niemeyer com o falecido presidente,
segue-se ao largo de horroroso centro de compras e das estações
de barcas que ficam no ponto central da cidade.
Após percorrer alguns quilômetros de curvas, surge o deslumbrante
Museu de Arte Contemporânea, o famoso MAC-Niterói, a principal
marca do período recente de Oscar Niemeyer. A Estação
Hidroviária na praia de Charitas, de onde se distingue o Pão
de Açúcar, finaliza o Caminho. Enquadrada em ângulo
espetacular, a pedra, símbolo do Rio de Janeiro, demonstra que,
junto às maravilhas de Niemeyer, a natureza torna melhor a paisagem.
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