O projeto
do Ministério da Educação no Rio de Janeiro se define
em 1936. O projeto da sede das Nações Unidas em Nova York
se equaciona em 1947. O projeto do Palácio da Alvorada em Brasília
é de 1956. Entre Ministério feito numa Grande Guerra e Nações
Unidas feita numa Guerra Fria, Oscar Niemeyer amplia o vocabulário
e a sintaxe da arquitetura moderna alinhando sua obra com as realizações
de ponta entre 1930 e 1935, em especial as de Le Corbusier. Entre as Nações
Unidas e a consolidação de Brasília sob um regime
militar, Niemeyer enriquece a arquitetura moderna dando continuidade à
sua pesquisa anterior, em contraste com a guinada brutalista de Le Corbusier
e as caixas de vidro do Mies americano.
Niemeyer inicia a carreira em década de crise econômica,
com a fé nas bondades da máquina e o entusiasmo com a construção
a seco abalados. A arquitetura moderna fora banida em suas bases alemãs
e russas, a aerodinâmica destruíra a identificação
de planos abstratos com veículos velozes. O "espírito
da época" pedia agora variedade de expressão, rústica
e citadina, monumental e ordinária. Os "grands travaux",
o apartamento Beistegui e a casa Errázuris eram peças-chave
na superação das limitações do Estilo Internacional
da década anterior, de cara fabril e uniforme. Le Corbusier tinha
companhia na empreitada, Mies e Terragni no epicentro europeu, Aalto,
Juan o'Gorman e Lucio Costa na periferia. Contudo, a obra corbusiana era
a referência primeira pela amplitude e fundamentação.
Niemeyer a complementa mostrando plena compreensão de suas ambições
sistêmicas e uma exuberância que impressiona.
A matriz da arquitetura moderna, segundo Le Corbusier é a ossatura
independente suportando lajes planas paralelas em balanço, oportunidade
de planta e fachada livres. Niemeyer varia a geometria e a materialidade
dos suportes para indicar austeridade dórica ou elegância
jônica, luxo coríntio ou modéstia toscana. A colunata
colossal que remonta a Perret é motivo recorrente, de conotação
palaciana. Às vezes episódico, mais freqüentemente
exacerbado, assinala vestíbulos, espaços públicos,
loja e sobreloja. Associada à galeria pública, integra-se
a uma tradição urbana pré-moderna. Em qualquer caso,
a autonomia na configuração de lajes distintas se soma à
autonomia na configuração das paredes em pisos distintos.
Niemeyer não se limita ao "prisma puro": a seção
escalonada e a trapezoidal são opções reiteradas
de composição piramidal. Quando sítio e/ou programa
o avalizam, multiplicam as lajes de bordos mistilíneos e curvilíneos.
Usa lajes circulares na Casa do Baile, faceta o vidro por trás
da colunata periférica e recorda a cabana primitiva ideal de William
Chambers como a maloca real dos índios curutus. No Cassino, trabalha
com lajes ovais a sala de espetáculo, deixa o pilotis térreo
aparente, estende por fora o vidro e conjuga esse farol cilíndrico
à caixa da sala de jogo, retomando diálogo que remonta a
outro Cassino, o de Pio IV. O setor de coroa conforma a barra simplesmente
arqueada e a barra sutilmente sinuosa, descendentes, como o Viaduto Habitável
carioca de Le Corbusier, dos "crescents" georgianos de Wood
e Palmer. Incluindo cônicas, espirais, senóides ou serpentinas,
curvas compostas e reversas, de conotações barrocas, limitam
expansões de laje de cobertura que servem de pórticos ou
bases que se expandem além do corpo do edifício. De conotações
orgânicas e naturalistas, curvas de "forma livre" limitam
mezaninos e outras bases. Sua linhagem inclui o ornamento assimétrico
rococó e "art nouveau", mas é mais imediatamente
expressionista, remetendo a Scharoun, a Mendelsohn e aos arranha-céus
de vidro miesianos, e mais precisamente paisagista, transposição
às vezes literal de lagos de jardim pitoresco e canteiros de praça
"fin-de-siècle".
Niemeyer abusa dos panos de vidro e varia as soluções para
protegê-los. Tem veneziana gigante com montantes de concreto e aletas
basculantes de fibrocimento, tem muxarabi metálico e tem cortina
de tiras pivotantes em materiais diversos. Pérgulas e treliças
acompanham paredes vazadas por furos redondos ou compostas por vazios
e placas alternados. A proteção solar dá textura,
dinamismo e profundidade às fachadas. O tratamento distinto de
fachadas adjacentes evidencia as superfícies geradoras do volume
construído. O revestimento das superfícies opacas reflete
uma sensibilidade mais próxima de Terragni e Mies que de Le Corbusier,
embora deste fosse a sugestão de reviver a tradição
do azulejo no Ministério. A Pampulha é exemplar nesse sentido.
No Yacht Club, o azulejo industrial reveste o andar térreo, o travertino
austero vai acima, a madeira esportiva domina o interior. No Cassino,
o travertino reina fora, o mesmo azulejo se reduz a um parapeito. Dentro,
a sala de jogo é luxo puro e polido, com piso de mármore
amarelo e parapeitos em ônix esverdeado, colunas e corrimões
de metal prateado, a parede enorme de espelho bronze duplicando a sala
e o público; a sala de espetáculo prefere o fosco da forração
verde e dos painéis de madeira clara, mas a pista de dança
é de vidro e iluminada por baixo, enquanto quadros pivotantes em
seda rosa acolchoada proporcionam absorção acústica
e vedação de luz. Na fachada para a avenida da Capela de
São Francisco de Assis, o painel de azulejos de Portinari recua
ligeiramente da sucessão de cascas revestidas em pastilhas acinzentadas.
O lustre azul e branco desse retábulo exteriorizado minimiza o
peso e a espessura do seu suporte; é a versão institucional
e citadina do afresco rústico e particular da casa Oswald de Andrade,
ambos declinando de forma inusitada a autonomia moderna entre parede e
estrutura. O azulejo pintado à mão é detalhe no interior,
plataforma e rodapé para o forro da casca em lambris, mas o projeto
iconográfico inclui o afresco de Portinari atrás do altar,
preenchendo a seção parabólica em marrom (que remete
ao hábito tosco do santo) e rosa (que remete à estatuária
sacra ingênua dos tempos coloniais). O piso de mármore branco
se recorta por um tapete de mármore preto e contornos amebóides,
deliberadamente assimétrico em relação ao par de
colunas que sustenta o coro e afirma a simetria axial da nave.
A variedade de soluções de base envolve contenção
e expansão quanto ao corpo do edifício, abertura e fechamento
do pilotis térreo, compactação ou perfuração
por pátios da base expandida, recessão e porosidade do fechamento.
A base porosa é especialidade: o vazio total entre dois sólidos
ganha mil faces, ao rés do chão ou elevado. Atravessado
por rota pública ou semipública, tem ar de propileu.
Enquadrando uma vista, passa por mirante ou camarote aberto. Velado ao
meio por painel de elementos vazados de cerâmica, justapõe
o pórtico à varanda. Cortado por parede de pedra recoberta
por afresco, separa pórtico de entrada e área de serviço.
O chão limitado é sempre um elemento ativo da composição:
pisos, canteiros e gramados interagem com o vazio, equiparando o sítio
a uma clareira artificial. A clareira vem como praça equipada na
Pampulha: um promontório ajardinado onde assenta uma vila belvedere;
relva e terraço com piscina separados pela casa-barco que se joga
ao lago; a praça seca recortada para incluir o braço do
lago plantado com nenúfares; o roseiral planejado à volta
da capela tendo à frente um bosque de fícus. Ao centro,
o lago, a praça líquida maior: Stourhead moderna, Pampulha
atualiza, sem ecletismo, o parque de circuito pitoresco.
A exteriorização enfática do mecanismo da planta
livre é também fator de impacto, exacerbação
de episódio tímido no Pavilhão de Barcelona. Paredes
atrás das colunas periféricas se alternam com paredes a
sua frente, sob o balanço do andar superior. O jogo se dá
em um pé-direito no Pavilhão de Nova York, com acessos flanqueados
por panos opacos, curvos ou retos. No Banco Boavista, o pé-direito
é duplo e a parede é uma só, translúcida e
sinuosa. No Hotel de Ouro Preto, o pé-direito vai do duplo ao triplo,
as paredes são retas e na maioria transparentes, o jogo se complica
via rampa, lajes que avançam ou recuam e volumes em balanço.
A variedade inclui seriação e progressão.
A exuberância chega também ao coroamento. Sobre o teto terraço
retangular do Ministério, os reservatórios e casas de máquina
viram chaminés de navio. E como Le Corbusier já tinha mostrado
que arquitetura moderna não é só ossatura independente,
laje plana e teto terraço, Niemeyer multiplica as coberturas curvas,
confundindo a célula estrutural e a espacial. O Ministério
tem auditório no chão abrigado por casca tronco-cônica
sobre laterais retas e abside curva. No projeto do Centro Atlético
Nacional, os ginásios se fecham com arcos parabólicos elevando-se
do chão, feito o Hangar em Orly de Freyssinet. O estádio
se modela a partir do Centre National de Réjouissances Populaires,
mas tem marquise suspensa de cabos de aço ancorados em outro arco
parabólico, qual a cobertura do Palácio dos Sovietes. Na
Capela da Pampulha, o jogo de volumes tem por elemento-base a casca de
seção parabólica, usada antes isoladamente por Maillart
no Pavilhão do Cimento de Zurique. Tem teatro com exoesqueleto
arqueado e com exoesqueleto retilíneo. A meia-água se soma
em concreto à abóbada abatida, a meia-água telhada
combina rusticidade e planeza. O telhado borboleta ganha configuração
expansiva ou transpõe-se em laje de concreto.
Excepcionalmente, a laje de cobertura se faz côncava, a laje intermediária
se suspende de tirantes. A arquitetura moderna se vê como sistema
triarticulado. Se o seu domínio normativo é o dos edifícios
em altura resolvidos com a estrutura de tipo Do-mino, ele não prescinde
da complementação extraordinária correspondente aos
equipamentos exigindo grandes vãos ou configuração
peculiar, resolvidos com estruturas especiais reticuladas, abobadadas
ou tensas, nem despreza a complementação ordinária
correspondente à construção baixa que não
requer vão maior ou configuração peculiar, como a
casa resolvida com paredes portantes ou estrutura mista. O sistema não
tem regra absoluta e seus domínios não são estanques.
A arquitetura moderna é inclusiva e Niemeyer junta a variedade
das manifestações de exuberância à variedade
das manifestações de ambivalência.
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