A exteriorização de linha e superfície curva é
parte dessa história. A curva para Niemeyer não é
episódica ou esporádica, não se une à efemeridade
ou casualidade da compartimentação em debate com a permanência
da estrutura ortogonal. A curva pode dispensar a reta, sobrepujá-la,
equilibrá-la, mas sequer aparecer. Além de valorização
igual de extremos opostos, a ambivalência é também
ambigüidade. Os interstícios entre o projeto completamente
curvo e o totalmente reto comandam a atenção. Analogamente,
Niemeyer valoriza a fusão formal barroca e a individuação
clássica tanto quanto a sua coexistência, como a base do
Ministério atesta. Em paralelo, explora os interstícios
entre a choupana, a casa e o palácio, eventual e paradoxalmente
exacerbando o contraste entre fachadas opostas. A instância de monumentalidade
que atualiza a tradição coexiste com a impudica exposição
das entranhas do edifício. Excepcionalmente, o contraste se condensa
em uma única fachada, no Cassino e Capela da Pampulha.
Entre o quarteirão edificado perimetralmente e o edifício
em centro de quarteirão, Niemeyer fica com os dois e a gama de
alternativas entre um e outro. O quarteirão quase aberto do Ministério
e o quase fechado do Pavilhão são edifícios praça,
uma predominantemente seca e outra predominantemente verde, a contrapartida
das praças equipadas da Pampulha e suas edificações
centralizadas, transversais ou perimetrais. Barra no alinhamento e base
expandida perfurada por pequenos pátios, o Instituto Nacional de
Puericultura é alternativa para o quarteirão perimetral
compacto.
No Centro Atlético Nacional com porte de setor urbano, Niemeyer
organiza ginásios e estádio à volta de praça
de entrada monumental, retomando o pórtico de Lucio para a Cidade
Universitária do Brasil. Lucio apresenta o projeto da equipe brasileira
- que inclui Niemeyer - como partido oposto ao de Le Corbusier
com os mesmos elementos; igual observação se aplicaria ao
projeto definitivo do Ministério diante das propostas recusadas
de Le Corbusier. Curiosamente, nas Nações Unidas, Le Corbusier
propõe a subdivisão do terreno em dois largos, como no Ministério
definitivo e Niemeyer vai preferir a grande praça, próxima
da segunda proposta de Le Corbusier para o Ministério. O alinhamento
não exclui o antagonismo.
De fato, o pilotis térreo aparente é para Le Corbusier
espaço de serviço e dispositivo que destaca o edifício
do solo, por razões práticas e simbólicas. O pilotis
media entre sítio e arquitetura. Mesmo se urbano, o sítio
ideal é um parque; o edifício se pensa como navio que levita,
massa autônoma e fálica. Para Niemeyer, o chão limitado
e transformado media entre sítio e arquitetura, mesmo em meio rural.
Daí a ênfase no espaço aberto coberto ou descoberto
que acolhe passeio, reunião, comércio, palco, plataforma,
terreiro, galeria, camarote; pilotis incluído, o edifício
limita esse receptáculo uterino ou vaginal. Niemeyer e Le Corbusier
valorizam distintamente os mesmos arquétipos. A diferença
entre suas obras não se reduz à paráfrase, variação,
transposição e hibridização de precedentes
do franco-suíço pelo brasileiro, por importantes que sejam
essas estratégias. A par dos precedentes que influenciaram Le Corbusier,
Niemeyer reporta-se a eles diretamente, os explícitos e os encobertos,
o Palácio dos Doges e as lojas de departamentos, a Beaux-Arts e
o vernacular industrial, Behrens e Perret. A quantidade de outras fontes
contribui para invalidar qualquer idéia de dependência em
relação ao mestre.
Ao débito de Niemeyer com a tradição paisagista
se junta a evocação da tradição luso-brasileira,
popular ou erudita. Na trilha de Lucio, não trata só de
treliça e azulejo, veneziana e muxarabi. O Pavilhão lembra
um tipo de engenho de açúcar do século XIX e a vila
romana que é sua matriz. O Hotel de Ouro Preto corteja o casario
colonial à sua frente e reitera a horizontalidade do Palácio
dos Governadores acima.
Quinta composição, aditiva, mas não pitoresca, entre
a La Roche e a Garches, o Cassino trabalha a articulação
da caixa com o cilindro e a articulação da caixa com protuberâncias
e/ou reentrâncias no meio das fachadas; em outras palavras, sua
linhagem inclui a Rotonda, Vaux-le-Vicomte, o hôtel neoclássico,
a casa de Grandjean de Montigny, primeiro diretor do curso de arquitetura
da Belas Artes no Rio, e a casa da Marquesa de Santos, favorita do imperador
que fundou a escola. A estilização do real convoca o traço
infantil. A Pampulha tem casa-barco feita com fragmentos das casas Errázuris
e Citrohan, os bordos das cascas da Capela são um ideograma das
montanhas pela frente.
Débito, evocação vernacular e estilização
se inscrevem na então já venerável busca de inspiração
fora do território convencional da arquitetura. As alusões
eruditas negam a ruptura total entre a arquitetura moderna e o passado
da disciplina. As referências ao passado da arquitetura moderna
recordam que esta já tem história própria, embora
diminuta a produção face à dos adversários
eclético-acadêmicos. Niemeyer não desacredita a aliança
da arquitetura moderna com a máquina, mas a qualifica. A máquina
é só o catalisador de linguagem nova, capaz de emular, sem
historicismo ou folclorismo, a diversidade da tradição clássica
em senso lato e a unidade da tradição clássica em
senso estrito. O realismo epicurista de sua obra ajuda a manter acesa
a chama da arquitetura moderna nos anos de guerra, quando a construção
civil praticamente cessa na Europa e nos Estados Unidos.
Na nova ordem mundial esboçada logo, a arquitetura moderna ganha
hegemonia, e a disputa interna por reconhecimento concorre para diferenciar
posições. Le Corbusier se inclina para o grave e o pesado,
os materiais de acabamento bruto, o claro-escuro intenso, a elevação
dramática e mesmo rude. Mies trata o aço como pedra fosca,
vira o vidro em pedra polida, defende o eixo, a simetria, a grade, o volume
majestoso e o luxo discreto. Le Corbusier se faz arcaico, se mostra estóico.
Mies se quer intemporal e transcendente. Sem hiato na sua produção
e consagrado como jovem mestre, Niemeyer não vê porque descartar
os ideais de leveza e de finura, ou prescindir do revestimento nas suas
placas delgadas.
A exuberância persiste. Primitivistas, apoios em V, W e Y dão
cara nova à identificação da coluna com a árvore,
nenhum tão surreal quanto o que suporta rampa central no Pavilhão
das Indústrias do Ibirapuera. A coluna tem um quê de cariátide
bojuda na fachada do Palácio da Alvorada; na fachada do Palácio
do Planalto ou do Tribunal Supremo, o apoio é esbelto e pontiagudo,
atlante adolescente qual bailarino minóico. A idéia de peristilo
se mistura à sugestão de arcada invertida na residência
oficial e nas sedes de governo; nos Ministérios das Relações
Exteriores e da Justiça, o arco prepondera, de meio-ponto ou meia-ogiva.
As lajes de bordos curvilíneos ganham outra roupagem. Balanços
e placas paralelas fundem proteção solar e unificação
plástica do corpo de edifício alto, amplificando vinheta
na loja Schocken de Stuttgart. A série inclui laje arqueada e retorcida
no edifício multifuncional, laje triangular de ponta oval em sede
bancária e laje de contornos amebóides em edifício
residencial. A combinação de barra arqueada com base expandida
é avantajada e de forma livre no edifício Mauá, unidade
de habitação sob forma de "resort". Qual cata-vento
enorme de braços serpentinos e contorno similar ao do lago da Quinta
Imperial da Boa Vista, a marquise do Ibirapuera define uma praça
coberta que é abstração de bosque, as colunas dispostas
de forma irregular, o piso em declive. A cobertura da Casa Canoas é
uma laje com contornos de ampulheta, que Niemeyer deriva da deformação
de um plano em L: como na barra arqueada, a curva parece caso particular
da reta. A laje de cobertura do térreo semi-enterrado se expande
como piso. O oásis de Niemeyer é uma clareira arquitetônica
violando e recriando a paisagem, onde o vazio entre sólidos reaparece
entre a piscina doméstica com cara de lagoa e o mar selvagem.
A estrutura porticada curvilínea aflora na cobertura da fábrica
Duchen. No Ibirapuera, a cúpula do Pavilhão de Artes surge
do chão, enorme, disco voador de concisão neoclássica,
precursora das cúpulas do Congresso de Brasília. A pirâmide
invertida do Museu de Caracas inclui protensão e suspensão,
montanha espelhada. Em Brasília, a Catedral, teatro da fé,
é um hiperbolóide de revolução sobre uma praça
plana; o Teatro, templo do espetáculo, é uma pirâmide
truncada sobre um terreno inclinado e gramado, os dois volumes definidos
por exoesqueletos.
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | Próxima >>