Niemeyer simplifica seus volumes, sem cortar as manifestações
de ambivalência. Tem mais dualidade de estrutura e clima. No Palácio
das Artes exemplar, a nave central bordada de colunas equilibra as rampas
e os recortes periféricos das lajes internas.
Nos pavilhões ortogonais vizinhos, junto às pontas da praça
coberta, as rampas centralizadas preenchem parte dos recortes curvos como
lábios. Conversando com as casas de vidro de Mies, Johnson e Lina
Bardi, a Casa da Cascata e Tugendhat, a casa Canoas tem cabana aérea
para a sociabilidade sobre os quartos em caverna de tijolo portante. A
tenda em aço da casa em Pedro do Rio se apóia em quatro
pilones de pedra. A domesticidade coletiva é explorada em hotéis
e hospitais, no conjunto Juscelino Kubitschek, no Mauá anexo do
Hotel e no edifício para o Hansaviertel. Em todos os casos, é
habitação econômica de primeira, mesmo se não
precisamente proletária.
A rusticidade fica em recesso, mas a monumentalidade é parte
do pacote de Brasília e a celebração não é
eufórica. Ao contrário de Chandigarh, subverte a tradição.
Deliberadamente frágeis, mal tocando o chão, de interiores
simples e espaços relativamente baixos, os palácios transmitem,
como diz Norma Evenson, "uma pungente consciência do efêmero,
uma percepção melancólica e sofisticada de quão
tênue é a posse da terra pelo homem e quão transientes
são suas obras". O epicurismo realista não desconhece
a dor.
Contudo, por volta de 1970, Brasília vira o símbolo de
tudo o que parecia ser errado com a arquitetura moderna, condenada por
elitista, frívola, superficial, formalista e desumana como o autor
de seus palácios. Para a crítica mais radical, a desgraça
de Niemeyer é completa. A recuperação de seu prestígio
começa em 1990, acompanhando, de algum modo, a recuperação
da própria arquitetura moderna e o seu entendimento como polifonia,
em que há lugar para o ascetismo e a diversificação
formal, ambos justificáveis pragmática e metaforicamente.
A legalidade da diferença que a obra do arquiteto brasileiro aporta
não está mais em dúvida. Se o entendimento de seu
viço complexo está longe de ser pleno, muitos já
admitem que há nela muito mais do que o olho encontra.
THE LEGALITY OF THE DIFFERENCE
Oscar Niemeyer expanded the vocabulary and syntax of modern architecture
by aligning himself with the state-of-the-art works between 1930 and
1935, especially Le Corbusier's. Then, he enriched architecture in contrast
with the brutal change of Le Corbusier and the glass boxes of the American
Mies.
Modern architecture is inclusive and Niemeyer
unites the variety of the exuberance and ambivalence manifestations.
The line and curved surface exteriorization is part of this history.
The curve, for Niemeyer is not episodic or sporadic, it doesn't join
the ephemeral or casual in the compartmenting in debate with the permanence
of the orthogonal structure. The curve may dismiss the straight line,
overcome it, balance it, but not even show up. The legality of the difference
that the Brazilian architect's works brings is not in question anymore.
If the understanding of his complex vitality is far from complete, many
already admit that there is much more to it than meets the eyes.
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