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UM PANORAMA A PARTIR DOS MUSEUS
A BUSCA POR CONCISÃO E FORMAS PURAS É EVIDENTE NO ESTUDO DESSAS OBRAS, ASSIM COMO A OUSADIA FORMAL E ESTRUTURAL

POR RUTH VERDE ZEIN

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Oscar Niemeyer é sem dúvida um dos mais importantes arquitetos do século 20 e início do século 21. Um dos pioneiros da modernidade arquitetônica brasileira, junto com seu mestre Lucio Costa e um conjunto notável de excelentes arquitetos (Jorge Moreira, Affonso Eduardo Reidy e os irmãos Roberto, entre outros), conformaram em um momento bastante precoce (de 1935 à década de 50) uma escola moderna brasileira que alcançou fama internacional pela qualidade de suas propostas e que, ademais, demonstrava as potencialidades de adaptação dos ideais modernos a soluções de caráter genuinamente brasileiro.

A vasta obra de Niemeyer abrange oito décadas e vários continentes, o que torna desafiadora qualquer tentativa de resumi-la. Assim, sem pretender dar plena conta de um tema inesgotável, propõe-se abordá-lo pela seleção oportuna de um tema arquitetônico. No caso, seus projetos para museus. Esse recorte permitirá compreender de forma panorâmica sua trajetória, culminando-a em duas de suas obras recentes: o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e o Oscar Niemeyer de Curitiba.

Ao ser convidado em 1951 para elaborar o projeto do conjunto de edifícios do Parque do Ibirapuera, a serem construídos em comemoração ao IV Centenário da fundação de São Paulo (em 1954), o carioca Oscar Niemeyer Ribeiro Soares Filho já tinha 44 anos, era considerado um dos mais importantes arquitetos do Brasil e gozava de fama internacional. Tendo estudado na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, participara do projeto do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro (1937), uma das obras inaugurais da arquitetura moderna brasileira. Em 1939, em conjunto com Lucio Costa, realizara o Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York e, no conjunto de edifícios projetados para o bairro de Pampulha, em Belo Horizonte (1941), Oscar Niemeyer demonstra ser um arquiteto já maduro, de grande inventividade, capaz de empregar as idéias da arquitetura moderna, de corte corbusiano e costura brasileira, de maneira criativa e inusitada.

Nos dez anos seguintes Oscar Niemeyer realiza várias obras notáveis, como o Banco Boavista, no Rio de Janeiro (1946), e o Edifício Copan, em São Paulo (1950), cidade cujo crescimento industrial e comercial a estava transformando numa metrópole contemporânea e atualizada, inclusive culturalmente. Parte dessas mudanças era a proposta de transformação de um grande vazio urbano a 10 km do centro em um amplo parque urbano de lazer e cultura.

No primeiro projeto para os edifícios do Parque do Ibirapuera, Niemeyer define as construções pavilhonares conformadas por porticados curvos, dando prosseguimento à exploração formal de outras obras suas posteriores à Pampulha (1946-51), como as fábricas Peixe e Duchen. Já no projeto final, os edifícios tornam-se mais prismáticos, volumes simples alternando planos cegos e envidraçados, onde se destaca o desenho diferenciado das colunas externas, prenunciando os edifícios-barra que projetará para a Esplanada dos Ministérios, e as colunatas dos Palácios de Brasília (1956-60). No primeiro projeto do Parque, uma marquise bastante sinuosa, de desenho quase barroco, conecta os pavilhões, que se apresentam dispostos perpendicular ou paralelamente entre si. No segundo projeto, muda o desenho dos pavilhões sem alterar a ordem regular que os relaciona, mas a marquise que os conecta sofre um redesenho, tornando-se mais concisa, tendendo ao linear.

Tais mudanças parecem indicar que a "busca de concisão e de formas mais puras", que Niemeyer identifica em um depoimento de 1958 como tendo corrido em sua obra a partir do projeto do Museu de Caracas (1954) e nas obras de Brasília (1956-60), de fato já vinha sendo gestada e parcialmente ensaiada um pouco antes, ou seja, nas suas experiências paulistas.

Desde o primeiro projeto para o Parque do Ibirapuera, estão também presentes edifícios de formas geométricas puras, como a cúpula do Pavilhão das Artes e o prisma do Teatro, dispostos de maneira mais autônoma em relação à marquise, ressaltando sua unidade escultórica. Ambos prenunciam as formas escultóricas habitáveis que serão desenvolvidas nos edifícios do Congresso e do Teatro Nacional, em Brasília, e que passarão a ser uma constante cada vez mais presente em sua obra.
Embora o Pavilhão do Brasil na Expo Mundial de Nova York tivesse caráter expositivo, o Pavilhão das Artes do Parque do Ibirapuera (rebatizado como Oca) pode ser considerado o primeiro projeto de museu de Oscar Niemeyer. Diferentemente do que sua imagem externa sugere, não se trata de um grande abrigo oco/oca, mas o vazio interior abriga como que outro edifício, formado pela sucessão vertical de lajes de desenho curvo e estelar, com grandes vazios verticais conectados por rampas. Esse esquema projetual voltará a aparecer em projetos futuros e será central na proposta para o Museu de Arte Moderna de Caracas (1954), em que o caráter escultórico e a complexidade de planos internos se consolidam.

A busca de simplicidade e pureza atinge no Museu de Caracas um grau intenso e paradigmático. A forma compacta e monumental é arquitetura, porque é habitável, mas é também escultura, por seu fechamento exterior e por sua ênfase artística na surpresa e emoção. Trata-se de uma pirâmide invertida que ativa as possibilidades plásticas e estruturais do concreto armado em contraste com o terreno em declive. Uma rampa e uma discreta abertura na sua lateral dão acesso ao Museu. A forma sinuosa das lajes internas, atirantadas na cobertura, permitiriam à luz natural penetrar atingindo todos os níveis sucessivos, suavizando-se por reflexão nos planos inclinados internos.

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