Nascido em 15 de dezembro de 1907, Oscar Niemeyer completa 100 anos de
idade. Longevidade notável, sobretudo se colocada em paralelo à
juventude do Brasil, descoberto pelos portugueses em 1500 e proclamado
independente em 1822. Quer dizer, a sua vida ocupa um quinto dessa história,
e mais da metade do período de soberania do País. Sua obra,
por essa e outras razões, tem um caráter inaugural, assinalando
a maturidade artística do País no momento em que ingressava
no mundo moderno. Estágio cultural em que o Brasil - como
gostava de afirmar o poeta modernista Oswald de Andrade - "dá
de comer à cultura universal", em vez de "vender macumba
para turistas". Significativamente, comentando a contribuição
mundial da arquitetura brasileira nos anos 1940 e 50, Siegfried Giedion
diz: "é um bom sinal para a nossa civilização
o fato de se estar desenvolvendo a partir de mais de um centro".
O ano de 2006 comemorou outra efeméride: os 70 anos do início
da carreira de Niemeyer. Em 1936, Oscar era estagiário no escritório
de Lucio Costa (1902-98), vindo a assessorar pessoalmente Le Corbusier
durante os 45 dias em que esteve no País como consultor nos projetos
para o Ministério da Educação e Saúde (MES)
e para a Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Por isso, acabou sendo
incluído no grupo que desenvolveu o projeto final do MES sob a
liderança de Costa, tornando-se decisivo na definição
do partido finalmente adotado. Inicia-se aí uma comovente história
de troca de postos entre Costa e Niemeyer, em que o primeiro - quase
seis anos mais velho - passa gradativamente ao segundo o cetro de
líder do grupo, impulsionando sua carreira.
Diferentemente de Costa, mais ligado afetivamente à tradição
artesanal portuguesa, Niemeyer tem uma vocação decididamente
autoral, desenhando projetos que se tornam rapidamente identificáveis
pela ênfase plástica e pela liberdade ao tratar a relação
entre volumetria e estrutura. Comparativamente, a síntese gráfica
de suas formas é semelhante à estilização
técnica e gestual da cantora Carmen Miranda (1909-55), que começou
a fazer sucesso nos Estados Unidos enquanto Costa e Niemeyer construíam
o Pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1939,
em Nova York. Em ambos, percebe-se uma vocação moderna e
original para a comunicação de massas. E se a extravagância
de Carmen serviria, décadas mais tarde, de inspiração
para o tropicalismo na música popular, Niemeyer não escaparia
de ficar associado a um regionalismo tropical, exótico e hedonista,
que, no entanto, não descreve o caráter mais substantivo
de sua obra.
O seu propalado amor pela linha curva, de inspiração paisagística
ou biomórfica, freqüentemente esconde a inteligência
construtiva de muitos dos seus projetos. No Banco Boavista (Rio de Janeiro,
1946), por exemplo, o desenho ondulante de uma extensa parede de tijolos
de vidro garante, pela própria geometria, a rigidez da superfície
transparente, evitando a necessidade de amarrações verticais
ou horizontais. Igualmente, o volume serpenteante do edifício Copan
(São Paulo, 1951-68), além de dialogar com o formato sinuoso
do lote, favorece a estabilidade em relação aos esforços
de vento. O que quer dizer que raramente podemos encontrar a mera gratuidade
em suas "formas livres".
Indicado por Costa a fazer o projeto do Grande Hotel de Ouro Preto (1940),
uma intervenção moderna no centro histórico da cidade
colonial mais importante do País, Niemeyer tornou-se conhecido
das autoridades mineiras, vindo a ser convidado por Juscelino Kubitschek
(1902-76), então prefeito da capital do estado, a projetar um conjunto
de edifícios à beira do lago da Pampulha (1940-43): um cassino,
uma capela, um clube e uma casa de baile. Tais projetos tiveram grande
repercussão dentro e fora do País, e se tornaram a vedete
da mostra Brazil builds, no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York,
em 1943. Desde então, a associação entre Niemeyer
e Kubitschek, ou entre arquitetura e poder, tornou-se simbiótica.
Pois, se de um lado a monumentalidade graciosa de seus edifícios
emprestava uma feição moderna ao Estado desenvolvimentista
- um caráter de eficiência sem empostação
-, de outro o mecenato estatal propiciou ao arquiteto desenvolver
uma obra francamente simbólica e pública, livre dos constrangimentos
naturais das encomendas privadas, sujeitas às leis do mercado.
Essa parceria, como se sabe, culminou na construção de Brasília
(1957-60), a nova capital plantada no interior desértico do País,
quando Kubitschek se tornou presidente da nação (1956-61).
O golpe militar de 1964, cujo governo ditatorial se estenderia por 21
anos, interrompe bruscamente essa associação. Significativamente,
nesse momento, se uma série de movimentos artísticos na
música, teatro, cinema e artes plásticas floresceram na
forma de contestação aberta ao regime, a arquitetura se
ressentiu da falta de patrocínio estatal, entrando em declínio.
Niemeyer, em seu exílio voluntário (de 1966 ao início
dos anos 80), constrói obras importantes pelo mundo, como a sede
do Partido Comunista Francês (Paris, 1965-81), a editora Mondadori
(Milão, 1968-75) e a Universidade de Constantine (Argélia,
1969-72), consolidando o alcance internacional de sua arquitetura. No
Brasil, o eixo principal da produção arquitetônica
se desloca do Rio de Janeiro para São Paulo, centro industrial
e financeiro, sob a liderança de Vilanova Artigas (1915-85) e,
depois, Paulo Mendes da Rocha (1928). Chamada de brutalismo paulista,
essa arquitetura parte de uma crítica à liberdade formal
carioca e se auto-impõe uma severidade construtiva militante, expressa
no uso do concreto aparente e na didática estrutural. Em relação
a Niemeyer, Artigas diz: "enquanto ele sempre se esforça para
resolver as contradições numa síntese harmoniosa,
eu as exponho claramente", porque "não se deve encobrir
com uma máscara as lutas existentes, é preciso revelá-las
sem temor".
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