JOSEP
MARIA BOTEY Bom dia Oscar.
OSCAR NIEMEYER
Como vai? Faz tempo que você não nos visita.
BOTEY O trabalho
ou o não-trabalho, o único responsável, e sempre
a mesma desculpa...
NIEMEYER Vejo
que está com a cara boa.
BOTEY Sim, estou
um pouco mais redondo.
NIEMEYER Não
queria dizer isso. Mas o tempo passa para todos.
BOTEY Para você
não serve o ditado. Na última vez, há mais de um
ano, lhe via mais cansado... E quando me disseram que você tinha
machucado a coluna, pensei que na sua idade isso podia ser perigoso, mas
pelo que vejo...
NIEMEYERÉ
como se diz: o trabalho faz milagres.
A conversa avança agradavelmente enquanto a tarde cai em Copacabana.
Ao fundo, recortado e reto como sempre - como o Oscar em frente
à sua mesa de desenho -, o Pão de Açúcar
desvela uma de suas partes. Paisagem que, como sempre repetiu Oscar, é
insubstituível e a única que emociona seus olhos. O que
balança o seu coração é outra coisa, mas sobre
isso logo falaremos.
BOTEY Há
umas semanas, enviei-lhe um e-mail sobre a idéia de preparar uma
homenagem em Barcelona para celebrar os já quase 50 anos de Brasília
e os seus próximos 100 anos.
O Oscar busca com a vista a Vera (Niemeyer), que está ao nosso
lado, e ela solta:
VERA NIEMEYER
Mas você mesmo já tinha respondido na sua carta, dizendo:
"Não... não... não..."
BOTEY Não
é bem assim, eu dizia que não admitia um "não".
VERA O Oscar sabe
que não viajará mais.
BOTEY Em nenhum
momento propus isso. Agora vejo que o meu português, ou portunhol,
nem corrigido é compreensível... Dizia que o Colégio
de Arquitetos da Catalunha queria lhe homenagear, como havia feito anos
atrás ao lhe conceder a medalha de ouro. Agora queremos preparar
uma série de atos a seu respeito, e para dar uma boa difusão
queríamos editar umas informações. Por isso era necessário
dispor da sua autorização para utilizar um desenho para
o cartaz de difusão dos atos e também para uma publicação
sem fins lucrativos dirigida exclusivamente aos colegiados.
NIEMEYER Pode
contar com isso. Escolha você o desenho. Para mim estará
bem.
Vera, como sempre, ao ver que a conversa está agradando a Oscar,
discretamente nos deixa sozinhos.
BOTEY Pensava
em fazer uma entrevista com você.
NIEMEYER Outra?
BOTEY Sinto muito,
sei que cada dia todos nós que passamos para cumprimentá-lo
queremos que nos responda coisas diferentes e novas.
Começamos a conversar e Oscar comenta sobre a vida, os amigos,
a liberdade... Enfim, tantos temas e todos tão interessantes que
sei que tenho de propor gravar a entrevista. Oscar não somente
aceita como fica muito mais satisfeito, pois ele não gosta que
lhe atribuam palavras que não sejam fidedignas às suas respostas,
ou frases que sejam somente reflexos do que falou, e que acabam perdendo
parte do sentido original.
Falamos da vida e dos ciclos que nos confundem, que o imprescindível
é ter muito claro o que se é, o que se quer, o que se pode
fazer e pelo que vale a pena lutar. Como e onde? Esse é um outro
e difícil caminho a escolher... De qualquer maneira, e por isso
mesmo, talvez algumas coisas se vejam diferentes em momentos diferentes.
Falamos sobre como as posições políticas podem ser
uma realidade ou podemos ficar presos a um setor determinado porque, seguramente,
somos conscientes dos equívocos mas não dos critérios
e do espaço que o homem realmente ocupa. Constatamos que somos
tão pequenos e ao mesmo tempo tão soberbos, num universo
tão imenso. E concluímos que não somos nada realmente
importante.
Os temas fluem e a tarde corre cheia de surpresas, como sempre acontece
quando estou com Oscar. Vejo sobre a mesa um pequeno livro com uma capa
que contém desenhos de Oscar. Pego o livro e folheio.
BOTEYÉ
novo. Quando saiu?
Ele pede a Vera que traga outro. É um pequeno livro de ficção,
e Oscar comenta que não posso conhecer porque ele acaba de publicar.
Como de costume, me dedica o livro e aceito. Vale a pena dizer como me
sinto? Cada vez é uma emoção nova e diferente, e
cada dedicatória é um passo a mais na nossa já estreita
amizade - sentimento embasado por um absoluto respeito e admiração
por sua obra e por ele. Nessa mesma ordem? Não importa, pois suponho
que deve passar como no amor, primeiro conheci a obra e depois ele.
BOTEY Nossa,
que título! Sense Embuts seria a melhor tradução
para o catalão.
NIEMEYER ?
BOTEY Quer dizer
o que está dito: "sem rodeios". É uma frase feita.
Ele me aconselha a lê-lo à noite para que no dia seguinte
conversemos. E, como em outras vezes, a entrevista se adia.
A verdade é que seguimos falando por mais um bom tempo. Ao fundo,
no outro canto da janela levemente aberta, as luzes tênues das favelas
e as luzes ofuscantes de um outro Rio parecem competir. Os eternos dois
mundos, pelos quais vale a pena lutar para conseguir que se equilibrem.
A autêntica pobreza e o mundo capitalista da burguesia, que cada
dia é mais rica, e uma eterna e constante ameaça que cada
dia é mais perigosa. Os recentes acontecimentos de São Paulo
(os ataques atribuídos à organização criminosa
conhecida como PCC - Primeiro Comando da Capital) nos dão
um toque de alerta ao que está passando no mundo. Enquanto uma
política norte-americana continua pensando que a Colômbia
deveria ser ocupada para acabar com a droga, que o Iraque... Enfim, "deixemos
esse tema", diz Oscar.
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