A cidade com corpo de pássaro de Lucio Costa é, desde
o nascimento, um ícone da arquitetura moderna e sua fama percorreu
o mundo tendo como marcas registradas, além do traçado urbanístico
peculiar, os edifícios de formas instigadoras de Oscar Niemeyer.
Inaugurando um novo tempo na história do País, Brasília
despontou como símbolo de um horizonte de possibilidades políticas
e sociais.
O desejo do arquiteto de fazer da nova capital um marco diferenciado
da arquitetura moderna, apoiado irrestritamente pelo presidente Juscelino
Kubitschek e por todo o grupo de técnicos que o acompanhou, contou
com a genialidade e a ousadia de um profissional obstinado pela engenharia
e pelas artes. Mas, apesar disso, freqüentemente ignorado nos abundantes
textos e publicações sobre a obra de Niemeyer e a respeito
de Brasília.
Joaquim Maria Moreira Cardozo (1897- 1979), cidadão recifense
de origem humilde, superou com seu brilhantismo qualquer descompasso de
formação que porventura tenha tido em relação
aos profissionais proeminentes da área à época, em
geral advindos de classes sociais mais abastadas e graduados em renomadas
escolas no exterior. Conhecido por sua personalidade introspectiva e uma
ligação atávica com as ciências, Joaquim Cardozo
foi um elo definitivo na cadeia de fatores que levaram a obra de Niemeyer
ao patamar de reconhecimento que possui, em especial no que tange àquele
período.
A convicção de Oscar Niemeyer no uso das formas curvas
é de domínio público, sendo quase a declaração
de honra de seu trabalho, expressa nas memoráveis palavras:
"... Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a
linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai
é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do
meu país, na mulher preferida, nas nuvens do céu e nas ondas
do mar. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de
Einstein...".
É em Brasília que o traço livre e generoso do arquiteto
encontra sua expressão privilegiada, influenciada pelos sonhos
e intenções político-ideológicas das equipes
envolvidas. O próprio Niemeyer confessa:
"... mas foi em Brasília, nos palácios da nossa Capital,
que a forma plástica mais me preocupou, desejo de encontrar nova
solução estrutural que os caracterizasse. São as
colunas recurvadas, acabando em ponta, que os fazem leves e vazados como
que apenas tocando o solo. Na concepção desses palácios,
preocupou-me também a atmosfera que dariam à Praça
dos Três Poderes. Não a pretendia fria e técnica,
com a pureza clássica, dura, já esperada das linhas retas.
Desejava vê-la, ao contrário, plena de formas, sonho e poesia...".
As colunas dos palácios, a volumetria divinal da Catedral e as
cúpulas do Congresso Nacional, como símbolos de uma nacionalidade
em expansão, foram um desafio para além de sua expressão
ideológica. A complexidade estática das formas propostas,
contrapondo os esforços atuantes às características
resistentes do material, impunha a necessidade de uma concepção
estrutural inovadora, inédita e, por que não dizer, atrevida.
O envolvimento de Joaquim Cardozo foi pleno, em mente e coração,
no enfrentamento dos problemas científicos e construtivos que envolveram
a resolução dessas e outras obras igualmente singulares,
custando-lhe inúmeras vezes críticas acirradas por parte
de profissionais e entidades ligados à engenharia estrutural.
Movia-se pelo desígnio de viabilizá-las e pela motivação
de fazer dessas os baluartes da engenharia e da técnica construtiva
brasileiras, frente a um mundo tecnológico em desenvolvimento e
sob o domínio de algumas poucas potências internacionais.
Sempre rebelde e inconformado com toda e qualquer tendência de subserviência
que pudesse ser manifestada pelos brasileiros em relação
aos ditames estrangeiros, Joaquim Cardozo pregava a importância
de uma soberania nacional no tocante ao conhecimento, voltada à
resolução adequada de nossos problemas sociais.
Em discurso para formandos da Escola de Engenharia da Universidade do
Recife à época da construção de Brasília,
exortou os alunos a observarem a importância daquele momento, quando
se agitavam por todo País "as vivas aspirações,
os mais sinceros desejos de desenvolvimento e progresso". Disse ainda
que, diante de homens cujos destinos estariam inevitavelmente ligados
ao destino do País, não seria ele a lhes dizer, de forma
desvairada, que tudo seria fácil, que a nação já
se encontrava capacitada e aparelhada para um grande porvir, nem também,
"assumindo a atitude frouxa e passiva de muitos outros, aconselhar-lhes
que, ao deixar as salas de estudo desta escola, saiam já submissos
e de cabeça baixa às injunções e exigências
de prepotentes senhores estrangeiros".
Além da adesão irrestrita aos preceitos da arquitetura
moderna, sem dúvida o sentido nacionalista ligava fortemente Joaquim
Cardozo a Oscar Niemeyer. Por isso, nutriu seu trabalho na busca de soluções
para os intrincados problemas estruturais que lhe permitiram contribuir
para a consolidação de uma cultura arquitetônica brasileira
de repercussão internacional.
Cultura esta que Niemeyer tantas vezes, de maneira estóica, revela
ter defendido. "Brasil... Quantas vezes me senti jacobino ao defender
meu país no exterior. Ao recusar as críticas, não
raro justas, feitas muitas vezes num tom amigo e conselheiro! Mas, não
sei por que, nunca as tolerei... E quando a conversa caminhava para o
campo da cultura, eu explodia: 'como é fácil para nós,
brasileiros, invadir o mundo da imaginação e da fantasia!
Nosso passado é modesto e tudo nos permite realizar'. E continuava:
'Como deve ser difícil para vocês realizarem coisa nova,
a circularem a vida inteira entre monumentos!' E repetia minha frase predileta:
'Nossa tarefa é outra: criar hoje o passado de amanhã'".
Se foi Niemeyer a criar esses tempos na arquitetura, quem os materializou,
concretos, foi Cardozo.
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