Em Brasília, desafios e desafios
Sobre o calculista, Niemeyer declarou:
"... Quando o engenheiro especializado em cálculos atualiza
seus conhecimentos profissionais, quando está a par de todos os
avanços da técnica da construção, quando ele
abandona as regras e as normas limitativas para especular somente sobre
os problemas colocados pelo concreto armado, porque descobriu que é
a melhor maneira de evoluir; quando ele conhece não só a
profissão, mas também as artes visuais e a verdadeira arquitetura
- o que, aliás, é raro -, enfim, quando ele
consegue se entusiasmar não só pelo problema técnico
a solucionar, mas também pelo sentido artístico e criador
da obra para a qual colabora, então sua associação
com o arquiteto torna-se fecunda e positiva"."Ao longo da minha
vida profissional, tive o privilégio de encontrar esse complemento
essencial na colaboração amiga e superior de Joaquim Cardozo.
Ele está sempre decidido a encontrar a solução justa
para cada problema.
Uma solução que preserva a forma plástica sob todos
os seus aspectos, quaisquer que sejam as dificuldades possíveis,
porque ele tem, como eu, a certeza de que para se transformar em uma obra
de arte, a arquitetura deve, antes de mais nada, ser bela e marcada de
um espírito criador."
O Congresso Nacional foi projetado por Oscar Niemeyer para ser um marco
indelével na paisagem de Brasília. Mais que uma construção,
seu signo foi de configurar-se em uma escultura monumental. Estrategicamente
localizado no plano urbanístico, foi idealizado como uma referência
na cidade e sua volumetria cria efeitos visuais inesperados. Como comenta
Yves Bruand, "... bastaram alguns volumes elementares justapostos
com habilidade e fundidos num conjunto equilibrado, mas inesperado: às
linhas horizontais do edifício das sessões, encimado por
duas cúpulas audaciosamente invertidas, ele opôs o movimento
vertical das duas torres que contêm os escritórios".
Mais adiante, o autor confirma que as contradições formais
levam a uma solução extremamente feliz: "A estética
do Palácio do Congresso baseia-se inteiramente num equilíbrio
perfeito na distribuição de massas, associado com originalidade
barroca, de solidez com leveza, de estabilidade com dinamismo. A harmonia
geral é tal que se poderia crer que existe uma simetria impecável,
mas, esta, embora existente, está longe de ser absoluta. Pelo contrário,
é fruto de um jogo muito engenhoso de compensações...".
Duas cúpulas audaciosamente invertidas. O engenheiro de estruturas
Joaquim Cardozo soube muito bem entender o recado do criador daquelas
formas. Poeta que era, sabia que as metáforas são fonte
da criação e devem ser respeitadas.
Embora já bastante envolvido, e ousadamente, com os projetos da
nova capital, talvez tenha sido na obra do Congresso Nacional que Cardozo
demonstrou toda sua coragem de enfrentar os paradigmas estruturais, em
atitude que lhe rendeu elogios e, também, muitas e severas críticas.
O proeminente calculista italiano Pier Luigi Nervi, autor de belas estruturas
arquitetônicas, mas ferrenho defensor de uma verdade estrutural
em que a forma deve ser coerente com os esforços, chocou-se com
a solução e duvidou de seu sucesso.
Suas dúvidas não eram infundadas. Uma cúpula invertida
não é a maneira mais convencional de se construir com concreto.
Os esforços gerados pela opção estrutural são
predominantemente de tração, o que leva a uma solução
em que o aço é o único responsável pela absorção
dos esforços, atribuindo ao concreto um papel secundário,
até mesmo inexistente, ao longo da maior parte da superfície.
Pode-se considerar que o concreto, aqui, sirva apenas como elemento de
envolvimento de uma espécie de estrutura de aço.
É obvio que Cardozo, como engenheiro de estruturas experiente,
hábil com as formulações matemáticas, sabia
muito bem disso. Sua coragem estava exatamente em desafiar as verdades
técnicas estabelecidas, assimilando a audácia poética
de Niemeyer e transformando-a em realidade. Se não houvesse um
engenheiro que pensasse assim, é provável que as cúpulas
opostas do Congresso jamais existissem - e seu autor sabia disso.
Niemeyer relatou: "Recordo sempre os trabalhos que realizamos juntos
e não me lembro de um único caso em que ele (Joaquim Cardozo)
tenha se insurgido contra as sugestões dos meus projetos, nem que
tenha manifestado uma certa reserva ou proposto alterações
de caráter econômico ou de prudência em relação
à estrutura. Sua atividade se mantém, invariavelmente, num
nível elevado de compreensão e de otimismo. Sempre que lhe
proponho uma dificuldade a resolver, ele a estuda com um cuidado especial,
pois não tenciona trazer a mínima modificação
às particularidades novas ou ousadas que possa conter. Ao contrário,
deseja acrescentar novos detalhes que vão dar destaque às
suas características".
No discurso aos formandos de Recife, foi esta a obra escolhida por Cardozo
para ilustrar os preceitos que considerava fundamentais por cumprir na
prática da engenharia. Antes, defendeu com veemência a ação
científica sistemática como suporte às atividades
práticas da profissão. Explicou aos jovens engenheiros a
seqüência magna que, em sua opinião, amparava a ação
inventiva na concepção estrutural: o profundo conhecimento
do aparato matemático, a exercitação empírica
sobre modelos materiais reduzidos, a checagem dos resultados obtidos sobre
protótipos em escala real ou próxima a esta e, por fim,
o exame estatístico dos resultados das medidas calculadas e as
tomadas sobre modelos e protótipos.
Cardozo lamentou que a estrutura da cúpula invertida não
pudesse ter sido analisada com tal rigor. Explicou que, embora pesquisadores
do Laboratório de Engenharia Civil de Lisboa houvessem se disponibilizado
para realizar os ensaios com modelos e protótipos, não houve
tempo suficiente no contexto do cronograma político das obras,
dado que grande parte do prazo de projeto havia sido consumida na composição
geométrica das cascas, objetivando-se satisfazer os "desejos
do arquiteto". Assim, a estrutura foi executada tendo como subsídio
único a concepção e os cálculos feitos por
Cardozo. O projeto de Niemeyer determinava que a cúpula invertida
aparentasse estar simplesmente pousada sobre a laje da esplanada, o que
gerou uma casca esférica muito rebaixada, além de trazer
dificuldades estáticas e executivas em sua ligação
com o volume de apoio.
Ainda no mesmo discurso, o engenheiro compartilhou com os formandos de
Recife suas infindáveis pesquisas teóricas, em literatura
estrangeira, na busca de solução aos desafios de concepção,
dimensionamento e execução daquelas formas tão puras,
mas de alta complexidade estrutural. Resumindo, explicou:
"Procuramos adaptar ao desenho fornecido pelo arquiteto um parabolóide
de revolução cuja geratriz fosse curva parabólica
de quinto grau, com contato de segunda ordem ao longo de uma linha paralela
à linha de contorno da esplanada. A equação obtida
trouxe, porém, dificuldades ao próprio uso das equações
da casca em regime de membrana. A forma final adotada para a superfície
média foi a de uma zona de elipsóide de revolução
possuindo um tronco de cone tangente segundo uma circunferência
de determinada cota".
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