Se a descrição, estrita à formulação
geométrica, satisfaz qualquer curiosidade de compreensão
sobre a solução encontrada por Cardozo, os cálculos
matemáticos para definição da seção
resistente da casca permanecem um mistério. E mais: o que se conhece
da resolução construtiva ainda causa perplexidade, dada
a sua singularidade. Imagens da época da construção
do edifício revelam uma densidade de armação inusitada,
denunciando a pouca atuação estrutural do concreto.
Pode-se dizer que este tenha sido um aspecto freqüente nas formulações
estruturais de Cardozo para os projetos de Oscar Niemeyer em Brasília.
Em especial nas colunas dos palácios, que, segundo o arquiteto,
deveriam tocar leve e suavemente os pontos de apoio e coberturas, o percentual
de armadura nas seções extremas atingia valores muito maiores
do que o permitido pelas normas técnicas atuais. O calculista Augusto
Carlos de Vasconcelos, autor de diversas publicações sobre
concreto, menciona o caso da base das colunas do Palácio do Planalto,
nas quais a armadura chegava a atingir quase 20% da secção
- mais do que o triplo admitido nos dias de hoje. Estudos analíticos
do comportamento estático dos pilares da Catedral de Brasília
revelam quadro semelhante.
A maneira particular de Joaquim Cardozo de tratar a concepção
e o dimensionamento das estruturas de concreto foi objeto de permanente
inquietação no meio técnico da engenharia de estruturas
durante sua carreira profissional. As evidentes diferenças de seu
trabalho obviamente não poderiam ser vistas como aventuras ou meras
idiossincrasias. Cardozo foi um profissional de qualidades técnicas
irrefutáveis. Seu domínio da matemática e das ciências
superava todo e qualquer parâmetro de normalidade. Acrescia-se a
isso, ainda, a atividade poética fecunda, o conhecimento avançado
e apaixonado das artes plásticas, sem contar a profunda familiaridade
com a teoria e a história da arquitetura, com especial dedicação
aos preceitos da arquitetura moderna.
Não é por mero acaso, portanto, que a ele se referiu Oscar
Niemeyer como o "brasileiro mais culto que conhecia", uma pessoa
de atitude cheia de bondade e simplicidade, própria de um homem
inteligente, alguém que jamais impunha uma opinião com a
intransigência daqueles que se consideram os únicos detentores
de uma verdade irrefutável. Pressupõe-se, assim, que Cardozo
detinha um método próprio e particular de compreender e
conceber os tipos estruturais com que trabalhava, articulando razão
e sensibilidade de forma surpreendente.
A realização das polêmicas obras para as quais contribuiu,
e que até hoje encantam multidões, demonstra que a contradição
em relação às normas técnicas da época
não pode ser entendida como desconsideração ou desprezo
aos cálculos estruturais. Ao contrário, o que se apresenta
é uma hipótese bastante consistente de que Cardozo tenha
sido um idealizador de estruturas genial, para quem, segundo o emérito
catedrático da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo, Prof. Dr. Pedro Bento José Gravina, os tradicionais algoritmos
de cálculo estrutural, ferramentas tão úteis às
pessoas normais, seriam pouco necessários, à medida que
era capaz de sentir o comportamento da estrutura e projetá-la de
maneira correta e elegante.
Ao encontro desse pressuposto, vem a célebre frase de Eduardo
Torroja: "Antes e acima de todo cálculo está a idéia
modeladora do material em forma resistente, para cumprir sua missão".
Também Augusto Carlos de Vasconcelos acredita na possibilidade
de um raciocínio inovador de Cardozo no trato das questões
estruturais. "Era como se estivesse criando um novo tipo de concreto
armado e esquecesse das limitações e imposições
das normas estruturais e propriedades dos materiais empregados."
Vasconcelos atribui tais posições ao respeito absoluto
que manifestava, não só à obra de Niemeyer, mas também
à arquitetura moderna brasileira como expressão técnica
e cultural. Essa sua paixão fica evidente em artigo sobre o assunto,
publicado em 1955, no qual Cardozo analisa as características construtivas
de obras da época, explicitando os avanços que haviam trazido
à arquitetura e à engenharia nacionais, comparando-as com
casos internacionais e recuperando raízes históricas de
cada solução arquitetônica.
Por exemplo, ao associar o resultado obtido por Niemeyer na Igreja da
Pampulha às pontes em arco-parede de Maillart e à forma
particular da abóbada de Orly, de Freyssinet. Ou ainda, as esquadrias
com brise-soleil propostas pelos irmãos Roberto no Edifício
Anglia, compostas de venezianas de madeira basculantes sobre tirantes
metálicos, que conferiam riqueza estética à fachada
trazendo à memória "vagos aspectos de antigas janelas
mouriscas".
É toda uma elegia à arquitetura moderna brasileira em que
o engenheiro conclui, com grande entusiasmo, que "todos esses resultados
são reveladores de que a arquitetura brasileira, longe de paralisar-se
em fórmulas exaustas, vai-se desenvolvendo com uma vitalidade surpreendente
e uma riqueza de tendências e soluções bem compatível
com os progressos da técnica e dos métodos construtivos".
É essa adesão irrestrita de Cardozo à arquitetura
moderna que, talvez, justificasse todo e qualquer empenho seu em realizar
estruturas de exceção, sem receio das críticas que
disso pudessem advir. O excesso de material em suas seções
resistentes, duramente questionado em pareceres técnicos emitidos
por outros profissionais, como Aderson Moreira da Rocha, contratado para
examinar os cálculos do Tribunal de Contas e do Iate Clube de Brasília,
não parecia ao calculista uma questão de mérito frente
aos resultados plásticos alcançados. Ao comentar, por exemplo,
a riqueza arquitetônica dos elementos externos de sustentação,
da cobertura propostos por Niemeyer para os Palácios da Alvorada
e do Planalto, e para o Supremo Tribunal, declara, sem constrangimento,
que as soluções estruturais "são conseguidas
esteticamente com superabundância de material construtivo".
Joaquim Cardozo partiu há quase três décadas. Seu
pensamento tem expressão material nas obras que estruturou, em
grande parte seguindo à risca o traço determinado de Niemeyer.
Os conceitos geradores de suas soluções inusitadas permanecem,
entretanto, envoltos em sutil mistério. Continua, assim, o desafio.
E talvez dentre todas a mais intrigante, tal qual uma esfinge contemporânea,
a obra do Congresso nos instiga a conhecê-la.
PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | Próxima >>