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Arquiteturas & Estruturas


O ENGENHEIRO DAS CURVAS DE BRASÍLIA
DISCRETO. INVESTIGATIVO. HOMEM DA CIÊNCIA, HOMEM DAS ARTES, DE ESPÍRITO INQUIETO E ALMA BRASILEIRA, JOAQUIM CARDOZO DEIXOU UM LEGADO INESTIMÁVEL PARA A ENGENHARIA DE ESTRUTURAS AO CONCRETIZAR AS FORMAS ARQUITETÔNICAS INUSITADAS PROPOSTAS POR OSCAR NIEMEYER EM BRASÍLIA - ALGUMAS DAS QUAIS ATÉ HOJE SÃO DESAFIOS PARA A COMPREENSÃO E O RACIOCÍNIO LÓGICO

POR YOPANAN REBELLO E MARIA AMÉLIA D'AZEVEDO LEITE



As cúpulas do congresso

O concreto como material da arquitetura, a estrutura como escultura. Relata Joaquim Cardozo:
"... Os arquitetos procuram, às vezes, formas de transição mais raras, em desacordo com a solução mais verdadeira do ponto de vista estático. Como exemplo, lembrarei o hall de exposições do Ministério da Educação e Cultura, onde toda a carga do primeiro teto é transmitida para os pilares por meio de "cachorros" delgados, sujeitos a um grande esforço cortante. No entanto, o seu efeito plástico é indiscutível. Estes exemplos vêm mostrar que não há adaptação perfeita entre a estética dos arquitetos e a estática dos engenheiros, muito embora esta última tenha também a sua íntima importância estética. Não obstante as discrepâncias assinaladas, as invenções dos engenheiros, não só na criação de novos tipos construtivos, como também na produção de novos materiais, são indiscutivelmente as fontes principais das quais se alimenta a capacidade criadora dos arquitetos".

Por que Nervi e outros engenheiros de estruturas se surpreenderam com o projeto das cúpulas do Congresso? Um modelo bastante simples pode demonstrar o motivo da polêmica que envolveu a obra, principalmente no que se refere à cúpula invertida. Observem-se duas cúpulas, representadas pelas metades de uma laranja cortada em gomos e colocadas em posições inversas.

Percebe-se que a cúpula cujo centro de curvatura está voltado para baixo estabiliza-se com facilidade, enquanto a outra tende a se abrir como uma flor, revelando estar submetida a esforços de tração. Caso se queira recuperar sua estabilidade, basta uma "amarração" unindo os gomos com um pedaço de fita adesiva. Nesse caso, a fita está simulando o papel da intensa armação de aço, destinada a manter estável a forma da cúpula invertida do Congresso. Aí reside o cerne da questão: se a cúpula invertida do Congresso fosse inicialmente concebida em aço, o cálculo estrutural seria razoavelmente simples. O difícil fica imaginar um modelo estrutural em concreto.

Como mostra a imagem da execução da obra da cúpula invertida, Cardozo previu uma densidade de armação muito acima do convencional para o que se poderia considerar concreto armado. Mesmo uma outra formulação estrutural que admitisse a predominância de flexão, em lugar de tração, não levaria a uma solução em concreto armado, dadas as tensões desenvolvidas. Mas seria alguma aberração técnica considerar-se a estrutura concebida por Joaquim Cardozo como uma malha de barras de aço enrijecida por concreto? Solução com tal característica, por sinal, foi proposta por Eero Saarinnen para o aeroporto de Dulles, próximo a Washington, na qual uma malha de cabos de aço recoberta com concreto vence um vão de 50 m, constituindo-se no elemento de cobertura do grande saguão.

Uma malha de cabos de aço como resolução estrutural apresenta como grande vantagem leveza e esbeltez. Em contrapartida, cabos são elementos estruturais pouco estáveis formalmente. Mudanças de carregamento provocam mudanças na geometria da estrutura - o conhecido funicular das forças. Em uma grande cobertura, onde as forças de vento são as mais significativas e, ao mesmo tempo, variáveis em intensidade, direção e sentido, o efeito sobre cabos instáveis é quase catastrófico. Por isso, cabos e malhas de cabos devem ser de alguma forma enrijecidos. O uso de uma camada de concreto sobre a malha de cabos é uma maneira fácil de a enrijecer, funcionando como uma espécie de "engessamento". Essa camada serve também como elemento de vedação da cobertura. Solução semelhante foi usada por Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura no pavilhão de Portugal para a Expo-98, em Lisboa.

Por que Joaquim Cardozo, tão audacioso, não poderia ter lançado mão do mesmo conceito? É lógico que a malha de cabos, tal como proposta por Saarinen e Siza, não teria sentido na cúpula invertida do Congresso, dado que não haveria nenhuma configuração de estabilidade. No entanto, barras de aço tracionadas e fletidas podem formar um conjunto estável, desde que enrijecidas por uma camada de concreto, sendo que, neste caso, o concreto não seria mais o elemento principal, mas coadjuvante, desempenhando uma tripla função: rigidez da forma estrutural, proteção da armadura e vedação.

Que contradição haveria, portanto, caso essa tenha sido a opção estrutural? Não teria sido Cardozo mal compreendido, a partir de julgamentos que levaram em conta apenas o padrão convencional das soluções em concreto armado? Seria possível até aventar que Joaquim Cardozo, arvorando-se de uma certa arrogância matemática e permitindo-se um certo sarcasmo, tenha criado propositalmente um enigma, cuja solução é típica dos grandes problemas, isto é, a simplicidade absoluta! São perguntas cujas respostas o polêmico calculista recifense parece ter levado consigo.

Há de se convir que o período quando as obras de Brasília foram concebidas ocorreu a vanguarda da concepção estrutural em concreto, com o surgimento de obras fantásticas e desafiadoras em diversos países. Alguns exemplos são o Pequeno Palácio do Esporte (1957) de Nervi, em Roma, coberto por uma cúpula semiesférica composta por peças pré-fabricadas e vencendo um vão de 60 m; o restaurante Los Mananticales (1958), de Felix Candela e Joaquin Alvarez Ordoñez, na cidade do México; ou ainda, o Pavilhão da Phillips para a Exposição de Bruxelas de 1958, projetado por Le Corbusier e Yannes Xenakis, são bons exemplos do patamar de investigação estrutural da época.

Nas obras de Candela e Xenakis, os parabolóides hiperbólicos revelam seu potencial em termos do uso pleno das características do concreto armado como material estrutural, evidenciando que, apesar da complexidade executiva da qual se revestem, são sistemas que apresentam excelente desempenho na relação área de cobertura versus quantidade de material. Vê-se, assim, que eram tempos de fértil prospecção científico-técnica no campo da engenharia estrutural, para o quê as obras de Brasília muito cooperaram e influenciaram.

Em entrevista a jornalistas em 1973, no Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer disse:
"A arquitetura brasileira é baseada na tecnologia, especialmente na do concreto armado. Isto explica as formas livres que a caracterizam. Como todas as outras, ela sofreu a influência da obra extraordinária de Le Corbusier, recebendo desta os princípios de base e em seguida, com a construção da sede do Ministério da Educação e Saúde (1936), projetada por ele, o impulso inicial indispensável.

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