As cúpulas do congresso
O concreto como material da arquitetura, a estrutura como escultura.
Relata Joaquim Cardozo:
"... Os arquitetos procuram, às vezes, formas de transição
mais raras, em desacordo com a solução mais verdadeira do
ponto de vista estático. Como exemplo, lembrarei o hall de exposições
do Ministério da Educação e Cultura, onde toda a
carga do primeiro teto é transmitida para os pilares por meio de
"cachorros" delgados, sujeitos a um grande esforço cortante.
No entanto, o seu efeito plástico é indiscutível.
Estes exemplos vêm mostrar que não há adaptação
perfeita entre a estética dos arquitetos e a estática dos
engenheiros, muito embora esta última tenha também a sua
íntima importância estética. Não obstante as
discrepâncias assinaladas, as invenções dos engenheiros,
não só na criação de novos tipos construtivos,
como também na produção de novos materiais, são
indiscutivelmente as fontes principais das quais se alimenta a capacidade
criadora dos arquitetos".
Por que Nervi e outros engenheiros de estruturas se surpreenderam com
o projeto das cúpulas do Congresso? Um modelo bastante simples
pode demonstrar o motivo da polêmica que envolveu a obra, principalmente
no que se refere à cúpula invertida. Observem-se duas cúpulas,
representadas pelas metades de uma laranja cortada em gomos e colocadas
em posições inversas.
Percebe-se que a cúpula cujo centro de curvatura está voltado
para baixo estabiliza-se com facilidade, enquanto a outra tende a se abrir
como uma flor, revelando estar submetida a esforços de tração.
Caso se queira recuperar sua estabilidade, basta uma "amarração"
unindo os gomos com um pedaço de fita adesiva. Nesse caso, a fita
está simulando o papel da intensa armação de aço,
destinada a manter estável a forma da cúpula invertida do
Congresso. Aí reside o cerne da questão: se a cúpula
invertida do Congresso fosse inicialmente concebida em aço, o cálculo
estrutural seria razoavelmente simples. O difícil fica imaginar
um modelo estrutural em concreto.
Como mostra a imagem da execução da obra da cúpula
invertida, Cardozo previu uma densidade de armação muito
acima do convencional para o que se poderia considerar concreto armado.
Mesmo uma outra formulação estrutural que admitisse a predominância
de flexão, em lugar de tração, não levaria
a uma solução em concreto armado, dadas as tensões
desenvolvidas. Mas seria alguma aberração técnica
considerar-se a estrutura concebida por Joaquim Cardozo como uma malha
de barras de aço enrijecida por concreto? Solução
com tal característica, por sinal, foi proposta por Eero Saarinnen
para o aeroporto de Dulles, próximo a Washington, na qual uma malha
de cabos de aço recoberta com concreto vence um vão de 50
m, constituindo-se no elemento de cobertura do grande saguão.
Uma malha de cabos de aço como resolução estrutural
apresenta como grande vantagem leveza e esbeltez. Em contrapartida, cabos
são elementos estruturais pouco estáveis formalmente. Mudanças
de carregamento provocam mudanças na geometria da estrutura -
o conhecido funicular das forças. Em uma grande cobertura, onde
as forças de vento são as mais significativas e, ao mesmo
tempo, variáveis em intensidade, direção e sentido,
o efeito sobre cabos instáveis é quase catastrófico.
Por isso, cabos e malhas de cabos devem ser de alguma forma enrijecidos.
O uso de uma camada de concreto sobre a malha de cabos é uma maneira
fácil de a enrijecer, funcionando como uma espécie de "engessamento".
Essa camada serve também como elemento de vedação
da cobertura. Solução semelhante foi usada por Álvaro
Siza e Eduardo Souto de Moura no pavilhão de Portugal para a Expo-98,
em Lisboa.
Por que Joaquim Cardozo, tão audacioso, não poderia ter
lançado mão do mesmo conceito? É lógico que
a malha de cabos, tal como proposta por Saarinen e Siza, não teria
sentido na cúpula invertida do Congresso, dado que não haveria
nenhuma configuração de estabilidade. No entanto, barras
de aço tracionadas e fletidas podem formar um conjunto estável,
desde que enrijecidas por uma camada de concreto, sendo que, neste caso,
o concreto não seria mais o elemento principal, mas coadjuvante,
desempenhando uma tripla função: rigidez da forma estrutural,
proteção da armadura e vedação.
Que contradição haveria, portanto, caso essa tenha sido
a opção estrutural? Não teria sido Cardozo mal compreendido,
a partir de julgamentos que levaram em conta apenas o padrão convencional
das soluções em concreto armado? Seria possível até
aventar que Joaquim Cardozo, arvorando-se de uma certa arrogância
matemática e permitindo-se um certo sarcasmo, tenha criado propositalmente
um enigma, cuja solução é típica dos grandes
problemas, isto é, a simplicidade absoluta! São perguntas
cujas respostas o polêmico calculista recifense parece ter levado
consigo.
Há de se convir que o período quando as obras de Brasília
foram concebidas ocorreu a vanguarda da concepção estrutural
em concreto, com o surgimento de obras fantásticas e desafiadoras
em diversos países. Alguns exemplos são o Pequeno Palácio
do Esporte (1957) de Nervi, em Roma, coberto por uma cúpula semiesférica
composta por peças pré-fabricadas e vencendo um vão
de 60 m; o restaurante Los Mananticales (1958), de Felix Candela e Joaquin
Alvarez Ordoñez, na cidade do México; ou ainda, o Pavilhão
da Phillips para a Exposição de Bruxelas de 1958, projetado
por Le Corbusier e Yannes Xenakis, são bons exemplos do patamar
de investigação estrutural da época.
Nas obras de Candela e Xenakis, os parabolóides hiperbólicos
revelam seu potencial em termos do uso pleno das características
do concreto armado como material estrutural, evidenciando que, apesar
da complexidade executiva da qual se revestem, são sistemas que
apresentam excelente desempenho na relação área de
cobertura versus quantidade de material. Vê-se, assim, que eram
tempos de fértil prospecção científico-técnica
no campo da engenharia estrutural, para o quê as obras de Brasília
muito cooperaram e influenciaram.
Em entrevista a jornalistas em 1973, no Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer
disse:
"A arquitetura brasileira é baseada na tecnologia, especialmente
na do concreto armado. Isto explica as formas livres que a caracterizam.
Como todas as outras, ela sofreu a influência da obra extraordinária
de Le Corbusier, recebendo desta os princípios de base e em seguida,
com a construção da sede do Ministério da Educação
e Saúde (1936), projetada por ele, o impulso inicial indispensável.
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