3) As gracinhas de cada prefeito que resolve inventar desenhos pavorosos
para enfeitar os pisos, e outras cem razões.
Aí chegamos a um mistério: por que será que o mosaico
português, que todos reconhecemos que é lindo (lembrando
Tom Jobim, é muito bom, mas é uma m... ou é uma m...
mas é muito bom), se mantém certinho e bem conservado no
Rio de Janeiro e no país inteiro de Portugal? E será que
nesses dois estranhos locais do mundo as mulheres andam sem saltos altos?
Como dizem a bossa nova e Oscar Niemeyer, os desenhos das calçadas
de Copacabana lembram as curvas da mulher carioca. Parabéns, mesmo
com salto alto. E engraçado, que coincidência, ora pois pois,
os pisos de mosaico português ficam exatamente em Portugal!
Existe uma "quase" norma internacional que manda usar placas
de concreto removíveis, de fácil substituição
para acesso a instalações, sem danificar o piso. Mas o mundo
está errado, o certo é como fazemos nós.
É verdade que, durante séculos, a bagunça das calçadas
foi universal e isso se reflete nos nomes pelos quais as chamamos em diversas
línguas, até quando em um ou outro idioma eles deveriam
ser ao menos parecidos: é acera em espanhol, marciapiedi em italiano,
sidewalk em americano, pavement em inglês e, naturalmente, trottoir
em francês. Em alemão, não lembro mais, mas deve ser
algo como hundscheiseachtungführersauerkrautmitkartofellnschumacherstrasse
que significa "piso".
Mas todos chegam à mesma conclusão: placas de concreto.
Naturalmente, há os casos especiais de áreas residenciais,
regiões de comércio, praças (e aí os desenhos
são obras de arte), especialmente em áreas grandes, no Canadá,
Japão, Estados Unidos e em especial nas antigas praças italianas,
onde os desenhos lembram a antiga preocupação com a beleza
- e mesmo com a praticidade, porque duram até hoje -
dos espaços urbanos.
Os que estiveram na maravilhosa cidade litorânea de Dubrovnik,
na Iugoslováquia (com a bagunça do nacionalismo, a gente
não sabe mais como esses países se chamam), podem se lembrar
de um espaço urbano total integrado pelo piso, com grandes placas
de pedra polida, inviável hoje, mas é o mais bonito que
conheço.
Nas cidades desenvolvidas, ao caminhar as pessoas olham para a frente,
os arquitetos para os edifícios e os paisagistas para o chão.
Aqui no Brasil, devemos ser todos paisagistas porque, se não formos,
é fratura na certa.
Conta a história que a razão pela qual as mulheres caminhavam
do lado interno da calçada é que na Inglaterra, antigamente,
procediam assim para evitar serem arrebatadas e raptadas pelos cavaleiros
que passavam rente à calçada e na "mão inglesa".
Do jeito que anda o mercado, acredito que se fosse hoje, todas estariam
caminhando quase em cima da guia.
Diz-se que a forma mais segura de se atravessar a rua em Nova York é
estar acompanhado de uma criança; em Paris, de uma mulher bonita,
e, em Berlim, de um cachorro. No Brasil, não atravessamos -
arriscamos.
É verdade que nos países gelados do norte você arrisca
freqüentemente cair escorregando no gelo sobre o piso (escapei algumas
vezes, caí várias outras), mas mesmo assim eles colocam
terra e sal para reduzir o problema. Aqui temos ainda as reformas diárias,
em que o piso de cimento não secou e nos tornamos todos celebridades,
imprimindo as solas dos sapatos nas calçadas da fama ou da lama.
O que fazer? Consertar calçadas não é uma questão
urbana de tanto impacto visual para os políticos que pensam que
administram nossas cidades. O método mais usado é o tradicional
"deixa que fica para ver como é que está". No
entanto, sem dúvida, é uma lei que deveria ser alterada,
para que as prefeituras fizessem o serviço - cobrando, se
necessário - e proporcionassem calçadas unificadas
e facilmente mexíveis, para usar um termo culto.
Da forma como estão as coisas, devemos também aqui usar
outra palavra tradicional para calçadas: "o passeio".
Mas o passeio não é dos cidadãos, é dos cachorros.
Aos cidadãos resta se desviarem dos buracos e tomarem cuidado para
não pisarem nas lembrancinhas que as madames e madamos donos de
cachorros vão deixando pelas calçadas. O consolo é
que, pelo menos nesse item, somos iguais a Paris.
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