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Crônicas Agudas

AS CALÇADAS DESCALÇAS
DEIXA QUE FICA PARA VER COMO É QUE ESTÁ

POR SERGIO TEPERMAN


3) As gracinhas de cada prefeito que resolve inventar desenhos pavorosos para enfeitar os pisos, e outras cem razões.

Aí chegamos a um mistério: por que será que o mosaico português, que todos reconhecemos que é lindo (lembrando Tom Jobim, é muito bom, mas é uma m... ou é uma m... mas é muito bom), se mantém certinho e bem conservado no Rio de Janeiro e no país inteiro de Portugal? E será que nesses dois estranhos locais do mundo as mulheres andam sem saltos altos? Como dizem a bossa nova e Oscar Niemeyer, os desenhos das calçadas de Copacabana lembram as curvas da mulher carioca. Parabéns, mesmo com salto alto. E engraçado, que coincidência, ora pois pois, os pisos de mosaico português ficam exatamente em Portugal!

Existe uma "quase" norma internacional que manda usar placas de concreto removíveis, de fácil substituição para acesso a instalações, sem danificar o piso. Mas o mundo está errado, o certo é como fazemos nós.

É verdade que, durante séculos, a bagunça das calçadas foi universal e isso se reflete nos nomes pelos quais as chamamos em diversas línguas, até quando em um ou outro idioma eles deveriam ser ao menos parecidos: é acera em espanhol, marciapiedi em italiano, sidewalk em americano, pavement em inglês e, naturalmente, trottoir em francês. Em alemão, não lembro mais, mas deve ser algo como hundscheiseachtungführersauerkrautmitkartofellnschumacherstrasse que significa "piso".

Mas todos chegam à mesma conclusão: placas de concreto. Naturalmente, há os casos especiais de áreas residenciais, regiões de comércio, praças (e aí os desenhos são obras de arte), especialmente em áreas grandes, no Canadá, Japão, Estados Unidos e em especial nas antigas praças italianas, onde os desenhos lembram a antiga preocupação com a beleza - e mesmo com a praticidade, porque duram até hoje - dos espaços urbanos.

Os que estiveram na maravilhosa cidade litorânea de Dubrovnik, na Iugoslováquia (com a bagunça do nacionalismo, a gente não sabe mais como esses países se chamam), podem se lembrar de um espaço urbano total integrado pelo piso, com grandes placas de pedra polida, inviável hoje, mas é o mais bonito que conheço.
Nas cidades desenvolvidas, ao caminhar as pessoas olham para a frente, os arquitetos para os edifícios e os paisagistas para o chão. Aqui no Brasil, devemos ser todos paisagistas porque, se não formos, é fratura na certa.

Conta a história que a razão pela qual as mulheres caminhavam do lado interno da calçada é que na Inglaterra, antigamente, procediam assim para evitar serem arrebatadas e raptadas pelos cavaleiros que passavam rente à calçada e na "mão inglesa". Do jeito que anda o mercado, acredito que se fosse hoje, todas estariam caminhando quase em cima da guia.

Diz-se que a forma mais segura de se atravessar a rua em Nova York é estar acompanhado de uma criança; em Paris, de uma mulher bonita, e, em Berlim, de um cachorro. No Brasil, não atravessamos - arriscamos.

É verdade que nos países gelados do norte você arrisca freqüentemente cair escorregando no gelo sobre o piso (escapei algumas vezes, caí várias outras), mas mesmo assim eles colocam terra e sal para reduzir o problema. Aqui temos ainda as reformas diárias, em que o piso de cimento não secou e nos tornamos todos celebridades, imprimindo as solas dos sapatos nas calçadas da fama ou da lama.

O que fazer? Consertar calçadas não é uma questão urbana de tanto impacto visual para os políticos que pensam que administram nossas cidades. O método mais usado é o tradicional "deixa que fica para ver como é que está". No entanto, sem dúvida, é uma lei que deveria ser alterada, para que as prefeituras fizessem o serviço - cobrando, se necessário - e proporcionassem calçadas unificadas e facilmente mexíveis, para usar um termo culto.

Da forma como estão as coisas, devemos também aqui usar outra palavra tradicional para calçadas: "o passeio". Mas o passeio não é dos cidadãos, é dos cachorros. Aos cidadãos resta se desviarem dos buracos e tomarem cuidado para não pisarem nas lembrancinhas que as madames e madamos donos de cachorros vão deixando pelas calçadas. O consolo é que, pelo menos nesse item, somos iguais a Paris.

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