Cada
época nos reserva alguns monstros e alguns gênios. Nem sempre
de forma muito clara e, por vezes, sob uma ótica maniqueísta.
Saber identificá-los e reconhecê-los ainda em vida constitui
sinal de maturidade e civilidade. Seja pelo aspecto artístico,
social, econômico, político, cultural ou tecnológico,
a existência de tais indivíduos contribui para a evolução
da humanidade. Oscar Niemeyer é um gênio.
Nascido no princípio do século passado, período
de extraordinário desenvolvimento, formou-se engenheiro arquiteto
em 1934 e logo foi estagiar no escritório de Lucio Costa e Carlos
Leão, onde teve oportunidade de trabalhar com Le Corbusier. Mais
tarde, encontrou em Juscelino Kubitschek fundamental apoio. Em 1940, o
futuro presidente, então prefeito de Belo Horizonte, encomendou
a Niemeyer o conjunto da
Pampulha, obra que teve impacto fundamental na evolução
do modernismo no Brasil, em um primeiro momento, e no mundo, logo em seguida.
Ao completar 100 anos de vida e pelo menos 70 de carreira, o arquiteto
brasileiro continua a trabalhar e a provocar surpresa e emoção
com edifícios esculturais. A originalidade dos prédios de
Niemeyer os torna atemporais e fazem deles elementos, a um só tempo,
integrados e destoantes do local de implantação. A tônica
autoral e o privilégio da beleza em detrimento da funcionalidade
costumam despertar a ira de seus críticos. Sim, também os
gênios têm detratores - aliás, seria péssimo
se não o tivessem. De fato, pode-se argumentar que os feitos no
uso do concreto armado obtidos pelo arquiteto e pelos engenheiros de estruturas
com quem trabalhou poderiam ser atingidos de outras maneiras. Ou ainda
que o arquiteto costuma ignorar referências, funções
e normas na busca pelo novo, na deliberada intenção de surpreender.
Também por isso Niemeyer é ímpar. Um dos arquitetos
com maior número de obras relevantes na história da civilização,
teve o privilégio, inclusive pela longevidade, de manifestar idéias
e exercitar o talento incomum durante décadas a fio. Cabe, porém,
uma pergunta sobre alguém que, como ele, desafia a vida e o tempo:
como as futuras gerações irão interpretar Niemeyer?
Este número especial de AU, comemorativo do aniversário
do mestre, pretende contribuir com tal reflexão. Ainda que, como
diria o próprio, a vida seja mais importante do que a arquitetura.