A Escola Estadual Jardim Angélica III poderia ser definida como
um volume branco e compacto, permeável apenas à luz natural
e aos acessos públicos. A solução formal encontrada
pelo Núcleo de Arquitetura, escritório integrado pelos arquitetos
Luciano Margotto Soares, Marcelo Luiz Ursini e Sérgio Luiz Salles
Souza, surgiu da necessidade de adaptar o projeto ao terreno de topografia
acidentada e dimensões reduzidas. O local escolhido pela Fundação
para o Desenvolvimento da Educação (FDE) para a implantação
da nova instituição de ensino é, na realidade, uma
área remanescente da Escola Estadual Pedro Morcelli, localizada
na periferia do município de Guarulhos, em São Paulo.
Além do terreno pequeno, o orçamento limitado foi o outro
desafio enfrentado pela equipe, que optou por sistemas construtivos industrializados
e leves, coerentes com os perfis de aço que compõem o esqueleto
do edifício. A estrutura metálica foi uma determinação
da FDE para o projeto da escola que, para a fundação, assume
um caráter experimental. "O projeto criará parâmetros
de referência para construção escolar em sistemas
estruturais metálicos", explica Margotto.
A estética de galpão industrial prevalece na parte superior
da construção, em que painéis de concreto celular
autoclavado foram fixados externamente a uma estrutura composta por perfis
metálicos parafusados. Já os pavimentos inferiores seguem
outra lógica construtiva, na qual a estrutura permanece aparente
em meio à alvenaria de blocos de concreto.
O projeto prescindiu da padronização rígida dos
componentes, típica dos sistemas construtivos em aço, a
fim de que a estrutura ficasse o mais leve possível. "Cada
perfil foi dimensionado para atender às solicitações
a que está sujeito", diz Margotto. Dessa forma, a estrutura
conta com uma grande variação de peças, o que exigiu
do escritório de arquitetura maior esforço para compatibilizar
projetos e elaborar detalhes construtivos. "A economia de material,
sobretudo de aço, justificou nosso esforço", afirma
Margotto. Na laje de painéis treliçados, a combinação
de EPS e concreto ofereceu resistência suficiente, a ponto de dispensar
os contraventamentos.
A linguagem arquitetônica da escola dialoga com o entorno, marcado
por residências autoconstruídas. "Os recortes que abrem
o envelopamento do prédio são, de certa forma, padrões
ou configurações extraídas do improviso da autoconstrução,
da disposição típica das aberturas dessas construções,
decorrentes de uma intuição descompromissada e sensível",
descrevem os arquitetos Alessandro Castroviejo Ribeiro e Paulo Sérgio
Del Negro no artigo Peças Entrelaçadas, sobre EE Jardim
Angélica (veja a seguir). Da mesma forma que as aberturas, os cobogós
cerâmicos remetem à vizinhança, embora destituídos
do caráter desordenado das moradias autoconstruídas do entorno.
Os espaços internos estão organizados ao redor de dois
vazios centrais, estruturados sobre um mesmo eixo vertical. Um deles é
uma galeria de 29 m x 2 m que atravessa os dois pavimentos inferiores,
onde foram implantadas 18 salas de aula. O outro vazio corresponde à
quadra poliesportiva localizada na metade superior da construção,
onde também estão os espaços administrativos e de
convívio. Com 29 m x 18 m, o vazio superior "interliga na
vertical os dois pavimentos superiores e marca o caráter de liberdade
e alegria da escola", afirmam os arquitetos no memorial descritivo
do projeto.
Um par de passarelas metálicas atirantadas na estrutura da cobertura
ladeia a quadra de esportes. Ao percorrê-las, o observador tem uma
generosa vista do espaço interno e do entorno, revelada pelo fechamento
de policarbonato. O policarbonato é translúcido no trecho
que corresponde à altura dos olhos do observador. Nos demais, é
alveolar. Uma faixa estreita sem vedação garante a entrada
e circulação de ar no pátio que, apesar de priorizar
a fluidez espacial, dispõe de ambientes fechados como o grêmio
e a cantina. Inseridos em um bloco suspenso, eles estão debruçados
sobre a quadra de esportes, assim como as passarelas metálicas.
Passarelas também foram os recursos utilizados para conectar
o volume arquitetônico à cidade. O acesso dos alunos à
escola - e também o da comunidade à quadra de esportes,
disponível nos finais de semana - acontece na ponte mais
alta, localizada na cota 108 m. Outra ponte, num nível mais baixo,
configura o acesso público e a escadaria que, por sua vez, liga
o estacionamento até os dois pavimentos de salas de aula. O segundo
pavimento coincide com o espaço cívico, pátio, salas
de múltiplo uso e de leitura.
A fachada Leste foi trabalhada de forma diferenciada pelo projeto, que
procurou integrar visualmente a nova escola à antiga, localizada
ao lado. Colunas metálicas aparentes e esbeltas, sem nenhuma vedação
entre elas, revelam o interior da "caixa" para quem está
de fora, deixando a nova instituição de ensino visualmente
acessível à antiga. Na fachada oposta, as salas de aula
foram recuadas em planta, de forma a projetar a alvenaria para fora do
edifício. Além de proporcionar ritmo à fachada, os
elementos protegem as salas de aula do intenso sol poente.
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