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Brasil

PARA ESTABELECER UM DIÁLOGO
VERTICALIDADE E VOLUMETRIA ÚNICA CARACTERIZAM EDIFÍCIO DE ESCOLA ESTADUAL PROJETADO PELO NÚCLEO DE ARQUITETURA. OS ARQUITETOS TIRARAM PARTIDO DA AUTOCONSTRUÇÃO TÍPICA DA REGIÃO, LOCALIZADA NA PERIFERIA DE GUARULHOS, CIDADE DA GRANDE SÃO PAULO

POR VALENTINA N. FIGUEROLA FOTOS NELSON KON



PEÇAS ENTRELAÇADAS

POR ALESSANDRO CASTROVIEJO RIBEIRO E PAULO SÉRGIO DEL NEGRO

Ver pela terceira vez a Escola Estadual Jardim Angélica foi um fato revelador. Na primeira vez, o contato foi por meio das imagens e dos textos contidos na exposição e na publicação Coletivo. No livro, a escola fotografada encontra-se contida nos limites do lote - soberana. A impressão é de uma caixa suspensa, essencialmente abstrata, ao gosto de uma das muitas tendências de arquitetura contemporânea em São Paulo. Parte do texto dos arquitetos reforça tal percepção. "O partido desse projeto é o da peça única, compacta e predominantemente fechada ao exterior, aberta apenas aos acessos públicos ou à luz natural."

Na segunda vez em que vi o edifício, por meio de uma imagem aberta de Nelson Kon, a escola aparece imponente entre as moradias autoconstruídas da periferia de Guarulhos. Uma figura forte sobre um fundo aparentemente desprovido de interesse ou valor. Na terceira vez, quando visitamos o edifício, já municiados pelas leituras do projeto executivo, uma outra escola se revela. As primeiras percepções midiáticas desmancham-se, rearranjam-se e a história nos parece outra. Diferenças de interpretação e de tato.

A peça única, quase caixa, é conformada por uma série de operações e escolhas de projeto que a afastam de qualquer raciocínio exclusivamente idealizador, contido nas caixas racionalistas paulistanas. As justaposições formais de diversas ordens prevalecem como traços de uma poética encantada com a diferença, com a reconciliação de elementos e raciocínios de origens diversas. A linguagem das aberturas abstratas encontra-se contaminada pelas figurações mais sistêmicas e ritmadas. Nas espacialidades, há tanto continuidades de espaço quanto segmentações imperativas. A estrutura casa com pertinência dois procedimentos estruturais complementares, mas distintos.

A peça única só é inteligível sob determinadas visadas e a escola configura-se melhor como duas peças conceituais entrelaçadas. Por outro lado, o objeto que aparentemente se desprende de seu contexto apenas sublinhando sua total autonomia é uma elegante reinterpretação dos padrões contidos num daqueles desertos de água e areia Calvinianos - no caso, a homogeneidade da autoconstrução. O ato estético eleva à condição de figura aquilo que se esconde na informalidade expressiva das moradias da periferia. A arquitetura vai até aonde pode ir.

A peça única refere-se mais adequadamente ao partido que organiza o programa numa única volumetria. As restrições impostas pelo terreno, declividade acentuada e dimensões exíguas, apontaram para uma solução compacta, que organizou todo o programa verticalmente. Os dois andares inferiores contêm as salas de aula e os dois superiores, a administração, a quadra de esportes com pé-direito duplo e o espaço de vivência em mezanino. A decisão pragmática de dispor a quadra esportiva nos últimos pavimentos e, por conseqüência, o vão maior que corresponde à sua cobertura (que reforçam, assim, o sentido vertical da edificação), trará desdobramentos importantes nos raciocínios espaciais e estruturais, assim como no tratamento das aberturas. De certa maneira, a peça única nasce fragmentada em partes praticamente autônomas.

Nos dois andares inferiores foram alojadas 18 salas de aula (nove em cada andar), conforme programa da FDE, que são demarcadas nas extremidades pela circulação vertical: ao norte encontra-se a escada principal, no mesmo eixo do elevador; ao sul, a escada secundária ocupa o vazio deixado pela supressão de uma das salas. Além de articular as classes, o amplo corredor central, de 5,40 m de largura, possibilitou a criação de um vazio central que promove a integração vertical entre os dois pavimentos.

Os dois andares superiores acomodam a quadra de esportes, protagonista da organização espacial, em torno da qual giram os demais espaços contidos no programa. Assim, os espaços de administração (secretaria, sala dos professores, sala de informática etc.) dividem com a quadra a área do piso, no nível 105,63, enquanto o espaço de vivência (com refeitório, cantina, sanitários e o pátio coberto) foi alojado em um mezanino. Esses espaços são pontuados pela circulação vertical nas extremidades da quadra esportiva que guarda correspondência com a disposição adotada nos pavimentos das salas de aula.

A EE Jardim Angélica está inicialmente dimensionada segundo normas da FDE, que fixa para todos os ambientes do programa dimensões múltiplas de 0,90 m (corredores de, no mínimo, 1,80 m; salas de aula com 7,20 m x 7,20 m, os sanitários dos alunos, 3,60 m x 7,20 m etc.). Entretanto, a planta retangular do edifício, que mede 58,45 m de comprimento por 25,15 m de largura, foge do padrão da FDE. A dimensão longitudinal do edifício (58,45 m) é o resultado de oito vãos de 7,20 m (57,60 m) mais duas vezes a pequena distância de 42,5 cm. Esse acréscimo origina-se na opção de vedar a escola pelo lado de fora da estrutura por uma pele ou envelopamento composto por placas de concreto celular.

Por outro lado, a dimensão transversal do edifício (25,15 m) é o resultado do vão necessário para cobrir a quadra de esportes e seus corredores laterais (de 24,30 m), mais duas vezes aquela mesma pequena distância dos fechamentos externos. A dimensão transversal do bloco de salas é menor, sendo resultado de dois vãos de 7,20 m e um vão central de 5,40 m, ou seja, 19,80 m. Portanto, a sobreposição da quadra de esportes em relação ao bloco das salas de aula gera um descompasso entre as estruturas: o vão da treliça de cobertura mede 24,30 m e os vãos do bloco de aula medem 19,80 m. A diferença entre ambos é de 4,50 m, que são divididos em dois vãos de 2,25 m. Essa diferença impôs o deslocamento dos pilares que sustentam a treliça metálica da cobertura da quadra, desalinhando-os com a estrutura básica e modular da escola.

O envolvimento da estrutura da cobertura sobre a estrutura do bloco das salas de aula de ambos os lados levou a desenhos e formas diferentes para a mencionada diferença. Assim, de um lado, com o avanço das lajes e das paredes divisórias, criando uma zona de sombra para as salas, há uma fachada ritmada pelas medidas, esquadrias e peitoris do sistema modular construtivo. Do outro, uma loggia, figura que contém a escadaria de acesso e que transpõe o desnível entre o estacionamento na cota mais baixa do terreno e a praça cívica pavimentos acima.

A sobreposição estrutural e a adoção de elementos e operações distintas para o sombreamento e aberturas revelam manipulações compositivas que admitem elementos de origens diversas, que acomodam circunstâncias diferentes. Nesse sentido, pode-se dizer que há duas escolas: uma aberta para a comunidade nos finais de semana, afinada com a parte esportiva e privilegiada nos andares superiores. E outra que se aloja nos pavimentos inferiores e destina-se exclusivamente ao ensino. >>>


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