Essa hierarquia manifesta-se, sobretudo, na importância e
no caráter conferido às diversas aberturas da quadra
esportiva, as quais, com um caráter mais abstrato e, ao mesmo
tempo, circunstanciado impõem-se aos demais. O envelopamento
da estrutura, garantindo uma fachada livre e afastada do rigor sistêmico,
é o meio técnico que permite a construção
da imagem forte que se quer marcada. De certa maneira, esse jogo
de composições abstratas é o centro de maior
interesse especulativo dessa arquitetura - o que escapa da
rigidez das normas e que explora uma difícil e sofisticada
relação com o entorno imediato e com o território,
num sentido lato com o lugar. Problematização tão
cara ao Núcleo de Arquitetura, tanto nos projetos como nas
dissertações de mestrado e idéias de seus componentes,
Margotto, Salles e Ursini.
Os recortes que abrem o envelopamento do prédio são,
de certa forma, padrões ou configurações extraídas
do improviso da autoconstrução, da disposição
típica das aberturas dessas edificações, decorrentes
de uma intuição descompromissada e sensível.
Entretanto, capturados como generalidades formais esses padrões
são transformados por operações mais controladas.
Mudanças de escala, deslocamentos, ajustes e referências
eruditas afastam qualquer leitura simples e imediata. Oscilações
ocorrem entre uma rotura incisiva e uma costura minuciosa de formas
locais quase sem formas. Assim, a maior abertura, voltada para o
vale, recorta o plano de fechamento e, ao fazer isso, elimina um
coroamento clássico e permite ao grande espaço da
quadra esportiva (no piso principal e mezanino) uma vista ampla
para a paisagem como ela é: homogênea, pouco bela e
inculta.
Na fachada sudeste o mesmo padrão, em outra escala, é
adotado correspondendo às dimensões da quadra. Nessa
mesma fachada, uma outra abertura constituída por elementos
vazados enquadra a sala polivalente e encerra a composição
assimétrica. Na fachada noroeste, no mezanino, um rasgo na
altura do observador (como na "humanizada" abertura de
São Marco de Canavezes, de Siza) perfura o plano no sentido
do percurso e faz ver uma paisagem mais próxima, desassossegada
e desalinhada. Na fachada nordeste, aberturas de canto iluminam
e ventilam o refeitório. Nos demais pavimentos, as aberturas
ou janelas são essencialmente demarcadas pelo ritmo da estrutura
interna e pela padronização da FDE.
O risco (sempre necessário) da poética do Núcleo
de Arquitetura está no limite de sua fronteira estética
ou de suas problematizações. O querer caminhar no
fio da navalha entre as abstrações idealizadoras (típicas
de certo contexto paulistano) e as leituras empiristas de Siza e
Aalto, que lidam com a tradição, o novo e a diferença
numa perspectiva mais dialógica, "mantendo a dualidade
no seio da unidade, associando dois termos ao mesmo tempo complementares
e antagônicos". Em outros termos mais a caráter
da pós-modernidade - parataxes. As (re)conciliações
não são fáceis; mas o empirismo levado a cabo
é promissor - incorpora ou faz ver melhor as contradições
da produção arquitetônica, como de certa forma
é manifestada nessa escola híbrida.
Alessandro José Castroviejo Ribeiro é arquiteto e
urbanista pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1981), mestre
e doutorando pela Universidade de São Paulo (2001); professor
da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Unicentro Belas Artes
de São Paulo.
Paulo Sergio Barbaro del Negro é arquiteto e urbanista pela
Universidade Presbiteriana Mackenzie (1978), tem especialização
pela Scuola di Specializzazione per lo Studio ed il Restauro dei
Monumenti - Universita degli Studi di Roma (1985), mestrado
pelo IFCH - Unicamp (2000). É professor da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
desde 1991 e arquiteto do Condephaat - Secretaria de Cultura
do Estado de São Paulo desde 1982. |