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Brasil

7ª BIENAL INTERNACIONAL DE ARQUITETURA DE SP
REFLEXOS DA MOSTRA
A ARQUITETURA BRASILEIRA TEM ORGANIZAÇÃO POLÍTICA, ISENÇÃO, DINHEIRO E PRODUÇÃO CONSISTENTE PARA A REALIZAÇÃO DE UMA EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE ARQUITETURA A CADA DOIS ANOS?

POR SIMONE SAYEGH FOTOS MARCELO SCANDAROLI

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O Instituto de Arquitetos do Brasil e a Fundação Bienal realizaram, de 10 de novembro a 16 de dezembro, a 7ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, no pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. A curadoria esteve a cargo do arquiteto José Magalhães Júnior, que definiu um tema vasto e complexo, Arquitetura: o público e o privado, com o objetivo de criar espaço para o debate sobre políticas de desenvolvimento no Brasil, "ou a absoluta falta delas", como entende. Para Magalhães os projetos urbanos estabelecem a relação entre o público e o privado, "hoje não há esse entendimento sobre a destinação dos espaços públicos nas grandes metrópoles brasileiras", reforça.

A concepção espacial da exposição, dos arquitetos André Vainer e Guilherme Paoliello, aboliu o conceito de salas para valorizar a arquitetura fluida do prédio de 28 mil m² de Niemeyer. Caixilhos livres, praças vazias entre grupos temáticos, com apenas alguns bancos e espaços de exposição abertos, com poucas paredes, pretenderam reforçar a idéia de continuidade e da interligação entre público e privado.
Terminada mais uma Bienal, sempre fica a eterna e capciosa pergunta: valeu? Doze anos e seis bienais depois - esta foi a sétima -, parece que já podemos diagnosticar o real status da arquitetura no Brasil. Os esforços hercúleos dos arquitetos do IAB-SP, co-responsáveis pela mostra, tiveram resultados paradoxais. A falta de recursos quase inviabilizou a realização desta edição, pré-definida para entrar em um calendário quadrienal pelo presidente da Fundação Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa. Só no final de 2006, quando a organização conseguiu algum dinheiro, Pires da Costa concordou em montar a edição de 2007.

Desta vez foi organizado um conselho curador com vários profissionais, independente dos mandatos do IAB, mas Pires da Costa ainda considera que um evento quadrienal daria muito mais fôlego para a instituição. Assim também pensa o arquiteto e professor Carlos Leite, responsável pela coordenação do grupo de pesquisa Viver Metrópole, desenvolvido na Faculdade Mackenzie em São Paulo. Para Leite, o esquema de bienal não corresponde à real posição que a arquitetura representa no Brasil. O fato é que a falta de recursos, aliada a uma curadoria de melhor qualidade, resultou em uma bem-vinda diminuição de projetos. A curadoria mostrou critério na escolha dos trabalhos da exposição geral dos arquitetos e evitou aleatoriedades. "Esta bienal foi muito melhor que as duas anteriores, que foram um verdadeiro varal de mediocridades", afirma Leite. "Mesmo pobre, retrato de nossa importância na sociedade, tem qualidade", reforça.

O arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik também recebeu com bons olhos o que considerou uma mostra mais essencial, em contraponto ao "acúmulo exagerado de trabalhos" das edições anteriores. Com menos obras expostas, ganharam destaque as duas mostras especiais, as homenagens a Oscar Niemeyer, com o projeto original do Parque Ibirapuera, e Paulo Mendes da Rocha, com seu plano para a candidatura de São Paulo aos jogos olímpicos de 2012, exposto ao longo de 40 m de uma única mesa. No entanto, na onda do menos é mais, essas mostras especiais foram tratadas com timidez e não revelaram como deveriam os conceitos e idéias dos dois Pritzkers nacionais.

Assim foi também a participação internacional na 7ª BIA, bem mais acanhada do que anos em que foram destinadas salas a Jean Nouvel (1993), Gerrit Rietveld (1997), Frank O. Gehry (2001) e Zaha Hadid (2003). Para Wisnik, a BIA vai deixando cada vez mais de ter salas que parecem estandes de feira, o que é bom, mas perdeu visivelmente prestígio no circuito internacional. "Vem se tornando um evento quase caseiro", lamenta. Importantes nomes do cenário da arquitetura internacional, como o suíço Steven Holl e o catalão Joan Busquets, considerado o pai da renovação urbana de Barcelona, receberam pequenos espaços de exposição, enquanto que a produção latino-americana ganhou maior destaque. Os chilenos entraram com duas representações, o elegante traço de Mathias Klotz e os espaços de Alejandro Aravena, e a Venezuela mostrou sua força com o escritório Urban Think Tank (UTT), que trouxe sua propostas interdisciplinares e urbanas.

Mereceu especial atenção a exposição da Dinamarca, chamada Co-evolution e premiada na Bienal de Veneza, sobre desenvolvimento sustentável nas cidades chinesas. "A belíssima curadoria dinamarquesa trouxe propostas altamente instigantes para cidades chinesas, mais coerentes e ambientalmente sustentáveis", destaca Carlos Leite.

Especialmente preparado para a 7ª BIA, o trabalho especulativo promovido belo Berlage Institute, de Roterdã, Holanda, trouxe propostas inovadoras para Brasília, "um verdadeiro soco no estômago da pasmaria de nossos laboratórios de projetos acadêmicos, que estão milênios atrasados na sua absoluta falta de produção de pesquisa em projeto", desabafa Carlos Leite. O Berlaga Institute desenvolve pesquisas urbanísticas e de planejamento de países em desenvolvimento. Entre outros, exibiu o projeto de uma floresta urbana ladeada por lâminas de moradia vertical de 300 m de altura. "Deveríamos promover tais proposições em nossas metrópoles de baixíssima densidade e altíssima insustentabilidade", declara Leite.

Para o arquiteto Luiz Recaman, a divisão por país não é um bom critério de exposição. Contudo, o professor e pesquisador da USP de São Carlos concluiu que essa organização foi útil para proporcionar alguma unidade no que considerou "falta de uma linha clara de discussão". "O público e privado não pode ser uma linha, afinal tudo em arquitetura ou é público ou é privado", argumenta. Recaman entende que, sem uma unidade, uma bienal com as proporções da 7a BIA se transforma em uma junção de muita coisa que não pode ser vista, retida ou avaliada por ninguém. Perguntado sobre a importância de uma mostra desse porte para a sociedade, Recaman é direto. "Não acredito que essa mostra, nem qualquer outra, tenha nenhuma repercussão na sociedade. E isso não é responsabilidade de seus organizadores, mas, sim, do lugar que essa disciplina ocupa na sociedade contemporânea." Para Recaman, se no mundo a arquitetura não tem a força que deveria, imagine no Brasil, onde, na opinião dele, os agentes como academia, mercado, crítica, urbanismo, grandes mestres, instituições e estado estão desestruturados. "Será que precisamos de uma bienal assim, tão oficial?", reflete.

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