Por Mônica Junqueira de Camargo
Para quem até meados do ano não sabia se a Bienal
iria ou não se realizar, a abertura de sua sétima
edição em 10 de novembro já pode ser considerada
uma vitória.
Os inúmeros atropelos que sofreu esta mostra quase a inviabilizaram.
Quando a batalha parecia perdida, o entusiasmo e a perseverança
de alguns poucos arquitetos conseguiram reverter o quadro. Enfrentaram
as animosidades e angariaram recursos a tempo de viabilizar a exposição.
Parabéns ao empenho daqueles que estiveram à frente.
O prédio da Bienal e o projeto expográfico, em se
tratando de uma mostra de arquitetura, assumem condição
privilegiada, pois são os únicos de fato arquitetônicos,
enquanto todas as outras obras estão apenas representadas
por imagens e maquetes. O projeto de André Vainer e Guilherme
Paoliello soube valorizar o edifício, que é um dos
mais belos exemplares de Niemeyer, tirando proveito da sua incrível
espacialidade, o que resultou numa exposição muito
agradável. Considerando o centenário de seu autor
e que em sua homenagem lhe foi reservada uma área especial,
o próprio edifício poderia ter sido melhor explorado
enquanto objeto da sua mostra, pelas razões já expostas.
Superado o impacto causado pela concentração dos
espaços publicitários no andar térreo -
um susto para o visitante - percorre-se a exposição
tranqüilamente, livre das interferências publicitárias,
o que é um grande ganho. Enquanto nosso sistema não
entender que o que deve ser patrocinado é a boa arquitetura,
que a escolha dos materiais é uma decorrência dos projetos,
e enquanto continuarmos dependentes do seu apoio, o isolamento e
a concentração das suas participações
parecem a melhor saída, pelo menos explícita, não
se confundindo com as obras apresentadas, como nos anos anteriores,
em que espaços nobres foram ocupados por estandes publicitários.
Ainda no âmbito da estratégia expositiva, vale destacar
algumas iniciativas que exigem do visitante uma maior aproximação
ao objeto apresentado, proporcionando uma condição
mais favorável a sua concentração. É
o caso da sala do arquiteto chileno Alejandro Aravena, onde a visualização
dos trabalhos é feita com binóculos; da representação
da Suíça, com fones individuais para cada depoimento;
da Alemanha, em que as "malas" criam pequenos espaços,
porém específicos para cada arquiteto que expôs
duas obras, uma no próprio país e outra no exterior.
Quanto à orientação dada à seleção
das obras, não há dúvida de que a maneira equivocada
como tem sido trabalhada, no contexto paulistano, a relação
entre público e privado, questão desde sempre presente
na investigação arquitetônica, em que cada época
procurou respostas frente aos problemas enfrentados, provocou a
escolha do tema O público e o privado. Uma opção
quase pragmática, sem apelo a reflexões mais profundas
sobre o futuro da arquitetura. Adentramos aqui no problema que nos
parece crucial: a curadoria.
Enquanto nas exposições de artes a curadoria adquiriu
um papel superlativo, disputando a atenção com as
obras de arte - em alguns casos chegando a sobrepô-las,
como parece ser a orientação para a próxima
Bienal de São Paulo -, nas de arquitetura a curadoria
tem atuado de maneira muito tímida. Aos curadores tem sido
delegada a organização do evento e deve-se a eles,
é importante registrar, a sua viabilização.
Contudo, a questão é de outra natureza, que envolve
a própria compreensão do significado de uma exposição
internacional no período de dois anos. O tema, responsável
pelo caráter da mostra, deverá, com base nas inquietações
do momento, apontar rumos para o futuro. Acredito ser papel de uma
Bienal algo mais do que a apresentação daquilo que
se está a fazer no mundo da arquitetura. Levantar questões
e suscitar o debate nos parece mais importante para o avanço
das idéias.
Diante da quantidade e da diversidade da produção
atual, a seleção de determinadas obras em detrimento
de outras adquire um significado que, necessariamente, precisa ser
explicitado. O que parece equivocado é deixar transparecer
que todas as obras expostas são aquelas com mais pertinências
às questões levantadas pelo tema O público
e o privado. Independentemente da qualidade arquitetônica
dos projetos apresentados, colocar lado a lado um chalé no
campo e um projeto de reurbanização de uma complexa
área metropolitana, sem qualquer explicação,
ou melhor, sob o pretexto da discussão entre público
e privado, enfraquece qualquer possibilidade de debate.
A mostra da representação da Suíça
é exemplar nesse sentido. Articulou com muita perspicácia
a problemática lançada com obras de distintas escalas,
deixando claro logo no painel de apresentação que
"a paisagem cultural suíça, como espaço
público, está se tornando cada vez mais urbanizada.
Arch/Scapes considera o público como a essência da
paisagem cultural suíça. O privado é o objeto
construído e se concentra na nova arquitetura suíça".
Todos os depoimentos que acompanham os projetos apresentados remetem
necessariamente ao tema.
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