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Pelo fato de ter atingido com certa regularidade, e mesmo que aos
trancos e barrancos, sua sétima edição, pode-se
dizer que a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo
está consolidada, o que nos impõe que pensemos a próxima
com um olhar mais crítico sobre as experiências anteriores,
especialmente sobre aquelas que nos permitam refletir sobre os aspectos
negativos, porque o que é bom assimila-se com facilidade.
A criação, no âmbito do IAB, de uma comissão
permanente para se pensar a Bienal, que teve origem numa proposta
do arquiteto Luis Fisberg, curador da 3a BIA, é um dos fatos
mais relevantes para sua evolução.
Uma vez instituída a prática, cabe pensar, em especial
para a exposição geral dos arquitetos, em critérios
mais aperfeiçoados que resultem na seleção
de um número menor de trabalhos, embora mais expressivos,
de modo a constituir, de fato, uma síntese.
A leitura das obras arquitetônicas, por se tratar de representações,
consome mais tempo do que as artes visuais. Relacionar as plantas
com os cortes e as fotografias e desenhos, as maquetes, os depoimentos,
demandam atenção e concentração. Para
o público leigo é um grande esforço.
A garantia de periodicidade da mostra legitima uma seleção
mais pertinente ao tema e maior abertura a especulações:
ora, mesmo sem nenhuma obra com certa dose de provocação,
o que normalmente se espera de um evento desses (pelo contrário,
paira a sensação de calmaria, de já visto,
posto que a maioria já foi publicada), ainda assim há
uma considerável melhora na qualidade média dos trabalhos
apresentados.
Se for possível alguma relação entre as diversas
obras, esta se encontra no enfrentamento das condições
reais, verificando-se como o grande desafio as intervenções
em situações urbanas já consolidadas, na busca
de superar situações cada vez mais imbricadas. Alta
dose de realismo pareceu ser o tom da mostra.
O Museu Rodin na Bahia, instalado num antigo solar eclético
com um novo anexo, dos arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz
- 1º Prêmio para obra realizada -, é
de inquestionável qualidade arquitetônica. Porém,
guarda uma investigação mais profícua ao debate
das questões de patrimônio e restauro do que ao tema
da exposição. O segundo lugar, Programa Praça
Escola, uma parceria da Prefeitura de Nova Iguaçu com os
arquitetos Washington Fajardo, Adriana Sansão Fontes, Pedro
Évora e Raul Bueno A. Silva, confirma a dimensão realista
da mostra. Essas pequenas intervenções pontuais visam
resgatar a qualidade de espaços públicos e se contrapõem
à espetacularização que comanda hoje a contratação
de projetos.
Naturalmente não surpreende que os projetos vencedores sejam,
enquanto proposta, os de maior relevância para a discussão
do tema. O primeiro lugar, também vencedor do concurso público
Prestes Maia, em 2006 (vale lembrar, protestado pelo IAB-SP), é
a proposta já bastante divulgada dos arquitetos José
Eduardo Nascimento de Souza Alves e Juliana Corradini para a revitalização
da área envoltória do elevado Costa e Silva, que retoma
a discussão de uma das obras mais polêmicas de São
Paulo, responsável pela deterioração de extensa
área do centro metropolitano como justificativa para a solução
de tráfego de veículos particulares.
O segundo lugar, ainda de maior complexidade, é o projeto
dos arquitetos Fernanda Barbara, Cristiane Muniz, Fabio Valentim
e Fernando Viegas, já publicado no livro Coletivo, para a
região fabril da Mooca-Ipiranga, envolvendo questões
de transporte, patrimônio, área verde, habitação,
adensamento e desenho urbano. Se implantada, a proposta poderá
ser o embrião de profundas transformações na
área do desenvolvimento urbano, tanto no plano das idéias
quanto na prática.
Não deixa de ser sintomática a carência de
propostas investigativas. As poucas inscrições, apenas
seis, na categoria Projetos Propositivos/Conceituais, e a recusa
em premiar um dos inscritos comprova a falta de interesse da organização
em atrair propostas especulativas. Segundo o júri, nenhum
deles promoveria uma "reflexão profunda do pensamento
arquitetural", o que é surpreendente, pois deveria ser
este e não outro o objetivo da exposição.
Mônica Junqueira de Camargo é arquiteta, professora
doutora da FAUUSP e autora de Fábio Penteado: ensaios de
Arquitetura e de Joaquim Guedes. Foi curadora das salas especiais
de Oswaldo Bratke na 3ª BIA, de Fábio Penteado na 4ª
BIA e de Carlos Millan na 6ª BIA. |