POR RENATO ANELLI
É bom termos Bienal Internacional de Arquitetura a cada
dois anos, pois nos força parar para pensar sobre a arquitetura
de tempo em tempo. Todavia, gostaria de inverter esse pensamento
e refletir sobre a contribuição da BIA para a arquitetura
contemporânea.
O questionamento se inicia pela sua relação com
Fundação Bienal de São Paulo. Até que
ponto a 7ª BIA passaria imune à crise institucional
da Fundação?
O início efetivo dos trabalhos de organização
foi postergado até o limite, ocorrendo apenas em junho. Um
assunto que o IAB deveria trazer a público, para que os visitantes
da BIA soubessem das condições extremas de sua produção.
São condições institucionais que precedem
qualquer debate arquitetônico: como podemos conceber e realizar
um evento cultural dessa importância sem que esteja consolidada
a periodicidade bienal, a área do edifício a ser ocupada
e a divisão de atribuições entre IAB e Fundação.
Dito isso, a primeira impressão desta edição
é positiva, causada pelo projeto expográfico arejado,
transparente, que permite a percepção do edifício.
É um tamanho compatível com a disponibilidade de informações
que um visitante pode enfrentar em um dia de visita e também
àquilo que está ao alcance de ser produzido pelos
arquitetos em dois anos.
A estrutura da BIA parece estar consolidada há algumas
edições: exposição geral, salas de convidados
brasileiros e estrangeiros, representações nacionais,
concursos de escolas, fórum de debates, exposições
históricas, representação institucional e área
de patrocinadores. Não parece haver mais espaço para
que o curador proponha outra estrutura, mesmo se houvesse tempo.
Isso reduz o papel da curadoria, que deveria partir de propostas
que atualizem a BIA a cada edição. Uma atualização
cada vez mais necessária, pois já faz tempo que a
exposição não supre a deficiência de
informação ou de reflexões conceituais consistentes.
Revistas, sites, periódicos acadêmicos e livros circulam
rapidamente tudo o que se produz. Então, qual o sentido e
a especificidade de um esforço desses? Esse deveria ser o
ponto de partida da curadoria, elaborado com prazos confortáveis
para que haja debates e as exposições sejam planejadas
especialmente para a mostra. Em outros momentos, exposições
como a 7ª BIA contribuíram para renovações
da arquitetura. Seu auge foi na década de 1950, quando o
interesse internacional pela produção brasileira transformou
tais mostras em focos do debate da arquitetura moderna no pós-guerra.
Situação da qual estamos cada vez mais distantes,
pois a atual presença estrangeira nesta BIA parece ter outros
objetivos, aparentemente pautada pelo interesse da economia internacional
pelo Brasil no âmbito dos emergentes BRICS.
O caso mais explícito é a exposição
Ready for take-off que usa um momento cultural para fazer a promoção
comercial da sua "Arquitetura Alemã de Exportação".
Seleção de obras, forma de exposição
e uma polêmica apresentação do seu curador no
Fórum de Debates expressam uma visão na qual a internacionalização
da cultura é um momento de ampliação de mercados
para produtos e serviços.
O interesse pelo Brasil parece não ocorrer mais pela sua
arquitetura, mas pela possibilidade de nos tornarmos um forte centro
consumidor. Deixamos de ser vistos como um produtor respeitado,
com o qual se poderia debater em pé de igualdade os caminhos
da arquitetura. No pólo político oposto, a África
do Sul resume o tema Público e privado da BIA à sua
relação essencial: fotos de seus espaços públicos
paupérrimos e de condomínios privados ricos, com destaque
para a propaganda das empresas de segurança, essenciais para
a manutenção desse status quo. A arquitetura torna-se
um mero supérfluo de uma condição social e
política com grandes semelhanças à nossa.
A única reação consistente não seria
arquitetônica mas, sim, de denúncia política.
Um equacionamento que restringe qualquer campo de discussão
e ação. Em um dos momentos polêmicos do Fórum
de Debates, a sua explicitação se exprimiu na já
batida oposição de arquitetura de mercado (de direita)
contra a pública (de esquerda). Nada mais inútil para
entendermos a complexa situação da arquitetura contemporânea
no Brasil, que não pode mais ser enquadrada em polarizações
redutoras como essa.
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