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Alguns fatos novos embaralham esses esquemas explicativos e poderiam
se transformar em temas centrais de discussão.
Por exemplo, a explosão do mercado imobiliário para
as classes de menor poder aquisitivo é um fenômeno
frente ao qual os arquitetos parecem passar ao largo. Lembremos
que a produção habitacional de massa e de qualidade
mobilizou as vanguardas européias no entre-guerras e foi
uma das bases do melhor da arquitetura moderna. No Brasil, os programas
de habitação popular tiveram importância, e
estudos recuperam a qualidade arquitetônica de grande parte
dessa produção. Então o que mantém esse
mercado alijado de arquitetura de qualidade?
Outro exemplo é a interdependência entre Estado e
empresas de consultoria de projeto, muitas delas na forma de ONGs,
que borra os limites dos interesses públicos e privado. Condição
que pôde ser constatada nos vários estandes de instituições
públicas do andar térreo da BIA. Reconheçamos
que se trata de um mercado de atuação privilegiado
e altamente disputado por empresas privadas, sem o qual não
se age no espaço público.
Os dois exemplos sugerem que os esquemas cristalizados pelos quais
nos representávamos até pouco tempo não são
mais suficientes para entendermos as condições de
produção da arquitetura no Brasil.
Considero que a principal função social da BIA é
forçar um encontro com data marcada, para o qual os arquitetos
e suas instituições se preparem ao longo de dois anos.
Esse encontro deveria pensar desde as condições econômicas
e sociais de produção da arquitetura até os
critérios com os quais sinaliza para a sociedade aquilo que
é bom e aquilo que não o é na nossa área.
Alguma relação deve haver entre a qualidade da arquitetura
e as condições concretas da sua produção.
Enquanto não fazemos isso, outros o fazem e aí não
vale reclamar nem dos profissionais de marketing que definem os
parâmetros de qualidade para o mercado imobiliário,
nem dos estilos neoclássicos que seduzem um grande segmento
de novos-ricos, nem das concorrências por menor preço
que vilipendiam a produção pública.
Já foi explicitado por outros autores o dilema da BIA, entre
ser um espaço de representação profissional
corporativa e ser um evento de cultura. Preponderasse a primeira
opção, teríamos de discutir a sua representatividade.
Prevalecendo a segunda, a curadoria deveria ser incrementada. Promovida
pelo IAB, a BIA vem se equilibrando entre ambas. Os problemas desse
caminho não são poucos e a principal fragilidade é
a espantosa disparidade de qualidade na produção brasileira
selecionada para a exposição.
Contudo, a ocorrência da BIA deve ser saudada sempre, pois
nos força a refletir enquanto percorremos suas exposições
e assistimos aos seus debates. Que possamos superar as atuais limitações
até 2009.
Renato Anelli é professor titular e coordenador do programa
de pós-graduação em arquitetura e urbanismo
da USP-São Carlos. É também diretor do núcleo
de São Carlos do IAB-SP.
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