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Entrevista

OLHAR INTERPRETATIVO
CRÍTICA E AUTOCRÍTICA - OU POR UMA AUTOCRÍTICA DOS CRÍTICOS. ÍDOLOS BRASILEIROS, MULTIDISCIPLINARIDADE, CONSUMO RESPONSÁVEL. JOSEP MARIA MONTANER DISCORRE SOBRE ASSUNTOS DIVERSOS AO MESMO TEMPO EM QUE OS UNE EM UMA SÓ PALAVRA: ARQUITETURA

POR BIANCA ANTUNES FOTO MARCELO SCANDAROLI

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O ritmo frenético com que escreve livros, colabora com artigos para jornais (como El País e La Vanguardia), dá conferências por todo o mundo e leciona na Universidade de Barcelona contrasta com o ar tranqüilo com o qual Josep Maria Montaner expõe suas idéias e seu modo de ver a arquitetura e a crítica contemporânea.

Montaner esteve no Brasil para uma conferência na 7ª BIA (Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo) e para o lançamento da versão brasileira do livro Arquitetura e crítica, da Gustavo Gili. E foi com a tranqüilidade de quem sabe do que fala - e está sempre atrás do que acontece no mundo - que recebeu a reportagem de AU e conversou sobre crítica e arquitetura brasileira e internacional. "Os únicos arquitetos que têm futuro como profissionais com atitude crítica e renovadora são os multidisciplinares", ressaltou durante a entrevista. Sobre o futuro da crítica, a saída, como escreveu no livro recém-lançado, estaria nessa mesma visão global: no rompimento de falsas dualidades, na elaboração de novas sínteses, em um trabalho rigoroso com base em novas premissas - como uma modernidade líquida, lutas a favor da sustentabilidade e reivindicações pela igualdade de gênero e pela visibilidade dos excluídos. Confira os principais momentos da entrevista.

aU COMO VÊ A CRÍTICA DE ARQUITETURA NO COMEÇO DESTE SÉCULO E QUAIS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS PODE RECEBER?
JOSEP MARIA MONTANER
Acontece com a crítica de arquitetura algo similar ao que acontece com a prática da arquitetura, que é muito dominada pelos interesses imobiliários, pelos interesses midiáticos, pelo poder que a arquitetura comporta. A crítica está envolvida por essa situação do mercado, o que faz com que seja difícil exercê-la: há mais obstáculos para se fazer uma crítica arriscada e que desmistifique, que coloque em questão o poder, as ideologias. Mas ao mesmo tempo o ensaio e o pensamento voltam a ter muita força. Porque em um mundo com muitos conflitos e em transformação, o ser humano precisa ter explicações mais reflexivas que não sejam diretamente midiáticas. O ser humano precisa pensar mais. Há um paradoxo. As escolas de arquitetura tendem a preparar técnicos para o sistema produtivo, ao mesmo tempo em que o sistema de ensino é cada vez mais pobre e pede mais teoria, conceitualização e crítica. De alguma maneira, o arquiteto e o estudante de arquitetura precisam de ferramentas que estão no pensamento, na história, na teoria. Nas conferências e, em parte, no livro Arquitetura e crítica, tento responder como fazer crítica hoje olhando o que se pode aprender da história da crítica, principalmente a do século passado, mas também vendo quais coisas mudaram. Temos de remeter à sociologia contemporânea, à antropologia, à crítica literária, ao pós-estruturalismo. Há uma série de métodos de Jacques Derrida, por exemplo, que trazem instrumentos novos para afrontar esse mundo em constante mudança.

aU SEUS TEXTOS REVELAM SEMPRE UMA MULTIDISCIPLINARIDADE AO BUSCAR RESPOSTAS EM ÁREAS DIVERSAS E AO FAZER COM QUE SE PENSE A ARQUITETURA EM MEIO A DIFERENTES ESTUDOS, TEORIAS, PENSAMENTOS. COMO VÊ ESSE DISCURSO NA PRÁTICA? COMO OS ARQUITETOS INTEGRAM, PENSAM E FAZEM ARQUITETURA DESSA MANEIRA - SE O FAZEM?
MONTANER
Os arquitetos que têm futuro como arquitetos com atitude crítica e renovadora são os multidisciplinares. Há os que tendem a se integrar ao mundo empresarial, há os que são profissionais anacrônicos - esses que existem em todos os países, mais velhos e que continuam pensando na arquitetura como uma disciplina pura, elitista - que tampouco têm muito futuro. Mas os arquitetos interessantes em sua prática são multidisciplinares, como Paulo Mendes da Rocha, que tem uma formação ampla, Jorge Mario Jáuregui, que utiliza a desconstrução, a psicologia, a sociologia em um método de trabalho no qual estão muitas disciplinas. Esta é a arquitetura que tem futuro, tanto como saber, quanto como profissão com qualidade. Obviamente não o será com o arquiteto que entra em um momento do sistema produtivo e faz o que lhe dizem que é para ser feito. Se só acontecer isso, os arquitetos serão comerciais, uma peça a mais em uma engrenagem do mundo imobiliário. A arquitetura tem futuro na medida em que há arquitetos como Rem Koolhaas, Toyo Ito, Mendes da Rocha, Jáuregui, Zaha Hadid. Arquitetos com uma cultura ampla e que utilizam muitas referências. Hoje, por exemplo, não se pode projetar sem ter conhecimento de meio ambiente, de sistemas ecológicos, de sociologia, de paisagem. A arquitetura como um saber não tem futuro no século 21 se não pela prática e conhecimento pluridisciplinares.

aU NÃO É A ARQUITETURA QUE SE VÊ NAS CIDADES...
MONTANER
Quando se visita o bairro de Santa Fé, em México DF, ou aqui em São Paulo, em Xangai ou Dubai, o que massivamente se vê não tem a ver com isso. Pode ser que já se comece a produzir essa morte da arquitetura totalmente absorvida pelo sistema produtivo. Mas creio que a arquitetura dificilmente desaparecerá, porque isso significaria o desaparecimento de tudo: estética, filosofia, crítica, arte. Mas há transformações também. O prestígio e a influência que podem ter um diretor de cinema ou uma artista hoje é muito forte. Inclusive o mundo empresarial, os banqueiros, as elites têm uma enorme admiração pela arte. Afinal, os poderosos são colecionadores de arte, gostam de ópera... Por muito poder, por muita direção massiva empresarial que se faça, há sempre um respeito e uma admiração por isso, por Paulo Mendes da Rocha, que, no final, nunca vai fazer um empreendimento imobiliário especulativo.

aU AO MESMO TEMPO EM QUE PARTE DA ELITE GOSTA DE ARTE, AO ENTRAR EM UM CONDOMÍNIO FECHADO DE ALTO PADRÃO, O QUE SE VÊ SÃO CASAS DE SUBÚRBIO NORTE-AMERICANO...
MONTANER
A elite é um setor visível e socialmente representativo e poderoso. Mas é uma pequena parte da sociedade, porque 75% do mundo são pobres. Dos 25% que têm recursos, esses que seguem modelos puramente de consumo, acríticos, de bairros fechados, do medo dos outros, são também uma parte pequena, porque existem muitas faixas intermediárias de classe média. O modelo de bairro fechado está em discussão nos Estados Unidos, onde os melhores urbanistas, arquitetos e políticos estão contra os subúrbios. Há movimentos como o new urbanism, e há cidades mais avançadas, como Nova York, Seattle e Portland, onde surge um urbanismo que não é esse dos subúrbios e condomínios fechados, não é o do automóvel. Há também os modismos de ricos norte-americanos que preferem viver em um loft de superluxo em Nova York e não ter automóvel, a ir a um subúrbio. Não há um único modelo. E se tomamos como modelo dominante os grandes empreendimentos dos condomínios fechados, mesmo que seja esse, ainda estão cheios de contradições e conflitos. Não são vistos como uma solução perfeita.

aU OS CIDADÃOS SÃO OS QUE, NA VERDADE, CONsTRÓEM A CIDADE. É QUEM ESCOLHE COMO VAI SER SUA CASA, É QUEM COMPRA UM APARTAMENTO EM UM EDIFÍCIO NEOCLÁSSICO EM SÃO PAULO. NA SUA OPINIÃO, QUAIS OS CAMINHOS PARA QUE A DISCUSSÃO ARQUITETÔNICA CHEGUE A ELES?
MONTANER
É um desafio. Temos de considerar que as sociedades avançam, e, nas últimas décadas, há dúvidas se realmente avançamos. Não há uma fórmula, mas ao mesmo tempo os governos têm de estar mais preocupados, investir em mais moradias populares, mais espaço público, transporte público melhor, novas leis. Isso é possível. Acontece na Espanha, onde se avançou em leis a favor do cidadão e da qualidade de vida. Na América Latina isso pode acontecer porque agora há governos progressistas e não há tantas crises econômicas quanto nas décadas de 80 e 90. E o setor imobiliário tem de assumir certa ética e entender que, mesmo dentro do capitalismo, a falta de ética é negativa e contraprodutiva. Nos Estados Unidos e em muitas sociedades desenvolvidas, a ética se converteu em um elemento central do mundo empresarial - o mesmo capitalismo que expulsa os pobres sacrifica os que saltam certas regras da ética. Se o mundo imobiliário assume que nem tudo é especulação, que seu trabalho também tem a ver com bem social, é um avanço. Se o mundo industrial entende que há demanda para produtos sustentáveis, é um avanço. Se os arquitetos e engenheiros se preocupam mais com o meio ambiente e a sociedade, é um avanço. Se as pessoas são um pouco mais exigentes e não apenas se fixam no consumo e nas aparências, mas também valorizam a qualidade de vida, é outra mudança. São pequenas mudanças que podem ajudar a melhorar a cidade e a fazer com que a arquitetura seja melhor.

aU É COMUM OUVIR DE ARQUITETOS BRASILEIROS QUE A ARQUITETURA EM SI JÁ TEM DE SER SUSTENTÁVEL, E QUE O QUE ESTÁ ACONTECENDO HOJE NÃO PASSA DE MODA. COMO VÊ ISSO?
MONTANER
Pode haver uma parte de verdade que tanto uma arquitetura tradicional quanto a arquitetura moderna brasileira já tenha pensado em sistemas de iluminação e ventilação naturais. Mas ainda que os pensasse, os conhecimentos científicos evoluem. Não acredito que as moradias fossem totalmente sustentáveis e ecológicas - elas também tinham muitos defeitos, não aproveitavam muito o sol, a luz natural. Estamos em outra época e não podemos negar a necessidade dos avanços tecnológicos nessa área. Virar as costas para isso é ir contra o avanço da arquitetura.

aU VIVEMOS EM UMA ÉPOCA EM QUE A IDENTIDADE NACIONAL É COLOCADA EM QUESTÃO, ONDE O SUJEITO VIVE ENTRE IDENTIDADES DISTINTAS E EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO. COMO A ARQUITETURA SE COLOCA NESTE MOMENTO, ENTRE UMA MULTIPLICIDADE DE IDENTIDADES?
MONTANER
As transformações, a multiplicidade de identidades e as misturas são positivas, porque a idéia de identidade, que vem de uma raiz de algo fechado, é um conceito passivo, um mecanismo que não deixa avançar. Claro, sem chegar ao extremo de que as pessoas percam certa relação com seu lar, com seu bairro, com certas pessoas, que não fiquem ilhadas e totalmente alienadas. A identidade, muito mais neste momento, é algo que se pode escolher livremente e o fato de que haja mais identidades, ainda que sejam mais fragmentárias, me parece positivo. É assumir o que é nossa condição humana contemporânea.

aU HÁ ALGUNS SÉCULOS A ARQUITETURA ESTAVA RELACIONADA DIRETAMENTE COM A IDENTIDADE NACIONAL DE UM PAÍS. É POSSÍVEL, HOJE, QUE ESSA ARQUITETURA TENHA MULTIPLICIDADE DE IDENTIDADES E AINDA SEJA NACIONAL?
MONTANER
O desafio é esse. Que se possa assumir que haja uma escola paulista, ou haja uma tradição de uma maneira de se trabalhar em São Paulo, mas que ao mesmo tempo evolua e se integre em outras correntes, em uma cidade que também tem muitas culturas. Um arquiteto que pratica uma arquitetura internacional é Rem Koolhaas, que é holandês, mas estudou em Londres, se formou nos Estados Unidos, tem vários escritórios pelo mundo. É, para mim, tão interessante e respeitável quanto Severiano Porto, que faz casa de madeira na selva, ou quanto o arquiteto colombiano que faz arquitetura vernacular. São dois pólos, mas o mundo avança mais desde as coisas mais cosmopolitas. A cidade de Porto, em Portugal, tem uma obra de Rem Koolhaas porque há admiradores dele no país que queriam uma obra dele. Isso me parece positivo porque enriquece. Não significa que não continuará havendo arquitetos como Álvaro Siza, Souto de Moura etc., com uma maneira de fazer portuguesa. Siza faz obras em todo o mundo, e em qualquer lugar terá um substrato de sua cultura portuguesa da maneira construir, mas que serão capazes de aportar coisas de cada local. Essa mistura internacional enriquece as próprias culturas arquitetônicas. Paulo Mendes da Rocha até agora é um arquiteto brasileiro, mas cada vez mais é também um arquiteto internacional porque a maior parte de sua obra será feita fora, na Itália, Espanha etc. E o que faz Mendes da Rocha na Espanha, onde tem duas obras, é arquitetura espanhola ou brasileira? São as duas coisas ao mesmo tempo.

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