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Entrevista

OLHAR INTERPRETATIVO
CRÍTICA E AUTOCRÍTICA - OU POR UMA AUTOCRÍTICA DOS CRÍTICOS. ÍDOLOS BRASILEIROS, MULTIDISCIPLINARIDADE, CONSUMO RESPONSÁVEL. JOSEP MARIA MONTANER DISCORRE SOBRE ASSUNTOS DIVERSOS AO MESMO TEMPO EM QUE OS UNE EM UMA SÓ PALAVRA: ARQUITETURA

POR BIANCA ANTUNES FOTO MARCELO SCANDAROLI



aU SEUS ARTIGOS FALAM MUITO DAS MORADIAS SOCIAIS. DE QUE MANEIRA OS ARQUITETOS PODEM CONTRIBUIR PARA ESSE TEMA?
MONTANER
O tema das moradias sociais é chave. E cada país tem necessidades distintas. A Espanha, por exemplo, precisa de moradias para os setores mais pobres, mas ao mesmo tempo há muitas moradias vazias. O problema maior é a relação das moradias com outras infra-estruturas: é preciso resolver os problemas dos transportes, do espaço público e de emprego. A moradia é o núcleo, mas não é apenas isso que resolve. Em relação aos arquitetos, se eles querem ter um papel na sociedade, a chave está na moradia, nos espaços públicos e na infra-estrutura. É o que os arquitetos sabem fazer, mas se eles se retiram, tudo começa a ser feito desde outras lógicas. Esta manhã visitei o Parque do Gato e outras intervenções da época da prefeita Marta Suplicy. É nesse tipo de operação que está o futuro da arquitetura, em que arquitetos têm um papel na sociedade com muitas questões reunidas: moradias dignas, espaço público, lojas, postos de trabalho perto, transporte e que, obviamente, não criem guetos. Essa é a necessidade de toda a humanidade e uma grande parte não o tem resolvido, ou o tem de maneira precária. Em 2030, quase 75% da população mundial deve morar em cidades.

aU COMO VOCÊ VÊ essaS CIDADES ONDE 75% DA POPULAÇÃO MUNDIAL IRÁ MORAR?
MONTANER
Haverá de tudo. Mas não se pode imaginar o futuro sem tomar fragmentos do que se vê agora. A cidade será uma mescla imprevisível de Tóquio, Xangai, Dubai, São Paulo, México DF. Claro que haverá cidades mais fragmentadas e com muitas barreiras e fronteiras sociais, e haverá outras que não terão estruturas e serão um caos. Mas estamos condenados a viver em grandes cidades, o século 21 é o século das grandes cidades, então devemos encontrar maneiras de sobreviver. O transporte público, as infra-estruturas, o espaço público e as moradias serão cada vez mais importantes. Haverá mais diversidade e as pessoas irão viver mais sozinhas.

aU você tem um artigo no qual trata do que CHAMA DE "VIDA-BASURA", OU VIDA-LIXO, EM PORTUGUÊS. NELE, você diz COMO A CIDADE SENTE O AVANÇO DO CONSUMISMO. COMO FICA A ARQUITETURA NESSA VISÃO?
MONTANER
A arquitetura tem cada vez mais outra regra de tempo. Quanto mais as cidades crescem, menores são as unidades familiares, e duram menos. A vida média dos edifícios vai diminuindo, de 100 a 50 anos, tanto pela qualidade construtiva quanto pelos interesses imobiliários. Em lugares como Nova York é mais rentável que um edifício desapareça em 70, 80 anos e se faça tudo de novo, do que manter esse edifício. O que não significa que os prédios não possam ter qualidade. A impressão que tive em Xangai é que se construía tudo com uma qualidade muito ruim, muito rápido e que ia durar pouco. Se você sabe que um edifício residencial vai durar 30, 40 anos, tem de prever como ele pode ser transformado, ampliado, melhorado, ou como se pode desmontá-lo e fazer outros novos. É uma tendência que não se pode mudar, mas é preciso que se construa com a previsão sobre como se melhora, se transforma, se refaz.

aU A ARQUITETURA SE TRANSFORMA EM UM OBJETO DE CONSUMO?
MONTANER
As pessoas querem que um edifício comercial em Dubai seja como um arranha-céu de Nova York ou Chicago, mas estão em Dubai. No fim, o mundo dos arranha-céus imita os Estados Unidos. Não sou contrário nem tento ser um puritano contra o consumo, porque entendo que o ser humano seguirá consumindo, não há outra solução. As pessoas se realizam elegendo o que consomem, o que não consomem, como consomem. É a única maneira que o ser humano tem para se realizar em nossa sociedade. A alternativa seria um consumo mais justo, de melhor qualidade, levando em conta o meio ambiente. O que não significa que não se possa fazer uma arquitetura que seja efêmera, que dure apenas alguns anos, e que seja de qualidade, não pura decoração. Estive há um mês em Córdoba, na Argentina, onde se fez um centro cultural e de compras chamado El Buen Pastor no local de um antigo presídio feminino. A arquitetura é péssima. O mesmo programa poderia ter sido feito com uma arquitetura digna, mas preferiram fazer uma arquitetura que não vai agüentar. Ontem estive no novo museu de Paulo Mendes, em Santo André. Está muito bem construído. Fez-se um edifício com uma estrutura preciosa, de vigas, planta livre, que ventila. Elegeu-se fazer uma boa arquitetura, mesmo não sabendo o quanto o edifício vai durar.

aU VOCÊ ENSINA CRÍTICA LATINO-AMERICANA COMO DISCIPLINA DE PÓS-GRADUAÇÃO. COMO VÊ A CRÍTICA ATUAL NO BRASIL E COMO ESTAMOS EM COMPARAÇÃO COM OUTROS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA?
MONTANER
A versão em português de Arquitetura e crítica tem capítulos novos e atualizações que trazem críticos norte-americanos, europeus e latino-americanos. No curso sobre América Latina tento incorporar um pouco da crítica mais geral, mas é mais fácil falar de um arquiteto do que de um crítico latino-americano como Luis Miró Quesada (Peru) e Juan Borchers (Chile). É mais fácil incorporar a Luis Barragán, por exemplo, por sua obra e imagem do que um crítico de sua época, como Alberto T. Arai. Se o coloco em um livro de crítica, só os mexicanos o vão conhecer. O mundo da teoria está dominado pelos anglo-americanos e por certos autores italianos, franceses ou centro-europeus. É impossível estar na primeira divisão se não for traduzido para o inglês e formar parte da elite cultural anglo-americana. Isso faz com que, nesse curso sobre América Latina, seja difícil incorporar muitos desses críticos em um discurso mais geral. Quando tive de eleger os críticos para a atualização do livro, escolhi quatro latino-americanos: três argentinos e um chileno. E não elegi nenhum brasileiro, ainda que eu seja muito amigo deles.

aU POR QUE OS BRASILEIROS ficaram fora do livro?
MONTANER
Meu critério era incluir críticos que tivessem livros, que tivessem realizado visões gerais da arquitetura e da teoria, ou de seu país. Escolhi Roberto Fernández, que escreve dois livros por ano e escreveu sobre tudo, explica toda a evolução da América; Jorge de Francisco Liernur, que escreveu enciclopédias e é o arquiteto que escreve sobre América Latina em todo o mundo; Claudio Caveri que tem toda uma visão de mundo desde Buenos Aires e que escreve muito, e Cristian Fernández Cox, também com muitos livros, que tem escrito sobre outra modernidade latino-americana e seu último livro foi sobre sistemas de projetos. (Carlos Eduardo) Comas, que é brasileiro e muito bom, só faz ensaios para revistas especializadas ou orienta teses; Ruth Verde Zein faz ensaios muito inteligentes, mas não se arrisca a fazer uma história mais universal. Hugo Segawa a faz e a faz bem descritiva, mas possivelmente não tem a força que deveria. Mahfuz é muito bom, mas é bom fazendo artigos, ensaios. Curiosamente, a arquitetura brasileira é muito boa e mundialmente reconhecida, e há muitos críticos, como Alberto Xavier, Paola Berenstein. Deve haver muitos motivos, mas talvez um deles é que seja difícil assumir tanta diversidade em um país tão grande. Além disso, o Brasil, por alguma razão cultural que me escapa, tende a criar muitos mitos individuais, como Oscar Niemeyer. Isso dificulta que se possa escrever uma história fria, desapaixonada, em que esses mitos estejam misturados com outros e estejam dentro de um panorama internacional. Oscar Niemeyer é muito importante no mundo, mas ainda não está situado totalmente porque é como se jogasse em outra divisão. Os brasileiros têm Oscar Niemeyer tão mitificado quanto um Ronaldinho. Não se pode dizer: bom, Le Corbusier o influenciou nisso, Niemeyer fez mal isso, fez bem aquilo. É como um superdeus. Isso dificulta que haja uma teoria crítica mais abrangente. Ou também porque falte um certo costume, uma crítica mais aberta. Há muitos arquitetos bons no Brasil e muitos bons críticos, mas nenhum se atreve a dar um salto e fazer um trabalho mais amplo, mais ambicioso e mais geral.

aU A CRÍTICA É MUITO REGIONALISTA?
MONTANER
É regionalista, mas acho que tampouco se faz sobre o Brasil uma reflexão conceitualmente forte. Talvez outras disciplinas a façam, como a sociologia, a geografia, há outras disciplinas provavelmente mais avançadas, que têm sido mais sistemáticas, mais científicas.

aU DEVERÍAMOS SER MAIS CRÍTICOS COM A CRÍTICA?
MONTANER
Mais autocríticos. Pelo menos no mundo da arquitetura. A relação que se estabelece com os artistas é muito emotiva, afetiva e pouco racional. Há uma certa dificuldade para analisá-los globalmente. Talvez porque os mesmos críticos sejam cautelosos e digam: não me atrevo a colocar ordem em algo tão complexo. Há algumas tentativas. Hugo Segawa tem uma história aceitável, mas que não chega à ambição que deveria ter. A única que existe é de Yves Bruand, um francês, ou seja, é feita fora (Arquitetura contemporânea no Brasil). Por alguma razão idiossincrática, ou de cunho cultural, os que poderiam fazê-la - porque Ruth Verd Zein, Mahfuz, Comas são de uma inteligência extrema - não a fazem, talvez porque eles mesmos entendam que, se a fizessem... não sei.

aU AÍ VOLTARÍAMOS AO PRINCÍPIO DA ENTREVISTA, DA CRÍTICA FRENTE AO MERCADO...
MONTANER
Claro. De repente eles pensam que isso levaria a uma reação. O mercado condiciona e pediria opiniões definidas. Mas desde o ponto de vista do mercado, qualquer mercado da cultura brasileira pediria interpretações mais conceitualizadas. Mas os próprios críticos dizem que não há boa crítica porque não os deixam fazer, porque não-sei-que, não se publica e não se pode criticar ninguém. A ausência de uma teoria crítica forte é uma espécie de sentimento generalizado. Significa algo que pessoas tão lúcidas quanto esses críticos não façam uma história global, ao mesmo tempo em que eles mesmos se dão conta de que essa situação não é a adequada.

Legenda:À esquerda, a Escola Parque do Conhecimento, novo museu em Santo André, de Paulo Mendes da Rocha - obra que, para Montaner, é um exemplo de como se pode fazer uma arquitetura de qualidade mesmo sem saber o quanto deverá durar. À direita, o Parque do Gato, em São Paulo, é citado pelo crítico espanhol como uma intervenção que reúne questões-chave, como moradia social, espaço público, proximidade a postos de trabalho e a transporte, sem que se criem guetos. No centro, o livro Arquitetura contemporânea no Brasil, de Yves Bruand, é citado como a única obra histórica da arquitetura brasileira com a ambição necessária, mas é feita por um crítico estrangeiro - segundo Montaner, os críticos brasileiros não realizaram ainda uma reflexão conceitualmente forte

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