aU SEUS ARTIGOS FALAM MUITO DAS
MORADIAS SOCIAIS. DE QUE MANEIRA OS ARQUITETOS PODEM CONTRIBUIR PARA ESSE
TEMA?
MONTANER O tema das moradias sociais
é chave. E cada país tem necessidades distintas. A Espanha,
por exemplo, precisa de moradias para os setores mais pobres, mas ao mesmo
tempo há muitas moradias vazias. O problema maior é a relação
das moradias com outras infra-estruturas: é preciso resolver os
problemas dos transportes, do espaço público e de emprego.
A moradia é o núcleo, mas não é apenas isso
que resolve. Em relação aos arquitetos, se eles querem ter
um papel na sociedade, a chave está na moradia, nos espaços
públicos e na infra-estrutura. É o que os arquitetos sabem
fazer, mas se eles se retiram, tudo começa a ser feito desde outras
lógicas. Esta manhã visitei o Parque do Gato e outras intervenções
da época da prefeita Marta Suplicy. É nesse tipo de operação
que está o futuro da arquitetura, em que arquitetos têm um
papel na sociedade com muitas questões reunidas: moradias dignas,
espaço público, lojas, postos de trabalho perto, transporte
e que, obviamente, não criem guetos. Essa é a necessidade
de toda a humanidade e uma grande parte não o tem resolvido, ou
o tem de maneira precária. Em 2030, quase 75% da população
mundial deve morar em cidades.
aU COMO VOCÊ VÊ essaS
CIDADES ONDE 75% DA POPULAÇÃO MUNDIAL IRÁ MORAR?
MONTANER Haverá de tudo.
Mas não se pode imaginar o futuro sem tomar fragmentos do que se
vê agora. A cidade será uma mescla imprevisível de
Tóquio, Xangai, Dubai, São Paulo, México DF. Claro
que haverá cidades mais fragmentadas e com muitas barreiras e fronteiras
sociais, e haverá outras que não terão estruturas
e serão um caos. Mas estamos condenados a viver em grandes cidades,
o século 21 é o século das grandes cidades, então
devemos encontrar maneiras de sobreviver. O transporte público,
as infra-estruturas, o espaço público e as moradias serão
cada vez mais importantes. Haverá mais diversidade e as pessoas
irão viver mais sozinhas.
aU você tem um artigo no qual
trata do que CHAMA DE "VIDA-BASURA", OU VIDA-LIXO, EM PORTUGUÊS.
NELE, você diz COMO A CIDADE SENTE O AVANÇO DO CONSUMISMO.
COMO FICA A ARQUITETURA NESSA VISÃO?
MONTANER A arquitetura tem cada
vez mais outra regra de tempo. Quanto mais as cidades crescem, menores
são as unidades familiares, e duram menos. A vida média
dos edifícios vai diminuindo, de 100 a 50 anos, tanto pela qualidade
construtiva quanto pelos interesses imobiliários. Em lugares como
Nova York é mais rentável que um edifício desapareça
em 70, 80 anos e se faça tudo de novo, do que manter esse edifício.
O que não significa que os prédios não possam ter
qualidade. A impressão que tive em Xangai é que se construía
tudo com uma qualidade muito ruim, muito rápido e que ia durar
pouco. Se você sabe que um edifício residencial vai durar
30, 40 anos, tem de prever como ele pode ser transformado, ampliado, melhorado,
ou como se pode desmontá-lo e fazer outros novos. É uma
tendência que não se pode mudar, mas é preciso que
se construa com a previsão sobre como se melhora, se transforma,
se refaz.
aU A ARQUITETURA SE TRANSFORMA EM
UM OBJETO DE CONSUMO?
MONTANER As pessoas querem que um
edifício comercial em Dubai seja como um arranha-céu de
Nova York ou Chicago, mas estão em Dubai. No fim, o mundo dos arranha-céus
imita os Estados Unidos. Não sou contrário nem tento ser
um puritano contra o consumo, porque entendo que o ser humano seguirá
consumindo, não há outra solução. As pessoas
se realizam elegendo o que consomem, o que não consomem, como consomem.
É a única maneira que o ser humano tem para se realizar
em nossa sociedade. A alternativa seria um consumo mais justo, de melhor
qualidade, levando em conta o meio ambiente. O que não significa
que não se possa fazer uma arquitetura que seja efêmera,
que dure apenas alguns anos, e que seja de qualidade, não pura
decoração. Estive há um mês em Córdoba,
na Argentina, onde se fez um centro cultural e de compras chamado El Buen
Pastor no local de um antigo presídio feminino. A arquitetura é
péssima. O mesmo programa poderia ter sido feito com uma arquitetura
digna, mas preferiram fazer uma arquitetura que não vai agüentar.
Ontem estive no novo museu de Paulo Mendes, em Santo André. Está
muito bem construído. Fez-se um edifício com uma estrutura
preciosa, de vigas, planta livre, que ventila. Elegeu-se fazer uma boa
arquitetura, mesmo não sabendo o quanto o edifício vai durar.
aU VOCÊ ENSINA CRÍTICA
LATINO-AMERICANA COMO DISCIPLINA DE PÓS-GRADUAÇÃO.
COMO VÊ A CRÍTICA ATUAL NO BRASIL E COMO ESTAMOS EM COMPARAÇÃO
COM OUTROS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA?
MONTANER A versão em português
de Arquitetura e crítica tem capítulos novos e atualizações
que trazem críticos norte-americanos, europeus e latino-americanos.
No curso sobre América Latina tento incorporar um pouco da crítica
mais geral, mas é mais fácil falar de um arquiteto do que
de um crítico latino-americano como Luis Miró Quesada (Peru)
e Juan Borchers (Chile). É mais fácil incorporar a Luis
Barragán, por exemplo, por sua obra e imagem do que um crítico
de sua época, como Alberto T. Arai. Se o coloco em um livro de
crítica, só os mexicanos o vão conhecer. O mundo
da teoria está dominado pelos anglo-americanos e por certos autores
italianos, franceses ou centro-europeus. É impossível estar
na primeira divisão se não for traduzido para o inglês
e formar parte da elite cultural anglo-americana. Isso faz com que, nesse
curso sobre América Latina, seja difícil incorporar muitos
desses críticos em um discurso mais geral. Quando tive de eleger
os críticos para a atualização do livro, escolhi
quatro latino-americanos: três argentinos e um chileno. E não
elegi nenhum brasileiro, ainda que eu seja muito amigo deles.
aU POR QUE OS BRASILEIROS ficaram
fora do livro?
MONTANER Meu critério era
incluir críticos que tivessem livros, que tivessem realizado visões
gerais da arquitetura e da teoria, ou de seu país. Escolhi Roberto
Fernández, que escreve dois livros por ano e escreveu sobre tudo,
explica toda a evolução da América; Jorge de Francisco
Liernur, que escreveu enciclopédias e é o arquiteto que
escreve sobre América Latina em todo o mundo; Claudio Caveri que
tem toda uma visão de mundo desde Buenos Aires e que escreve muito,
e Cristian Fernández Cox, também com muitos livros, que
tem escrito sobre outra modernidade latino-americana e seu último
livro foi sobre sistemas de projetos. (Carlos Eduardo) Comas, que é
brasileiro e muito bom, só faz ensaios para revistas especializadas
ou orienta teses; Ruth Verde Zein faz ensaios muito inteligentes, mas
não se arrisca a fazer uma história mais universal. Hugo
Segawa a faz e a faz bem descritiva, mas possivelmente não tem
a força que deveria. Mahfuz é muito bom, mas é bom
fazendo artigos, ensaios. Curiosamente, a arquitetura brasileira é
muito boa e mundialmente reconhecida, e há muitos críticos,
como Alberto Xavier, Paola Berenstein. Deve haver muitos motivos, mas
talvez um deles é que seja difícil assumir tanta diversidade
em um país tão grande. Além disso, o Brasil, por
alguma razão cultural que me escapa, tende a criar muitos mitos
individuais, como Oscar Niemeyer. Isso dificulta que se possa escrever
uma história fria, desapaixonada, em que esses mitos estejam misturados
com outros e estejam dentro de um panorama internacional. Oscar Niemeyer
é muito importante no mundo, mas ainda não está situado
totalmente porque é como se jogasse em outra divisão. Os
brasileiros têm Oscar Niemeyer tão mitificado quanto um Ronaldinho.
Não se pode dizer: bom, Le Corbusier o influenciou nisso, Niemeyer
fez mal isso, fez bem aquilo. É como um superdeus. Isso dificulta
que haja uma teoria crítica mais abrangente. Ou também porque
falte um certo costume, uma crítica mais aberta. Há muitos
arquitetos bons no Brasil e muitos bons críticos, mas nenhum se
atreve a dar um salto e fazer um trabalho mais amplo, mais ambicioso e
mais geral.
aU A CRÍTICA É MUITO
REGIONALISTA?
MONTANER É regionalista,
mas acho que tampouco se faz sobre o Brasil uma reflexão conceitualmente
forte. Talvez outras disciplinas a façam, como a sociologia, a
geografia, há outras disciplinas provavelmente mais avançadas,
que têm sido mais sistemáticas, mais científicas.
aU DEVERÍAMOS SER MAIS CRÍTICOS
COM A CRÍTICA?
MONTANER Mais autocríticos.
Pelo menos no mundo da arquitetura. A relação que se estabelece
com os artistas é muito emotiva, afetiva e pouco racional. Há
uma certa dificuldade para analisá-los globalmente. Talvez porque
os mesmos críticos sejam cautelosos e digam: não me atrevo
a colocar ordem em algo tão complexo. Há algumas tentativas.
Hugo Segawa tem uma história aceitável, mas que não
chega à ambição que deveria ter. A única que
existe é de Yves Bruand, um francês, ou seja, é feita
fora (Arquitetura contemporânea no Brasil). Por alguma razão
idiossincrática, ou de cunho cultural, os que poderiam fazê-la
- porque Ruth Verd Zein, Mahfuz, Comas são de uma inteligência
extrema - não a fazem, talvez porque eles mesmos entendam
que, se a fizessem... não sei.
aU AÍ VOLTARÍAMOS
AO PRINCÍPIO DA ENTREVISTA, DA CRÍTICA FRENTE AO MERCADO...
MONTANER Claro. De repente eles
pensam que isso levaria a uma reação. O mercado condiciona
e pediria opiniões definidas. Mas desde o ponto de vista do mercado,
qualquer mercado da cultura brasileira pediria interpretações
mais conceitualizadas. Mas os próprios críticos dizem que
não há boa crítica porque não os deixam fazer,
porque não-sei-que, não se publica e não se pode
criticar ninguém. A ausência de uma teoria crítica
forte é uma espécie de sentimento generalizado. Significa
algo que pessoas tão lúcidas quanto esses críticos
não façam uma história global, ao mesmo tempo em
que eles mesmos se dão conta de que essa situação
não é a adequada.
Legenda:À esquerda, a Escola Parque do Conhecimento,
novo museu em Santo André, de Paulo Mendes da Rocha - obra
que, para Montaner, é um exemplo de como se pode fazer uma arquitetura
de qualidade mesmo sem saber o quanto deverá durar. À direita,
o Parque do Gato, em São Paulo, é citado pelo crítico
espanhol como uma intervenção que reúne questões-chave,
como moradia social, espaço público, proximidade a postos
de trabalho e a transporte, sem que se criem guetos. No centro, o livro
Arquitetura contemporânea no Brasil, de Yves Bruand, é citado
como a única obra histórica da arquitetura brasileira com
a ambição necessária, mas é feita por um crítico
estrangeiro - segundo Montaner, os críticos brasileiros não
realizaram ainda uma reflexão conceitualmente forte
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