A TRAJETÓRIA DE ROBERTO MCFADDEN É ASSOCIADA AO TRINÔMIO
ARQUITETURA, CIDADE E TRANSPORTES. EM QUARENTA ANOS DE CARREIRA, SUA
ATUAÇÃO PODE SER AGRUPADA EM TRÊS FASES: COMO ARQUITETO
NA COMPANHIA DO METROPOLITANO DE SÃO PAULO, ENTRE 1972 E 1988,
COMO VICE-PRESIDENTE DA EMPRESA MUNICIPAL DE URBANIZAÇÃO,
ENTRE 1989 E 1992, E, MAIS RECENTEMENTE, COMO SÓCIO-DIRETOR DA
OFICINA DE PROJETOS URBANOS, A PARTIR DE 1993
Natural de Piracicaba, interior de São Paulo, Roberto McFadden
veio para a capital estudar arquitetura na Universidade Presbiteriana
Mackenzie (1963-67). Naquele momento a região central de São
Paulo abrigava, num raio não muito superior a 200 m, alguns dos
mais importantes centros universitários de São Paulo. Além
do Mackenzie, várias unidades da Universidade de São Paulo
estavam distribuídas nessa região, caso da FAU e da Escola
de Sociologia e Política e da Faculdade de Filosofia. O próprio
McFadden ressalta: tratava-se de um grande campus universitário
em meio a uma área da cidade que contava com bons cinemas, teatros,
livrarias.
Sua passagem pelo curso foi marcada pelo golpe militar de 1964 e pela
tensão política que se estendeu para dentro do ambiente
universitário, caracterizada pela organização dos
alunos e o questionamento dos métodos de ensino e avaliação.
Paradoxalmente, o momento de crescimento econômico, em especial
o setor das obras de infra-estrutura, demandava o trabalho de arquitetos,
inclusive nas empresas estatais. Diversos profissionais, mesmo aqueles
de orientação política de esquerda, passaram a integrar
o corpo de arquitetos dessas empresas ou de firmas de consultoria. Foi
nesse contexto que Roberto McFadden, após um período inicial
de trabalho em um escritório em sociedade com Renato Viegas, Aieto
Manetti Netto e Valdemar Herrmann, ingressou no Metrô em 1972, quando
a companhia pertencia à Prefeitura de São Paulo.
Até então a pequena equipe existente na companhia era responsável
apenas pela revisão técnica dos projetos elaborados por
escritórios particulares, muitos feitos pelo arquiteto Marcelo
Fragelli na Promom, referência com suas propostas para as estações
da linha Norte-Sul do Metrô de São Paulo. A partir de então,
a equipe passou a formular os projetos básicos para as estações.
A equipe de arquitetos formada por McFadden, Renato Viegas, Eduardo
Hotz, Meire Selle, Flávio Colato e José Paulo de Bem, entre
outros, passou a elaborar os primeiros estudos para o ramal Paulista do
Metrô.
De acordo com o arquiteto, os primeiros anos no Metrô foram de
intenso trabalho projetual e de pesquisa por novas soluções
funcionais, técnicas e espaciais. O período que se estendeu
até meados da década de 1970 representou um momento de formulação
de diretrizes de projeto entre a equipe de arquitetos. No campo político,
a segunda metade da década foi partilhada entre o ofício
de projeto e a montagem e articulação do sindicato dos metroviários
que o levaria a participar da fundação do Partido dos Trabalhadores.
Sua integração à equipe do Metrô marcou a
formulação de uma questão essencial de toda a obra
de McFadden: a relação entre arquitetura, cidade e transportes
urbanos. Questões como a inserção de equipamentos
de transporte na cidade, a relação desses com o uso do solo,
a integração entre os diferentes modos de transporte e a
formulação de arquiteturas muito parametrizadas pelas condicionantes
técnicas passaram a ser pensadas e testadas no próprio desenvolvimento
dos trabalhos de projeto.
Como todo trabalho em grandes equipes, a autoria dos projetos no Metrô
é bastante difusa. Em inúmeros casos, estudos foram iniciados
por uma equipe, modificados por outra alguns anos depois e finalmente
desenvolvidas por escritórios privados na fase de projeto executivo.
Entre os projetos desenvolvidos pelo arquiteto durante sua passagem pelo
Metrô, sozinho ou em co-autoria, destacam-se as estações
Sé, Jardim São Paulo, Tucuruvi e Ana Rosa II (ampliação),
na Linha Azul; Marechal Deodoro e Santa Cecília, na Linha Vermelha;
Trianon/Masp e Brigadeiro, na Linha Verde; além do projeto básico
para o Terminal Rodoviário do Tietê. Outros estudos preliminares,
projetos básicos não-executados e estudos para transporte
foram elaborados pelo arquiteto até 1988, ano em que deixou a companhia.
Os trabalhos destacados foram elaborados em momentos distintos da sua
trajetória e sugerem, muitas vezes, o amadurecimento da abordagem
projetual. Cada uma das linhas do sistema metroviário apresenta
condicionantes técnicas diferentes em função das
opções construtivas da inserção da linha na
cidade: métodos de escavação, trechos elevados etc.
A concepção estrutural desses projetos merece uma análise
mais detida. Após a construção com sistemas de concreto
moldado in loco das estações da linha Norte-Sul, o Metrô
procurou adotar sistemas pré-fabricados próprios na linha
Leste-Oeste. Mesmo que a proposta inicial de desenvolvimento de uma fábrica
própria no pátio do Pari não tenha sido implantada,
a adoção de alguns sistemas pré-fabricados, então
já disponíveis no mercado, marcou várias das estações
elevadas dessa linha.
Nos trechos subterrâneos destaca-se a insistência do arquiteto
em levar a iluminação natural para o interior das estações,
produzindo recortes e aberturas.
Na estação da Sé, um grande vazio iluminado zenitalmente
atravessa os vários andares. A verticalidade dessa luz é
associada ao controle das proporções dos elementos estruturais,
como denota o chanfro das bordas das lajes, que diminuem visualmente sua
espessura. O mesmo ocorre na estação Marechal Deodoro, na
qual uma faixa longilínea vertical conduz a luz através
de um sistema estrutural em altíssimos arcos de concreto armado
aparente. Na estação Tucuruvi essa estratégia assume
uma forma particular. Há uma série de volumes prismáticos
de vidro que proporcionam diferentes configurações de luz
conforme a época do ano.
Além da condução da luz, essas aberturas contribuem
para atender a necessidade de ventilação dos túneis.
No entanto, nem sempre foi possível associar a ventilação
à iluminação natural. Na Linha Azul, a ventilação
assumiu a forma de torres, procurando construir uma relação
positiva com a paisagem. As erupções dessas torres em vários
pontos da cidade tiveram resultados desiguais. Para se contrapor ao conjunto
de torres de ventilação da estação Ana Rosa,
McFadden projeta uma elegante cobertura para o terminal de ônibus,
delas afastada por um amplo espaço que as destaca na paisagem.
Já na linha Paulista as torres desapareceram, sendo substituídas
por grandes grelhas no piso dos passeios. Reconhecimento implícito
das dificuldades geradas pela opção em torre.
Nas maiores estações e nas conexões intermodais,
o principal desafio do programa é a circulação de
fluxos gigantescos de usuários. Na estação da Sé,
630 mil usuários/dia embarcam e desembarcam em um sistema que já
chegou a transportar mais de três milhões de passageiros
em um dia, segundo dados do Metrô. Nessas condições,
a circulação organiza o conjunto do programa.
Outro exemplo é o Terminal Rodoviário Tietê, em co-autoria
com Renato Viegas. Nele a circulação principal é
concebida como uma ampla rua elevada em relação ao solo.
Com essa disposição espacial, os fluxos de circulação
foram divididos em níveis diferentes, com os pedestres ao nível
da conexão com a rede metroviária e os veículos (automóveis
e ônibus) ao nível do solo.
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