Arquitetos como Mies van der Rohe e Gordon Bunshaft, entre 1940 e 1970,
já exploravam a transparência e fluidez singulares proporcionadas
pelas amplas fachadas envidraçadas. O que eles talvez não
desconfiassem é que a tecnologia relacionada à fachada-cortina
fosse avançar tanto – e tão rápido. Nas últimas
décadas, sem detrimento da capacidade de vedação,
métodos de fixação mais avançados permitiram
abreviar o tempo de instalação, assim como o ocultamento
dos perfis metálicos, agregando leveza visual principalmente à
arquitetura corporativa e ao chamado International Style. Além
disso, enquanto no passado a estanqueidade era garantida por acessórios
importados ou produzidos sob medida por fabricantes de esquadrias, hoje
há fábricas especializadas em sistemas modulares de fachada-cortina.
Os componentes, por sua vez, também melhoraram permitindo às
fachadas atuais usar menos náilon e mais aço inoxidável,
ter os ajustes de freios mais eficientes e, finalmente, qualidade mais
uniforme graças à produção em série.
Definida como um sistema de vedação vertical formado por
placas ou painéis fixados externamente por uma subestrutura auxiliar
– e aí a vedação pode ser tanto vidro quanto
outros materiais, como pedras –, a fachada-cortina apresenta evolução
progressiva ao longo do tempo. No Brasil, a primeira aplicação
do sistema aconteceu no Centro Cândido Mendes, na rua da Assembléia,
centro do Rio de Janeiro. No prédio de 43 andares projetado nos
anos 1970 pelo arquiteto Harry Cole, os vidros foram encaixilhados com
perfis de alumínio, formando quadros presos por ganchos às
colunas contínuas e travessas. "Nesse tipo de fachada, as
colunas ficavam externas, marcando a vertical do edifício e interferindo
bastante com a arquitetura do prédio", comenta Luis Cláudio
Viesti, consultor técnico da Afeal (Associação Nacional
dos Fabricantes de Esquadrias de Alumínio).
Segundo Viesti, já naquela época os arquitetos ansiavam
por fachadas mais neutras, sem elementos que evidenciassem tanto a verticalidade
como a horizontalidade. Foi isso que motivou o desenvolvimento do sistema
pele de vidro poucos anos depois. A coluna agora se voltava para o interior
do edifício e a área visível de alumínio na
face externa pôde ser minimizada, chegando a aproximadamente 38
mm ao longo de todo o perímetro do quadro. Embora o vidro permanecesse
encaixilhado com o apoio de gaxetas e ganchos, foi possível que
as folhas móveis da pele de vidro fossem instaladas sem marcar
a fachada, ao contrário do que ocorria até então.
Apesar do avanço, menos de dez anos depois uma nova solução,
o structural glazing, foi criada em Miami, nos Estados Unidos, em resposta
à demanda dos arquitetos que queriam eliminar de vez a interferência
visual dos perfis de alumínio e obter uma fachada que revelasse
apenas vidro. "A novidade foi que toda a estrutura de alumínio
pôde ser finalmente ocultada no interior do edifício. Os
vidros passaram a ser fixados por meio de silicones estruturais pela face
externa dos caixilhos, tornando as fachadas mais leves e transparentes",
conta o engenheiro e consultor Amaury Siqueira, diretor técnico
da Techné Engenharia. Tal resultado estético, entretanto,
não deve prescindir do desempenho da fachada, ressalta Siqueira,
lembrando que a colagem não pode ser feita aleatoriamente e requer
o dimensionamento da profundidade e altura do silicone obtida em cálculos
que consideram a espessura, peso e dimensões do vidro.
Até por possibilitar uma extensão maior de vidro nas fachadas,
o sistema sempre teve seu desempenho térmico diretamente associado
à qualidade do material utilizado e ao uso de perfis com barreira
de fluxo térmico. Nesse sentido, segundo Siqueira, a indústria
aprimorou sua oferta, em especial, de vidros laminados com polivinilbutiral
(PVB) e refletivos que, além de assegurar isolamento térmico,
garantem segurança às fachadas. Outra opção
para agregar qualidade térmica às fachadas-cortina é
o vidro duplo insulado com persiana interna. Essa composição,
aliás, é apontada pelo engenheiro Nelson Firmino, consultor
e diretor da Aluparts Engenharia, como tendência em função
da crescente exigência por conforto ambiental e economia de energia.
Estado-da-arte
A atenção ao desempenho das fachadas e a procura pela racionalização
dos processos construtivos propiciou, nos últimos vinte anos, o
desenvolvimento de duas soluções cada vez mais exploradas.
A primeira, conhecida no mercado como Spider Glass (SGG), foi especificada
no Brasil em projetos como o Centro Brasileiro Britânico, em São
Paulo, do escritório Botti & Rubin, e depois se disseminou,
marcando presença em fachadas de pequeno e médio porte mas
de alto impacto visual. Nesse sistema, que dispensa caixilhos e silicone
estrutural, os vidros são presos pontualmente por peças
articuladas fixadas a uma estrutura portante metálica.
Outra recente evolução das fachadas-cortina foram os módulos
unitizados, que chegaram ao País no final da década de 1990
e rapidamente se incorporaram ao repertório de soluções
para arquitetura comercial e institucional. Nesse sistema, a fachada é
composta por painéis independentes estruturados com vidro, porcelanato
ou granito, içados com o auxílio de guindastes e fixados
com ancoragens reguláveis. A montagem é mecanizada e dispensa
balancins, abreviando o cronograma e reduzindo custos com mão-de-obra.
"O sistema unitizado de perfis com vidros tem contribuído
para incrementar o emprego de fachada-cortina", afirma Firmino. Os
painéis são totalmente pré-fabricados, o que aumenta
o controle tecnológico e garante maior qualidade de fechamento
à fachada. "Com isso, diminui-se a probabilidade de infiltração
além de racionalizar o processo construtivo da fachada", ressalta
Amaury Siqueira.
Após incrementos tecnológicos que além de melhorar
o desempenho das fachadas, ampliaram as possibilidades de design, a evolução
das fachadas-cortina tem rumo certo: a introdução de requisitos
relacionados ao conforto ambiental e a economia de energia. De acordo
com a arquiteta Cíntia Mara de Figueiredo, especialista em fachadas,
tais requisitos devem fazer as fachadas-cortina incorporarem dispositivos
para controlar a transferência de calor entre o meio externo e os
ambientes internos tanto pelos perfis de alumínio quanto pelos
vidros, além de controlar a acústica, aproveitar a iluminação
natural e principalmente utilizar a ventilação natural.
"Já é possível perceber a preocupação
de alguns arquitetos em projetar construções sustentáveis,
em busca do Leed, certificação norte-americana para edifícios-verdes",
acrescenta Siqueira, que acredita que tal contexto é favorável
à especificação de soluções como as
fachadas ventiladas com placas de grês porcelanato. "A camada
de ar que se forma entre as placas e a estrutura do edifício funcionam
como isolante térmico entre o exterior e as paredes, eliminando
as pontes térmicas, diminuindo o consumo de energia para o condicionamento
do ar no interior da construção e os efeitos da dilatação
térmica da estrutura", diz o consultor.
O desenvolvimento de fachadas fotovoltaicas também é visto
como tendência, já que mais do que envolver o edifício,
aproveitam a radiação solar como energia, contribuindo para
o melhor desempenho energético-ambiental para as edificações.
No Brasil, a indústria da construção civil ainda
não absorveu o sistema. Mas na Europa, a fachada fotovoltaica está
entre as soluções utilizadas para ganhos em eficiência
energética e altíssimo desempenho ambiental das edificações,
informa Figueiredo.
Uma mostra disso é a formação de um pool de empresas
(Basf, Bosch, Merck e Schott) que tem trabalhado com o apoio do governo
alemão para incrementar o uso desse tipo de sistema em grandes
áreas e desenvolver em grande escala, até 2015, películas
transparentes e flexíveis, capazes de transformar luz em energia.
A idéia é obter um material que, diferentemente das rígidas
células fotovoltaicas atuais, possa ser curvado, enrolado e conformado.