As pontes
me fascinavam muito antes de eu saber o que era arquitetura ou engenharia,
a ponto de uma vez ter perguntado ingenuamente por que grande parte delas,
em rodovias, se situa no ponto mais baixo das descidas - onde, evidentemente,
estão as águas que formam os rios...
É muito difícil saber quem as inventou. Como um bom número
de obras de arquitetura/engenharia, seus autores são eternos desconhecidos.
Dizem que a primeira ponte foi inventada por um gentil celta chamado Walter
Raleigh, que a construiu com uma capa de lã para evitar que uma
old spice girl pisasse na lama (daí o nome do cosmético).
Uma outra corrente mais confiável diz que, se não as inventaram,
pelo menos as aperfeiçoaram: os romanos, para que pudessem passar
rápido com suas Ferraris. Não é uma brincadeira.
Quando morei em Roma, no bairro moderno próximo ao estádio,
o principal acesso era uma enorme ponte construída na década
de 1930. Mas como estava caindo e foi interditada, passaram a usar uma
ponte de 3,50 m de largura, onde transitavam ônibus e caminhões.
É chamada ponte Milvio e foi construída pelos romanos. Para
que todos os caminhos levassem a Roma (Via Cassia, Via Appia, Via Flaminia,
hoje seria via Sofia Ponti) e, melhor ainda, para que os exércitos
romanos marchassem rápido, era necessário construir pontes.
Outra grande mania dos romanos era transportar água. Juntaram
essa necessidade com a idéia das pontes e construíram aquedutos,
dos quais os mais extraordinários são o de Pont Du Gard,
no sul da França, e o que cruza exatamente o centro da cidade de
Segovia, na Espanha.
Há um livro de Asterix em que o chefe substituto da aldeia gaulesa
é um filo-romano que decide construir um aqueduto. Quanto Asterix
lhe diz que é desnecessário porque o córrego passa
no centro da aldeia, o grande chefe filo-romano responde que não
há problema, "a gente desvia o córrego!"
Disso se depreende que, desde aquela época, políticos
e empreiteiros tinham interesses parecidos, e as pontes de transposição
(PT) já ofereciam um mensalão e um gregorião bem
razoáveis.
Ainda que não relacionada com as pontes de transposição,
é curioso notar que a Lei das Licitações, que orienta
as concorrências de obras públicas no Brasil, foi conduzida
pelo deputado Luiz Roberto Ponte (!) com quem tive uma tremenda e educada
discussão, representando o Sinaenco.
De minha parte, guardo uma passagem inesquecível de uma madrugada
quando eu, abastecido de álcool, ao volante de uma Bianchina (um
Fiat 500 incrementado) cheia de gasolina, atravessei a estreitíssima
Ponte Vecchio de Florença, a mais bonita do mundo, entre as joalherias
ali instaladas há séculos.
A ponte Vecchio, coberta e aberta, lembra as mais antigas pontes cobertas
de madeira que protegiam (e protegem) do mau tempo, especialmente da neve,
como as que existem em Lucerna, na Suíça, e as da Pensilvânia,
tema do excelente filme de Clint Eastwood com Meryl Streep-Tease, As Pontes
de Madison.
Em geral, as pontes já são elementos arquitetônicos
de grande impacto visual em função dos obstáculos
que atravessam e pelas proezas estruturais que as solucionam. A Europabrücke,
ligação fundamental entre Itália, Áustria
e Alemanha, nos Alpes, construída para os Jogos Olímpicos
de inverno em Innsbruck, em 1964, tem pilares não travados de 200
m de altura, com estrutura metálica para o tabuleiro, simplesmente
apoiada - por isso, vibra loucamente. O recente viaduto de Millau,
na França, tem pilares de 240 m de altura!
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