Mesmo pontes com vãos menores às vezes impressionam pelas
paisagens bucólicas que as acompanham ou pela ornamentação
que as completa. A ponte Charles, em Praga, com suas estátuas,
ou a Ponte Alexandre III, em Paris, e a Ponte Rialto, em Veneza, são
exemplos importantes, embora elas não tenham a imagem impactante
e marcante da Tower Bridge em Londres, com suas duas torres, a ponte levadiça
para passagem de barcos e a sinistra Torre de Londres ao fundo.
Diante de oportunidades tão significativas para que um projetista
deixe o seu nome na história, em função dos prodígios
estruturais para vencer em geral paisagens espetaculares, é importante
lembrarmo-nos da modéstia dos projetos de Robert Maillart, na Suíça,
com pontes que em vez de atingirem a paisagem, a completam.
Os atuais romanos, que se chamam italianos, continuaram construindo
incríveis pontes nas suas autostrade, que inspiraram a rodovia
São Paulo-Santos. A autostrada que costeia a Riviera italiana (Gênova,
Savona, Santa Margherita) possui pontes altíssimas para não
detonar a paisagem. Em Gênova, Ricardo Morandi projetou, nos anos
50, uma belíssima estrutura para atravessar o porto.
No século 18, a família Darby na Inglaterra, já
rica, resolveu ficar mais rica e decidiu investir no ferro como material
de construção. Nasceram aí as pontes de ferro, a
primeira no rio Severn, e as estruturas metálicas para construção
inicialmente industrial.
Começamos pela mais famosa, a Golden Gate, outro tremendo negócio
empresarial, e sua tradição de suicídios. A Golden
Gate não foi a primeira ponte pênsil, há outra magnífica
bem mais antiga em Bristol, no Reino Unido, e os ingleses e norte-americanos
se tornaram mestres no assunto, com a trágica história do
engenheiro projetista e construtor da Brooklyn Bridge, que viveu e morreu
na obra.
Enquanto no Reino Unido a ponte antiga e a moderna no Fifth of Forth
(que nome!) na Escócia competem pelo visual, as pontes pênseis
se espalham pelo mundo. A Verrazano Narrows Bridge, em New York, a fantástica
Akashi-Kyo, próximo a Kobe, com pilares de 400 m de altura e que,
ainda inacabada e não travada, resistiu ao terremoto de Kobe que
matou cinco mil pessoas. E como ponte metálica em arco em Sydney,
a famosa Harbour Bridge, uma escalada turística ao lado da Opera
House.
Mas há os fracassos. A engenharia funciona como tudo em novos
processos, por tentativa e erro, e a ponte de Tacoma Narrows, no estado
de Washington, em 1939, cometeu a temeridade de balançar com a
mesma freqüência do vento. A força tornou-se exponencial,
a estrutura começou a desenhar curvas loucas, os carros caíram
e a ponte foi para o espaço - ou para o rio. Além
dos fracassos brasileiros na ponte do Mosqueiro, da Piaçaguera-Guarujá,
da segunda ponte do lago de Brasília e da ponte Rio-Niterói,
algumas reconstruídas três vezes.
A Millenium Bridge, passarela projetada por Norman Foster em Londres,
passou pelo mesmo problema da Tacoma Narrows e foi interditada para ser
reforçada no dia seguinte da inauguração. Enfim como
diria Paul Simon, "water under troubled bridges".
Até nossos amigos portugueses, com a tecnologia de seu laboratório
de engenharia civil e com a grana da comunidade européia, construíram
duas pontes pênseis não menos que espetaculares em Lisboa,
na foz do rio Tejo.
Existem (ou existiram) até pontes efêmeras, sem deixar
de ser espetaculares obras de engenharia militar. Caso das pontes Bailey,
utilizadas pelos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial, que eram
flutuantes e suportavam a passagem de exércitos, com caminhões
e tanques. Efêmeras porque ou eram retiradas após o uso,
ou eram devidamente bombardeadas.
Hoje a moda no Brasil são as pontes e passarelas estaiadas, mais
adequadas para trens do que as pênseis (até nós já
projetamos uma). Estruturas inventadas nas Autobähn sobre o rio Reno
nos anos... 60, elas se encontram por toda a Europa e a mais impressionante
é a ponte de Öresund, que, ligada a um túnel, une a
Dinamarca com a Suécia,
E, por fim, o catalisador para que eu escrevesse este artigo. No encontro
regional da AsBEA, em novembro, dormi no hotel Hyatt, em São Paulo
e, ao abrir a janela para ver a paisagem, deparei-me com um enorme monumento
de concreto de 138 m de altura (dizem), cobrindo toda a vista da marginal
e das colinas do Morumbi. Não precisava exagerar: o pilar da ponte
e o conjunto das pistas são muito interessantes, mas o volume de
concreto é espantoso. Acredito que uma estrutura metálica
ou mesmo de concreto mais delicada, se o cálculo o permitisse,
não fariam nenhum mal ao conceito geral. Mas, como sempre, a volúpia
brasileira pelo concreto é intransponível. Sorte das concreteiras
e cimenteiras.
A paisagem de São Paulo é tão terrível que
nada pode melhorá-la ou piorá-la, e a estrutura da ponte
da Água Espraiada é, em si, interessante. Mas não
precisava tapar a vista da minha janela, não é todo dia
que acordo lá. Além de muito cara. Só pontes de dentistas
custam mais.
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