É
provável que a capa deste número de AU cause estranheza
para alguns. Não é comum que revistas de arquitetura destaquem
imagens diversas à estética predominante em suas páginas.
Quem dirá na capa. Feita por Nelson Kon, arquiteto de formação
e fotógrafo por vocação, a foto atrai o olhar pela
composição e colorido difuso. A desordem urbana e o padrão
construtivo das habitações revelam algum bairro residencial
de baixa renda de uma grande cidade brasileira. A vista através
do policarbonato alveolar confere uma qualidade um tanto impressionista
à imagem. Mostra a vizinhança da Escola
Estadual Jardim Angélica III, na periferia de Guarulhos,
cidade da grande São Paulo e mais uma obra da Fundação
para o Desenvolvimento da Educação (FDE). O crescimento
desordenado e a falta de políticas de planejamento urbano bem executadas
são fenômenos recorrentes no Brasil. Nesse sentido, a FDE
faz um trabalho educacional de grande importância ao levar boa arquitetura
aos bairros onde implanta escolas. Há diversos exemplos, vários
já publicados em AU, como a Escola Estadual Jardim Dom Angélico
II, projetada pelo arquiteto Pedro Mendes da Rocha. O esforço da
FDE, fundação vinculada à Secretaria de Educação
do Estado de São Paulo, serve como referência para outros
órgãos e empresas do governo - principalmente no que
toca à esfera urbana. Fala-se muito no afastamento do arquiteto
da sociedade e da desvalorização de seu trabalho. As lideranças
da categoria lutam para encontrar meios de divulgar a arquitetura para
o público geral. As pessoas, entretanto, parecem preferir soluções
pragmáticas. Se puderem, optam pelo condomínio fechado e
pelo shopping center estilo caixote. De outro lado, a maioria da população
parece não ter condições ou sequer se interessar
em avaliar a arquitetura das edificações - muito menos
as complexas questões afeitas ao urbanismo. Por ora, o impulso
transformador precisa recair sobre os agentes que detêm o poder
- seja público ou privado. A experiência da FDE constitui,
sem dúvida, um sinal do possível.
