COLOCAMOS EM DEBATE NESTA EDIÇÃO A DIMENSÃO
IDEOLÓGICA DA ARQUITETURA - O QUANTO SISTEMAS DE VALORES
DE UMA SOCIEDADE CONDICIONAM A PRODUÇÃO ARQUITETÔNICA
CONTEMPORÂNEA. A QUESTÃO É PENSAR SOBRE QUAL A IMPORTÂNCIA
DA IDEOLOGIA EM UM MUNDO GLOBALIZADO E COM ARQUITETOS TRABALHANDO EM CULTURAS
DISTINTAS. CONVERSAMOS COM ARQUITETOS E CRÍTICOS DE ARQUITETURA
PARA SABER A OPINIÃO DELES SOBRE SE, AFINAL, ATUALMENTE A ARQUITETURA
PRECISA DE UMA IDEOLOGIA.
Ideologia
é a ciência da formação das idéias.
No campo sociológico, podemos dizer que se resume no conjunto de
convicções: religiosas, filosóficas, jurídicas
ou mesmo sociais que o homem credita para si. É lógico que
nós, como arquitetos, levamos naturalmente para o nosso pensamento
arquitetônico e, conseqüentemente, para o nosso desenho, essas
convicções. Para mim, então, não é
a arquitetura que precisa de ideologia, mas sim o arquiteto que a concebe
é que deve expressar na sua obra a sua ideologia. Como somos profissionais
que trabalhamos com os espaços urbanos e arquitetônicos,
precisamos desse conteúdo ideológico para dessa forma expressar,
naquilo que produzimos, a nossa responsabilidade social.
Sérgio Parada, arquiteto
Partindo
do conceito de que a ideologia consiste em um sistema de idéias
que condicionam pessoas e grupos, sou contrário a qualquer tipo
de ideologia. Classificar pessoas e produtos em idéias preconcebidas
é uma forma de limitação da liberdade e, assim, as
correntes ideológicas acabam por restringir essa liberdade. Não
acredito em ideologia, justamente por acreditar que a arquitetura vive
da criação, que só existe quando realizada em plena
liberdade. Entendo que a liberdade de criação tem que ser
absoluta e que arquitetura é criatividade. Respeito os arquitetos
que seguem correntes ideológicas, mas acredito que, em 90% dos
casos, o produto nasce de uma criatividade natural e que, só mais
tarde, é encaixado em determinada corrente. Para mim, o que mais
influencia a arquitetura são os conceitos visuais e não
as idéias abstratas. Os resultados podem ser positivos ou negativos,
de acordo com o que cada um enxerga, mas de maneira nenhuma podem ser
limitados.
Alberto Botti, arquiteto
Não
existe uma arquitetura sem ideologia. Josep Maria Montaner em seu livro
sobre a crítica arquitetônica me coloca ao lado de Manfredo
Tafuri na afirmação de que cada obra de arquitetura contém
uma missão ideológica. Se a ideologia é o sistema
de critérios e idéias políticas, jurídicas,
morais, estéticos, religiosos e filosóficos que desenvolve
uma determinada classe ou um grupo social dominante, a arquitetura que
eles sustentam o expressa sempre com clareza. Ao longo da história,
a arquitetura refletiu os valores estabelecidos pelo poder político
e econômico, daí a nitidez e a honestidade formal dos edifícios
representativos da democracia grega; e pelo contrário, os mesmos
elementos foram utilizados em uma escala monumental e opressora pelos
regimes ditatoriais no século 20. O capitalismo atual tenta eliminar
a ideologia na universalidade das formas autônomas utilizadas como
símbolos do poder econômico das empresas globalizadas, enquanto
nos anos trinta a ideologia socialista dos municípios europeus
tentou criar uma arquitetura de low profile estético que resolvesse
as necessidades dos operários urbanos.
Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura
Marx
definiu a ideologia como um sistema de valores determinado pela elite
dominante e imposto aos demais setores da sociedade. Por outro lado, o
marxismo, ao se tornar institucionalizado, criou sua própria base
ideológica. A elite em sistemas capitalistas avançados instituiu
sua própria ideologia de um consumismo desenfreado, globalizado,
baseado no uso de fontes energéticas agressivas ao meio ambiente,
como os combustíveis derivados do petróleo. Qual o papel
da arquitetura, especialmente no contexto brasileiro de um capitalismo
em boa parte globalizado por fora e extremamente agressivo com relação
aos recursos naturais do País? Adotar a ideologia dominante como
ponto de partida dos projetos arquitetônicos, nesse contexto, pode
significar uma atitude acrítica em detrimento de um outro ideário,
como o do desenvolvimento sustentável, que entra em conflito com
a expansão ilimitada do mercado e exige uma nova forma de inteligência
projetual para defender o equilíbrio do planeta. Essa pode representar
uma nova base conceitual para o projeto de arquitetura, capaz de propor
novas relações sociais, econômicas, políticas
e ambientais pela adoção de uma teoria original de conjugar
idéias, que chamaria de holística, ou seja, preocupada em
preservar a complexidade da vida em nosso País e promover o bem-estar
da população em bases sustentáveis.
Bruno Padovano, arquiteto
Projetos
responsáveis devem conter uma forte carga ideológica. Devem
ser pensados para a sociedade na qual vão se inserir, devem propor
soluções novas para novos modos de vida. O ato de projetar
é, por natureza, a criação de algo que será
utilizado num futuro próximo ou distante e, dessa forma, deve ser
pensado. A concepção deve ser focada para o futuro e não
apenas atender as necessidades atuais mais óbvias. Mas no mundo
atual globalizado, de forte massificação e de escassez de
valores regionais, a arquitetura precisa de ideologias também mais
globais, como as relacionadas à sustentabilidade, à racionalidade
de meios e recursos, à melhoria das condições de
vida das pessoas.
Rodrigo Marcondes Ferraz, arquiteto
