A Casa Varanda, projetada pela arquiteta carioca Carla Juaçaba,
lembra conceitualmente uma das construções mais emblemáticas
da arquitetura do movimento moderno: a Casa Farnsworth, de Mies van der
Rohe. Assim como a obra-prima criada pelo célebre arquiteto alemão,
a residência carioca, localizada na Barra da Tijuca, se destaca
pelo predomínio absoluto do vidro, pela simplicidade das linhas
e estrutura metálica que suspende a construção do
solo. A inserção na natureza é outro ponto em comum
entre as obras cuja transparência permite integração
plena entre interior e exterior.
Diferente da Casa Farnsworth, a Casa Varanda possui uma planta simétrica
e retangular em que os quartos, dispostos nas extremidades, configuram
uma sala de estar central apelidada de "varanda" pela arquiteta.
"Quando os painéis estão abertos, tem-se a impressão
de estar numa varanda", justifica Carla Juaçaba. O telhado
se projeta 1,5 m para fora do perímetro da construção,
formando um beiral que protege as aberturas da chuva. Uma clarabóia
corta a cobertura longitudinalmente, iluminando todos os espaços
interiores. Orientadas na mesma direção, as paredes registram
os raios de luz de forma ritmada. "Como um relógio de sol,
a luz desenha a passagem do dia", descreve a autora do projeto.
Quando conta a história da casa, a arquiteta demonstra afeição
especial pelo jambeiro cujas flores cobrem o solo do terreno, formando
um tapete rosa. A residência foi construída há um
ano para um casal que, desde o princípio, se mostrou receptivo
à idéia de viver em uma "caixa acristalada", destituídos
da privacidade proporcionada pela construção convencional
de alvenaria e concreto. Até mesmo o banheiro da suíte está
cercado por painéis de vidro que, quando estão abertos,
integram o espaço fisicamente com a floresta de árvores
centenárias. A propósito, nenhuma árvore foi derrubada
para que a construção pudesse ser erguida. Para isso, a
casa teve de ser disposta transversalmente no terreno, numa clareira existente.
"A implantação foi um dos maiores desafios do projeto",
reconhece Carla Juaçaba.
Graduada em arquitetura e urbanismo pela Universidade Santa Ursula em
1999, Carla usa transparência e grandes vãos para integrar
suas construções à natureza. Além da conexão
entre interior e exterior, a arquiteta privilegia os espaços internos
contínuos, ordenados de forma clara e fluida. Os volumes arquitetônicos
simples, desenhados por poucos planos perpendiculares - somente
os necessários, diga-se de passagem - quase sempre estão
suspensos do solo por uma estrutura metálica. Materiais como pedras
brutas, por exemplo, compõem paredes estruturais aparentes. "Para
mim, a concepção estrutural é a essência da
forma", revela a arquiteta.
A correspondência entre forma e estrutura caracteriza obras como
o Atelier Residência (Rio de Janeiro, 2002), projetado por Carla
em parceria com o artista plástico Mário Fraga, e a Casa
Rio Bonito (Nova Friburgo, RJ, 2004), ambas premiadas na 40a Premiação
Anual do IAB-RJ. Bela na composição dos materiais e na simplicidade
formal, a Casa Rio Bonito é formada por duas paredes espessas,
feitas de pedra, que suportam quatro vigas metálicas. As vigas,
por sua vez, sustentam as lajes do piso e cobertura.
Na Casa Varanda, uma seqüência de vigas pré-moldadas
de concreto (com 6 m de comprimento), encaixada em ligas metálicas,
configura a laje revestida com um piso cimentado claro. As poucas paredes
existentes estão dispostas transversalmente em planta, de forma
a não obstruir a vista, ou seja, é possível enxergar
através da casa e ver o outro lado do lote.
O terreno lodoso exigiu fundações profundas. Assim, foram
executadas estacas de concreto de 20 m de comprimento, que transferem
as cargas dos pilares metálicos às camadas mais profundas
do solo. Carla conta que essa foi a parte mais demorada da obra. A estrutura
de perfis de aço soldados foi erguida em quinze dias e a cobertura,
composta por telhas de zinco-alumínio do tipo sanduíche,
foi instalada em apenas um dia. "É uma casa simples e de baixo
custo", conclui a autora do projeto.
INHABITABLE CRYSTAL CLOSET
Suspended from the ground, with glass facades and metal structure, the
house designed by the carioca architect Carla Juaçaba is a reminder,
from the conceptual point of view, of the Farnsworth House, by Mies
van der Rohe. Located in the middle of the Mata Atlântica, at
Barra da Tijuca, in Rio de Janeiro, the building has a rectangle-shaped
symmetric plan. The bedrooms are in the rectangle's extremities. Among
them there is a living room with a disposition and transparency that
make it seem like a varanda, from which the building was named: Casa
Varanda. A skylight extends itself lengthwise, illuminating all the
spaces of the house. The roof is projected 1.5 meters beyond the building's
perimeter, forming eaves which protect the openings from rain. Graduated
in architecture and urbanism by the Universidade Santa Ursula in 1999,
Carla Juaçaba, in her work, has privileged the integration between
interior and exterior and continuous internal spaces, ordered in a clear
and fluid manner. The simple architectural volumes, with only few perpendicular
plans - only the needed ones, one should add - are almost
always suspended from the ground by a metal structure. Materials such
as rough stones, for instance, compose apparent structural walls. "To
me, the structural conception is the essence of shape", states
the architect.