Os conceitos arquitetônico e climático se fundem nesta
casa unifamiliar localizada nas aforas de Santiago, Chile. Nela, a transição
exata do exterior para o interior (e vice-versa) foi borrada. E em seu
lugar fica a sensação de movimento proporcionada pelos quatro
diferentes materiais que funcionam como layers, ou camadas, ao formar
uma série de espaços e de zonas climáticas que subvertem
o significado do que é estar dentro ou estar fora. Sensação
incrementada pela mudança tanto de materiais quanto de iluminação.
O projeto de Frohn & Rojas - que possui escritórios
em Colônia (Alemanha), Santiago (Chile) e na Cidade do México
- teve como ponto de partida a localização do terreno,
à beira da estrada Panamericana e rodeado de altos arbustos que
dão privacidade e isolamento - e que, aqui, assumiram a função
de parede exterior da casa. "Enquanto as residências tradicionais
possuem paredes, janelas e portas claramente definidas para separar o
que é interno e o que é externo, esse projeto dissolve a
transição entre ambos e integra também o exterior
da casa", explicam os arquitetos. É por meio das configurações
espacial e material das diferentes camadas que o projeto desenvolve uma
relação adequada com o clima do local - que no verão
atinge 35ºC e no inverno, 0ºC. Cada elemento se caracteriza
por propriedades climáticas, atmosféricas, estruturais e
funcionais específicas, contribuindo para uma hierarquia dentro
do projeto.
O
primeiro elemento do sistema estrutural é o núcleo de concreto
armado, onde estão o banheiro e a cozinha. Dentro dele -
e também dentro da laje da residência - uma calefação
radiante com tubos de pex garante o aquecimento ou resfriamento da casa,
por meio de uma caldeira a gás.
O segundo elemento rodeia o núcleo de concreto com tiras estruturais
de madeira, que compõem o suporte da casa ao mesmo tempo em que
funcionam como estantes. Encaixadas umas sobre as outras, as tiras deixam
uma das esquinas superiores em balanço de 5,2 metros. O material
é pré-fabricado com madeira laminada e, em alguns locais,
optou-se pela abertura de parte do fechamento posterior, permitindo maior
passagem de luz natural.
A terceira envoltura da casa, apelidada de "milky shell" pelos
arquitetos, abarca todos os cômodos, separando-os climaticamente
do entorno. É constituída por placas de policarbonato multicelular
de 40 mm de quatro divisões (e três câmaras).
O policarbonato
permite que, em sua superfície, se vislumbrem as sombras das árvores
e dos arredores, o que dá maior conexão visual com o entorno.
O material também permite que os espaços entre as tiras
estruturais de madeira se iluminem com luz natural. Na escolha do policarbonato,
também influenciou seu bom isolamento térmico e a facilidade
de instalação.
As placas de policarbonato têm um U-value de 1,65W/m² K. O
U-value é uma medida de eficiência energética e mostra
o quanto de calor é conduzido pelo sistema de esquadrias. Quanto
menor o valor, melhor o isolamento - um vidro simples, por exemplo,
tem aproximadamente 5,2 W/m²K. Além das placas de policarbonato,
a milky shell também é composta por termopainéis
de vidro duplo, com um U-Value de aproximadamente 1,4 W/m²K.
Duas das superfícies da geometria estão totalmente envidraçadas,
e possuem painéis corrediços piso-teto que permitem a abertura
total do vão.
A camada mais exterior, chamada soft skin, é formada por dois
tecidos diferentes: uma tela energética e um tecido contra insetos
- materiais que são tradicionalmente utilizados em estufas.
A tela energética é composta por uma combinação
de fitas de alumínio refletoras, incorporadas em fios de polímeros
com o objetivo de reter o calor do sol chileno. A soft skin utiliza, de
acordo com os pontos cardeais, tecidos que refletem, pelo alumínio,
entre 50 e 75% da luz solar, o que proporciona uma economia de energia
de quase 35%. As superfícies próximas ao piso estão
tensionadas com tecido antiinseto. A abertura é feita por três
zíperes dispostos em locais distintos. Essa membrana mantém
uma distância máxima da camada de policarbonato de 4,5 metros,
proporcionando um espaço no quase-exterior que pode ser utilizado.
A menor distância entre as duas camadas é na cobertura, atingindo
apenas 45 cm. Esse espaço, no entanto, tem função
primordial: a circulação de ar, ao extrair o ar quente que
se junta abaixo da cobertura vindo de duas janelas no interior da casa.
FICHA TÉCNICA
Projeto arquitetônico: FAR Frohn & Rojas (Marc
Frohn, Mario Rojas, Amy Thoner, Pablo Guzman, Isabel Zapata)
Projeto bioclimático: Central TechnoPlus / Vaillant (Nelson Quilaqueo,
Christian Aguirre)
Área construída: 230 m²
Custo de construção: 580 doláres/m²