Em julho próximo, quando passar a presidência da UIA (União
Internacional dos Arquitetos) para seu substituto, durante a grande festa
programada para o 23º Congresso Internacional dos Arquitetos, que
se realizará em Turim, Itália, entre 29 de junho e 3 de
julho, Gaëtan Siew poderá comemorar os excelentes resultados
de sua gestão. Sua preocupação com a melhoria da
formação do arquiteto levou a UIA a atuar junto às
escolas de arquitetura, examinando e solucionando problemas, além
de criar, em conjunto com a Unesco (Organização das Nações
Unidas para Educação, Ciência e Cultura), um currículo
básico. Com isso, Siew espera preparar melhor os futuros profissionais
e facilitar sua entrada no mercado internacional.
A atuação de Siew também tratou de questões
ambientais, urbanas e ligadas à habitação, assim
como preservação do patrimônio e respeito à
diversidade cultural – temas nos quais vem trabalhando há
muitos anos em seu país, a ilha Maurício, no oceano Índico,
África.
Por meio de acordos assinados com entidades internacionais, vários
programas para essas áreas estão sendo implantados pelas
116 seções nacionais ligadas à UIA, que reúne,
atualmente, mais de 1,3 milhão de arquitetos em todo o mundo. Em
entrevista concedida à AU por ocasião de sua visita à
7a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em novembro
de 2007, Gaëtan Siew assinalou a importância dos grandes eventos
que congregam arquitetos de todas as partes do mundo e anunciou o congresso
de Turim, que está sendo organizado para ser "a bienal das
bienais".
aU QUAIS AS ATIVIDADES QUE O SENHOR
DESTACA NESSA SUA GESTÃO À FRENTE DA UIA?
GAËTAN SIEW Procuro atuar em
duas frentes que considero fundamentais: a primeira, a da profissão,
propiciando uma formação que capacite o arquiteto a desenvolver
bem seu trabalho, não só em seu país de origem, mas
também no exterior, uma vez que a mobilidade é atualmente
uma das características da profissão. A segunda frente é
uma atuação efetiva em política internacional, pois
muitos dos temas da atualidade estão ligados à arquitetura.
Para a formação profissional, desenvolvemos, juntamente
com a Unesco, um currículo básico para o ensino da arquitetura
a ser adotado por universidades de todo o mundo. Ainda nesse sentido,
estamos colocando em prática um serviço de intercâmbio
que proporciona a troca de experiências entre estudantes de arquitetura
de países ricos e de países pobres, colocando-os de frente
com as diferentes realidades profissionais do planeta. Também organizamos
equipes internacionais de experts que visitam as escolas de arquitetura
do mundo inteiro para avaliar e creditar o ensino, detectando problemas
e sugerindo possíveis soluções.
aU A UIA ESTÁ PROPONDO UMA
UNIFORMIZAÇÃO DO ENSINO DE ARQUITETURA...
SIEW A intenção é
preparar os futuros arquitetos para uma prática profissional cada
vez mais internacional. Hoje, uma pessoa que estudou em São Paulo
pode trabalhar tanto em Buenos Aires quanto em Cingapura, Cairo, Telaviv
ou Nova York. Para trabalhar fora, o diploma do profissional precisa ser
revalidado pelo país que o recebe – e se a escola onde se
formou segue um currículo organizado pela UIA e pela Unesco, sua
entrada no mercado internacional de trabalho certamente será facilitada.
E como trabalhar em um país inteiramente diferente do seu, sem
conhecer hábitos, cultura, contexto climático? Para solucionar
essa questão, em conjunto com a OMC (Organização
Mundial de Comércio), a UIA estabeleceu uma série de condições,
em nível internacional, que devem ser respeitadas tanto pelos países
que aceitam o arquiteto estrangeiro, quanto pelo profissional que se transfere
para o exterior.
aU ALÉM DESSAS INICIATIVAS,
QUAIS AS AÇÕES DA UIA REFERENTES AOS GRANDES TEMAS ATUAIS,
COMO CIDADE, HABITAÇÃO, SUSTENTABILIDADE?
SIEW O desenvolvimento sustentável
está na agenda da UIA desde 1993, mas hoje é uma prioridade
internacional. Para todas as áreas de atividade do arquiteto estabelecemos
nossas políticas, em estreita colaboração com as
instituições internacionais. Com relação ao
patrimônio, trabalhamos com a Unesco e com o Docomomo apoiando normas
internacionais sobre preservação, recuperação,
reciclagem ou requalificação desses bens culturais. Recentemente,
por um acordo com o Docomomo, demos início a um recenseamento mundial
de todos os edifícios do patrimônio do século 20.
Já para as questões de moradia social e urbanização,
trabalhamos com o Programa Habitat, e para os temas ligados ao meio ambiente,
com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Ainda
com relação à arquitetura sustentável, estamos
organizando uma Carta Internacional de Arquitetura Eqüitativa, que
debaterá as questões das mudanças climáticas
e do desenvolvimento sustentável.
aU QUAL A BASE DA ARQUITETURA EQÜITATIVA?
SIEW Está fundamentada no
respeito ao meio ambiente – desenvolvimento sustentável com
redução de consumo, conservação de energia
e redução das emissões de dióxido de carbono.
Mas também no respeito à diversidade cultural. Não
se pode sair por aí construindo Dubais. Cada país tem sua
própria cultura, um patrimônio que o identifica e que precisa
ser respeitado, preservado e transmitido para o mundo de amanhã.
É esse o espírito da nossa Carta. Esperamos contar com a
participação de arquitetos, paisagistas e engenheiros, de
dirigentes do setor imobiliário, empresários do setor industrial,
do comércio de materiais, das áreas de transporte e de manutenção,
e de todos os que atuam no setor da construção, em todo
o mundo, para que juntos possamos trabalhar para preservar os recursos
naturais do planeta. O conhecimento, as técnicas, as tecnologias
e as inovações devem servir a esse objetivo. Outra atividade
que estamos desenvolvendo é uma ação humanitária
direta nos países atingidos por grandes catástrofes naturais.
Nossas equipes vão a esses locais e trabalham na recolocação
das populações e na reconstrução das cidades
de maneira sustentável, ao lado de instituições humanitárias
que dão assistência às populações atingidas.
Em 2007, estivemos no Peru, no Paquistão e no Sudão.
aU OS ARQUITETOS DESSAS EQUIPES
SÃO DO PRÓPRIO PAÍS ATINGIDO PELA CATÁSTROFE?
SIEW Não. Eles vêm
de várias partes do mundo e trabalham junto aos arquitetos locais.
Nossas equipes são formadas por especialistas em reconstrução
de cidades e por recém-formados que querem ter uma experiência
internacional. Eles atuam como voluntários, a exemplo dos Médicos
sem Fronteira. Os países atendidos por nossas equipes têm
as seções locais de arquitetos filiadas à UIA.
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