Para os mais desavisados que passam pela rua Estados Unidos, zona Sul
de São Paulo, a "obra" ao lado da hightech Micasa parece
que não termina nunca. A caixa de concreto aparente até
recebeu um pequeno luminoso com a inscrição Vol B. Mas,
espera um pouco, a superfície não está mal-acabada?
Vai ficar assim?
Vai. Vai ficar assim mesmo. Dessa vez o arquiteto Marcio Kogan -
ele mesmo, o rei da perfeição nos detalhes - decidiu
seguir a direção da casualidade e foi deixando uma fôrma
ali, um risco aqui, uma massa aparente lá. "Esse projeto impreciso
e caótico vem de uma seqüência de obras supercomportadas
e arrumadas, e é exatamente o oposto do que a gente sempre faz",
explica Kogan. Pode parecer paradoxal, mas a loja Volume B foi feita para
mostrar os móveis milimetricamente projetados e futuristas da alemã
Vitra, marca referência de design de mobiliário para escritórios.
A Volume B funciona como uma extensão da Micasa, que também
comercializa móveis de luxo. À noite, seus espaços
podem virar palco de eventos e exposições e, por essa razão,
o volume possui três acessos: um principal, pelo interior da Micasa,
outro direto pela rua Estados Unidos e um acesso de serviços. "O
cliente tem uma visão arrojada de arquitetura e embarcamos juntos
nessa idéia", explica. "A loja tem uma aparência
neutra, mais sóbria, que não agride a construção
ao lado", conclui.
O volume de pé-direito duplo e 250 m² de área construída,
é formado por paredes de concreto aparente com a superfície
externa estampada por fôrmas de madeira em posições
que mostram a pseudodespreocupação com o nivelamento. O
resultado foi um conjunto de paredes ondulantes, que se movimentam de
acordo com a direção em que incide a luz. A robustez do
concreto é rasgada pela transparência do vidro nas fachadas
frontal e posterior. Por essas aberturas, as cores e o design dos móveis
se destacam em meio ao acinzentado que veste a caixa. No salão
de piso cimentado se vê a mesma displicência nos detalhes
e as paredes denunciam a massa grossa aparente e algumas marcações
de giz dos pedreiros. Sintomáticos X cruzam os vidros e ainda resistem
à equipe de limpeza, assim como algumas cadeiras da época
da obra que podem ser vistas por ali invocando uma displicência
provocada. A caixilharia é de aço corten, aquele que vai
enferrujando com o tempo. Até os leds do luminoso da fachada expõem
fios soltos.
"Todo o conceito do projeto baseia-se em um raio X do que está
por trás de uma obra não-acabada", explica Kogan. "É
o lado B da engenharia", conclui.
Pedriscos cinza-escuro preenchem o pátio externo à volta
da construção e parecem sumir sob o volume que flutua delicadamente
acima. Ao fundo, o pátio encontra o escritório-ateliê
do proprietário, uma pequena construção protegida
por telas de aço utilizadas na confecção de pisos,
mas que agora funcionam como brises. "Estávamos discutindo
o uso de brises de madeira, de custo elevado, quando encontramos uma grelha
dessas no local. Foi a solução perfeita", explica Kogan.
O escritório é enterrado cerca de 70 cm, a ponto de o nível
da mesa alinhar-se diretamente com o piso externo, posição
que confere uma visão inusitada do pátio que contém
uma árvore. Acima do pequeno volume, um terraço complementa
o conjunto. Segundo o arquiteto, as soluções na obra surgiram
ao longo do percurso, de maneira espontânea, sempre dentro das técnicas
tradicionais de construção. Prestes a ganhar uma premiação
em uma bienal na Itália, a loja desnuda os conceitos do que seja
luxo, ou lixo, e ganha notoriedade internacional. "É a celebração
do low tech, a antiloja de luxo", conclui.
AU LEITURAS
AU 108 - Parque multitemático. Reportagem sobre o projeto
de Marcio Kogan para o concurso de idéias do Los Angeles Civic
Park
AU 119 - Um edifício de refinado humor. Reportagem sobre
o Fasano Hotel, de Marcio Kogan e Isay Weinfeld
AU 123 - Moldura contemporânea. Reportagem sobre a casa
Du Plessis, de Marcio Kogan
AU 132 - Pilares lisérgicos. Reportagem sobre o Edifício
Minneapolis, de Isay Weinfeld e Marcio Kogan
AU 159 - Olhar para dentro. Reportagem sobre casa em São
Paulo, de Marcio Kogan
THE CONCRETENESS
OF CHANCE
This time, Marcio Kogan, the king of detail perfection - followed
the direction of recklessness and left a formwork there, a line here,
some mortar over there. It may seem paradoxical, but the Volume B store
was built to exclusively shelter the millimetrically designed and futuristic
furniture of the German firm Vitra, a benchmark in office furniture
design.
The double height volume with 250 m² of
built area is formed by apparent concrete walls which have the external
surfaces patterned by wooden moulds, forming a set of wavy walls that
move according to the incidence of light. The glass transparency in
the front and back façades enhances the furniture color and design
amidst the gray color dressing the box. "The project is based on
an X ray of what is behind a work of art. It is the side B of engineering",
as Kogan explains. According to the architect, the solutions appeared
over time, in a spontaneous and random manner, always within the traditional
building techniques. The store unveils the concepts of what luxury or
garbage are, and gains international fame.