Já era certo que o arquiteto catalão Jordi Garcés
privilegiaria a bela vista do mar Mediterrâneo ao conceber a casa
Nuria Amat, localizada no alto de um escarpado em Tamariu, na Costa Brava,
Espanha. O cenário clamava por isso. O real desafio do projeto
era – além de valorizar a vista – preservar a paisagem
e a topografia locais. Ao investir em uma linguagem arquitetônica
baseada nas formas abstratas, "derivadas de linhas puras e desnudas",
como descreve Garcés, a idéia era criar uma arquitetura
que "não interferisse no figurativismo do alcantilado".
A construção exigiu o mínimo de terraplenagem possível.
"Terraplenar, neste caso específico, significava subverter
a paisagem", afirma Garcés, para quem a implantação
da casa foi a etapa mais trabalhosa do projeto. A habitação
é composta por lajes de concreto apoiadas em alvenarias de blocos
cerâmicos e nas rochas do terreno que, dessa forma, deixam de ser
apenas elementos paisagísticos para assumir uma função
estrutural. O desafio era encontrar uma posição em que a
casa se apoiasse o menos possível no rochedo.
A solução partiu da forma. A casa de 440 m² é
composta por dois prismas perpendiculares que se intersecionam. Além
de reduzir o contato da edificação com o alcantilado, tal
disposição e volumetria levaram à criação
de espaços fundamentais e marcantes na arquitetura, como o pátio
e a sala de pé-direito duplo. Ao acessar o nível inferior
por uma escada metálica branca, surge uma sucessão de espaços
que fluem vertical e horizontalmente. Salas de jantar, de estar, cozinha
e escritório convivem em harmonia sem se sobrepor e a "tensão
produzida entre a rocha e a implantação é cada vez
mais visível", nas palavras do arquiteto Victor Figueras,
integrante do escritório.
Em um texto sobre a obra, Figueras parece descrever bem como é
percorrer os diferentes prismas que formam a casa. No primeiro, mais próximo
ao acesso, o observador se depara com a "abstração
de uma geometria pura" e com a imensidão do Mediterrâneo
ao horizonte. Já no segundo prisma, a linha fica tortuosa e a rocha
torna-se o "principal material de construção".
"A relação do indivíduo com a natureza se transforma
à medida que passa de um prisma para outro", explica Figueras.
Uma outra escada conduz a dois dormitórios contíguos num
piso inferior. Lá, a casa literalmente incorpora a rocha, que passa
a fazer parte dos espaços internos. Ainda mais próximo do
nível do mar, o quarto reservado para convidados poderia ser considerado
o local mais recôndito da residência. Quando as portas deslizantes
de vidro se abrem, o ambiente se integra com o terraço, cujo piso
foi revestido com travertino italiano, o mesmo do interior de toda a construção.
"Quis transmitir a idéia de continuidade", diz Garcés.
Uma escada externa feita com a pedra do rochedo liga o terraço
inferior ao superior. Implantada numa cota mais alta, a piscina é
descrita pelo arquiteto como um "remanso entre as rochas". O
contexto e a harmonia com a natureza fazem com que esta parte da obra
remeta à Piscina das Marés, em Leça da Palmeira,
criação do célebre arquiteto português Álvaro
Siza Vieira, cujo trabalho Garcés aprecia. Também revela
admiração por Le Corbusier e por seu conterrâneo,
Josep Antoni Coderch.
Apesar de não gostar do termo por considerá-lo muito desgastado
e desvirtuado, Garcés diz que considera a casa Nuria Amat uma obra
"minimalista". "Sempre procuro trabalhar com os mínimos
meios possíveis", explica o arquiteto, que é autor
de projetos importantes como a ampliação e reforma do Museu
Picasso (1999), o Pavilhão Olímpico no Vale Hebron (1991)
e o hotel na Plaza de Espana (1992), todos em Barcelona.
JIG-SAW PUZZLE ON THE CLIFF
Upon investing in an architectonic language based on abstract forms,
"derived from pure and naked lines", the Catalan architect
Jordi Garcés tried not to interfere in the "pinnacle quality"
of the cliff at Costa Brava, in Girona, Spain. Building the residence
demanded the minimum leveling possible. "leveling, in this specific
case, meant subverting the landscape", states Garcés, for
whom implementing the house was the more demanding stage of the project.
The 440sqm-house is made of two perpendicular prisms intersecting one
another. Besides reducing the contact between the building and the summit,
such disposition and volume led to creating fundamentally outstanding
spaces in its architecture, such as the patio and the high ceiling living
room.
Even though disliking the term for considering
it very worn out and depreciated, Garcés says he considers the
Nuria Amat house a "minimalist" piece of work. "I always
try to work with the minimum resources possible", declares the
architect.