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Arquiteturas & Estruturas

O CORPO E A ALMA DO NEGÓCIO
"...QUEM NÃO TEM COMPETÊNCIA, NÃO SE ESTABELECE...", COM ESTA MÁXIMA, OS ESPAÇOS COMERCIAIS FORAM ENCONTRANDO SEUS LUGARES, FORMAS E MODOS NAS CIDADES. QUESTÃO DE TALENTO E PERSPICÁCIA, SE FAZEM ATRAENTES AOS QUE PASSAM, RECORDAM-LHES AS NECESSIDADES, ACENDEM-LHES O DESEJO E A CURIOSIDADE

POR YOPANAN REBELLO E MARIA AMÉLIA D'AZEVEDO LEITE



O viajante que transita pela Rodovia dos Bandeirantes, importante eixo rodoviário que liga a cidade de São Paulo ao interior do Estado, pode surpreender-se com o curioso edifício em treliças metálicas que se desenvolve transversalmente sobre as pistas. Semelhante a uma ponte, trata-se de um shopping center, tipo de complexo comercial que se tornou freqüente a partir de meados do século 20 em todo o mundo. Como mais uma influência do modelo estadunidense de urbanização periférica das cidades, baseado no deslocamento centro-subúrbio por automóvel. Em uma leitura mais ampla, veremos que o inusitado edifício elevado contém grande parte dos conteúdos históricos que envolvem a evolução e a resolução construtiva dos espaços arquitetônicos ligados ao comércio.

Tão imemorial quanto o morar, o comércio está intimamente ligado à história da humanidade, tendo se iniciado com a prática do escambo. Os bens ou mercadorias utilizados para escambo geralmente se apresentavam em estado natural e alguns, por sua utilidade, passaram a ser mais procurados do que outros e assumiram a função de moeda, circulando como elemento trocado por outros produtos e servindo para avaliar-lhes o valor. Eram as moedas-mercadorias, das quais se destacam o gado e o sal como algumas das mais importantes.

Não é à toa que ambas deixaram marca de sua função como instrumento de troca em nosso vocabulário: até hoje empregam-se palavras como pecúnia (dinheiro) e pecúlio (dinheiro acumulado), derivadas da palavra latina pecus (gado). Da mesma forma, a palavra salário tem como origem a utilização do sal, em Roma, para o pagamento de serviços prestados.

Assim como os povos ancestrais migravam à procura de alimento, o comércio nasce nômade. Fundamentado na troca feita de pessoa para pessoa, a atividade foi implantada por mascates e ambulantes, figuras que atravessaram a história deslocando-se de um lugar ao outro, inaugurando as formas de comércio que conhecemos hoje. Nos seus primórdios, o comércio acontecia ao ar livre, em feiras onde os produtos eram expostos no chão, bem no caminho dos potenciais compradores. Sem maior proteção, ficavam sujeitos às mais diversas condições do ambiente. A principal preocupação era que fossem vistos pelos transeuntes, em uma forma primitiva de merchandising. Prova disso é o remoto costume chinês de usar as pontes como grandes feiras, com o intuito de aproximar os usuários das mercadorias. Não raro, ainda nos defrontamos com situações semelhantes nas passarelas e viadutos de nossas cidades.

O shopping center sobre a rodovia recupera, assim, em versão contemporânea, duas características atávicas da atividade comercial: a vinculação com as rotas de deslocamentos das pessoas e o apelo à curiosidade dos passantes, estimulando-os a parar e comprar. Na ânsia de se lançarem, atrevidos, sobre os caminhos humanos, enquanto servem de passagem também são intrigantes e atraem os olhares. Por essa característica, os espaços comerciais estabeleceram, de há muito tempo, interessantes parcerias com as estruturas treliçadas.

Baseados no princípio da triangulação de suas barras-componentes, esses sistemas tiveram grande avanço a partir do século 18, quando a mecânica racional passou a incorporar as aplicações vetoriais às técnicas de construção. As treliças caracterizam-se por apresentar apenas esforços de tração e compressão simples, resultando em seções muito esbeltas nas peças, comparadas àquelas encontradas nas estruturas submetidas à flexão.

Dadas as vantagens que oferecem em termos de peso próprio reduzido e da flexibilidade para vencer todo tipo de vão, as treliças sempre foram amplamente utilizadas na arquitetura comercial, mesmo quando a disponibilidade de materiais construtivos para sua execução restringia-se apenas às fibras vegetais, como madeira e bambu. Com o uso do aço e do alumínio, materiais que apresentam boa resistência aos dois esforços predominantes, sua adoção como alternativa estrutural ampliou-se sobremaneira, seja nas edificações permanentes e de grande porte, como os extensos entrepostos de mercadorias de redes varejistas da atualidade, seja nos abrigos temporários, como as tradicionais barracas de feiras livres.

Buscando igual desempenho econômico e construtivo, soluções contemporâneas classificadas como arquitetura efêmera são utilizadas para apresentação e venda de produtos durante curtos períodos, para o estoque de mercadorias, ou quando se deseja leveza estética. De concepção racional, objetivando o processo de montagem e desmontagem, têm grande aplicação nesse segmento as estruturas em membranas, feitas com lonas atirantadas e estruturas pneumáticas (alta pressão) ou infladas (baixa pressão). Ambos os sistemas apresentam reduzido peso próprio por trabalharem com superfícies tracionadas. Entretanto, devido à sua esbeltez, têm como desafio a estabilização das formas projetadas, principalmente sob o efeito das cargas acidentais, como ventos e águas pluviais. Também requer atenção a ancoragem no solo, devido à particular aerodinâmica dessas estruturas.

Os espaços permanentes de comércio, as lojas, consolidaram-se a partir do crescimento dos núcleos urbanos. Aproveitando-se dos locais utilizados pelas feiras e pelas trocas informais apresentaram grande expansão após a revolução industrial. O aporte de uma quantidade maior de produtos de consumo e a concentração progressiva de pessoas nas cidades conduziram a uma necessidade de organização desse segmento. Inicialmente com fachadas francamente abertas para as ruas, é a partir de meados do século 18 que surgem lojas semelhantes às atuais, com vitrinas para exibir mercadorias.

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