O viajante que transita pela Rodovia dos Bandeirantes, importante eixo
rodoviário que liga a cidade de São Paulo ao interior do
Estado, pode surpreender-se com o curioso edifício em treliças
metálicas que se desenvolve transversalmente sobre as pistas. Semelhante
a uma ponte, trata-se de um shopping center, tipo de complexo comercial
que se tornou freqüente a partir de meados do século 20 em
todo o mundo. Como mais uma influência do modelo estadunidense de
urbanização periférica das cidades, baseado no deslocamento
centro-subúrbio por automóvel. Em uma leitura mais ampla,
veremos que o inusitado edifício elevado contém grande parte
dos conteúdos históricos que envolvem a evolução
e a resolução construtiva dos espaços arquitetônicos
ligados ao comércio.
Tão imemorial quanto o morar, o comércio está intimamente
ligado à história da humanidade, tendo se iniciado com a
prática do escambo. Os bens ou mercadorias utilizados para escambo
geralmente se apresentavam em estado natural e alguns, por sua utilidade,
passaram a ser mais procurados do que outros e assumiram a função
de moeda, circulando como elemento trocado por outros produtos e servindo
para avaliar-lhes o valor. Eram as moedas-mercadorias, das quais se destacam
o gado e o sal como algumas das mais importantes.
Não é à toa que ambas deixaram marca de sua função
como instrumento de troca em nosso vocabulário: até hoje
empregam-se palavras como pecúnia (dinheiro) e pecúlio (dinheiro
acumulado), derivadas da palavra latina pecus (gado). Da mesma forma,
a palavra salário tem como origem a utilização do
sal, em Roma, para o pagamento de serviços prestados.
Assim como os povos ancestrais migravam à procura de alimento,
o comércio nasce nômade. Fundamentado na troca feita de pessoa
para pessoa, a atividade foi implantada por mascates e ambulantes, figuras
que atravessaram a história deslocando-se de um lugar ao outro,
inaugurando as formas de comércio que conhecemos hoje. Nos seus
primórdios, o comércio acontecia ao ar livre, em feiras
onde os produtos eram expostos no chão, bem no caminho dos potenciais
compradores. Sem maior proteção, ficavam sujeitos às
mais diversas condições do ambiente. A principal preocupação
era que fossem vistos pelos transeuntes, em uma forma primitiva de merchandising.
Prova disso é o remoto costume chinês de usar as pontes como
grandes feiras, com o intuito de aproximar os usuários das mercadorias.
Não raro, ainda nos defrontamos com situações semelhantes
nas passarelas e viadutos de nossas cidades.
O shopping center sobre a rodovia recupera, assim, em versão contemporânea,
duas características atávicas da atividade comercial: a
vinculação com as rotas de deslocamentos das pessoas e o
apelo à curiosidade dos passantes, estimulando-os a parar e comprar.
Na ânsia de se lançarem, atrevidos, sobre os caminhos humanos,
enquanto servem de passagem também são intrigantes e atraem
os olhares. Por essa característica, os espaços comerciais
estabeleceram, de há muito tempo, interessantes parcerias com as
estruturas treliçadas.
Baseados no princípio da triangulação de suas barras-componentes,
esses sistemas tiveram grande avanço a partir do século
18, quando a mecânica racional passou a incorporar as aplicações
vetoriais às técnicas de construção. As treliças
caracterizam-se por apresentar apenas esforços de tração
e compressão simples, resultando em seções muito
esbeltas nas peças, comparadas àquelas encontradas nas estruturas
submetidas à flexão.
Dadas as vantagens que oferecem em termos de peso próprio reduzido
e da flexibilidade para vencer todo tipo de vão, as treliças
sempre foram amplamente utilizadas na arquitetura comercial, mesmo quando
a disponibilidade de materiais construtivos para sua execução
restringia-se apenas às fibras vegetais, como madeira e bambu.
Com o uso do aço e do alumínio, materiais que apresentam
boa resistência aos dois esforços predominantes, sua adoção
como alternativa estrutural ampliou-se sobremaneira, seja nas edificações
permanentes e de grande porte, como os extensos entrepostos de mercadorias
de redes varejistas da atualidade, seja nos abrigos temporários,
como as tradicionais barracas de feiras livres.
Buscando igual desempenho econômico e construtivo, soluções
contemporâneas classificadas como arquitetura efêmera são
utilizadas para apresentação e venda de produtos durante
curtos períodos, para o estoque de mercadorias, ou quando se deseja
leveza estética. De concepção racional, objetivando
o processo de montagem e desmontagem, têm grande aplicação
nesse segmento as estruturas em membranas, feitas com lonas atirantadas
e estruturas pneumáticas (alta pressão) ou infladas (baixa
pressão). Ambos os sistemas apresentam reduzido peso próprio
por trabalharem com superfícies tracionadas. Entretanto, devido
à sua esbeltez, têm como desafio a estabilização
das formas projetadas, principalmente sob o efeito das cargas acidentais,
como ventos e águas pluviais. Também requer atenção
a ancoragem no solo, devido à particular aerodinâmica dessas
estruturas.
Os espaços permanentes de comércio, as lojas, consolidaram-se
a partir do crescimento dos núcleos urbanos. Aproveitando-se dos
locais utilizados pelas feiras e pelas trocas informais apresentaram grande
expansão após a revolução industrial. O aporte
de uma quantidade maior de produtos de consumo e a concentração
progressiva de pessoas nas cidades conduziram a uma necessidade de organização
desse segmento. Inicialmente com fachadas francamente abertas para as
ruas, é a partir de meados do século 18 que surgem lojas
semelhantes às atuais, com vitrinas para exibir mercadorias.
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