Antítese da mata selvagem, a "selva de pedra" –
construção humana, coletiva, artificial – revela em
uma primeira vista a forte contradição entre a cidade e
a natureza. De fato, a integração da natureza e da construção
traz alguns problemas práticos, técnicos e estéticos.
A vegetação protege. Mas também esconde, encobre,
causa estragos. Não é à toa que, para um grande número
de arquitetos, a natureza – e, na sua versão urbana, a vegetação
– é impopular. Ela cria uma atmosfera suspeita, aumenta a
sensação de risco, gera custos, coloca obstáculos
às construções. A ponto de um vencedor do Pritzker,
Paulo Mendes da Rocha, declarar que "a natureza é uma droga,
não serve para nada, é um trambolho", em entrevista
à revista Caros Amigos.
A análise de temas contemporâneos e urgentes, como a sustentabilidade
e o aquecimento global, abre um novo olhar sobre a paisagem urbana. Uma
mudança de paradigma revela que os benefícios reais da vegetação
ultrapassam os supostos problemas levantados. Se houver bom planejamento
e eficiente gestão dos investimentos, os custos de manutenção
de árvores em áreas urbanas serão muito inferiores
aos benefícios econômicos que geram para todos. Sem descartar
os crescentes benefícios climáticos que podem trazer no
futuro.
Problemas ambientais e climáticos da Metrópole
O cientista inglês James Lovelock recentemente lançou um
alerta aos povos que vivem em áreas tropicais do planeta. "Pelas
minhas estimativas, a situação se tornará insuportável
antes mesmo da metade do século. Lá pelo ano 2040, a maioria
das regiões tropicais, incluindo praticamente todo o território
brasileiro, será demasiadamente quente e seca", disse ele
à revista Veja, em 2006.
Torcendo para que Lovelock esteja enganado, os primeiros lugares a serem
abandonados por conta das mudanças climáticas e da perda
da qualidade de vida, serão as cidades. Núcleos da produção,
berços da cultura urbana e das finanças. A sobreposição
dos efeitos climáticos globais e locais transforma as cidades –
sob o clima tropical – em verdadeiras "ilhas de calor".
E traz consigo, em seu ritmo cada vez mais acelerado, problemas ainda
muito mais graves, tais como desconforto, desigualdade socioambiental,
aumento de estresse térmico, aumento de consumo e dos custos de
energia para o resfriamento de imóveis e de automóveis.
Enfim, prejuízos crescentes para a economia e para o desenvolvimento
(sustentável) das cidades localizadas em regiões de clima
predominantemente quente.
Embora as áreas urbanas no Brasil representem apenas 2% do território
nacional, mais de 80% dos brasileiros moram nesses gigantes hot spots.
Dentro do município de São Paulo, as medições
de temperatura do ar já mostram diferenças de até
12ºC entre o centro urbano e seu entorno rural distante. Isso significa
o dobro do previsto nas mais pessimistas estimativas sobre as mudanças
climáticas globais. Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Meteorologia,
divulgado em abril de 2007, a temperatura da cidade de São Paulo
subiu, em quase um século, o triplo do observado na média
mundial. O trabalho foi realizado a partir da análise de médias
históricas anuais.
Causa local: o uso do solo
A construção desordenada de metrópoles, com materiais
e geometrias não-adaptados segundo aspectos climáticos,
trouxe um desequilíbrio imprevisto ao bem-estar urbano. A impermeabilização
do solo em conjunto com o desmatamento resultou em um baixíssimo
percentual de cobertura vegetal. Como conseqüência, ocorreu
o aquecimento local das superfícies urbanas. O asfalto em si não
é algo tão ruim – desde que seja sombreado.
A cobertura vegetal é, do ponto de vista global e local, um regulador
climático fundamental do planeta. O planejamento dessa cobertura
– tanto pelo setor privado, no projeto arquitetônico e paisagístico
de uma obra, quanto pelo setor público – é importantíssimo,
dada a sua influência, positiva ou negativa, nas condições
gerais.
Os solos abertos associados à vegetação regulam
o balanço hídrico e energético resultando em superfícies
mais frias. O conjunto favorece a absorção e a infiltração
de água (o que evita enchentes), o sombreamento e a evaporação
controlada. Em conseqüência, o conforto térmico e a
eficiência energética fazem diminuir a necessidade de resfriamento
artificial. Problemas – e soluções – urbanos
que não se restringem aos limites da porta do edifício e
ao ambiente externo.
Em escala regional, a capacidade da vegetação de transformar
grandes partes da radiação solar em vapor d'água
pode gerar maior fração de calor latente dispersível,
em vez de calor sensível. A vegetação absorve, filtra,
retém e armazena todos os impactos naturais e também aqueles
gerados pelo homem e danosos para nós mesmos. Entre esses impactos
podemos citar a fortíssima radiação solar, as tempestades,
o barulho, o CO² e outras emissões – todos presentes
em abundância nas grandes cidades tropicais. Sem esquecer todo o
ar respirado, desde sempre, pela humanidade.
Ainda não existe nenhuma solução técnica
e altamente capaz de substituir e garantir as mesmas funções
da vegetação viva, com milhões de metros quadrados
de área (ou seja, de massa) foliar. Mas existem tentativas de substituição
parcial.
Um exemplo interessante é o projeto Three Air Trees (Três
Árvores Aéreas), criado pelo escritório Ecossistema
Urbano, que inventou réplicas de árvores – denominadas
"próteses" – que evaporam a água e resfriam
o meio ambiente urbano, tal como uma árvore verdadeira, sombreando
o espaço público da cidade de Vallecas na Espanha.
Outra referência importante é o conceito da Expo'92 em Sevilha,
desenvolvido pelo escritório Site Arquitetos, que incorporou vegetação
própria junto com pulverizadores de água para aumentar a
taxa de evaporação e criar sombra capaz de gerar qualidade
no espaço público.
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